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Talbot, uma viagem desde a infância

Falámos com Paulo Romão Brás e Miguel Ferreira, os músicos que lançaram recentemente o disco Talbot, numa viagem desde a infância, que resultou num conjunto de músicas com vida própria. 
Vejam aqui “Voo Circular”, o primeiro vídeo do disco:

Em primeiro lugar, como nasce a vossa paixão pela música?

Paulo Romão Brás – Desde que me lembro, oiço música todos os dias. Em miúdo ouvia muita rádio, lia e colecionava religiosamente tudo o que encontrava sobre música. Na altura vivia em Portalegre e as novidades rareavam. Sempre que surgia um disco novo entre amigos era rapidamente duplicado. As cassetes eram regravadas vezes sem conta. Já em Lisboa, passava horas em lojas de discos e assistia ao maior número de espetáculos que podia.
A minha primeira compra foi uma cassete da Suzy Quatro e desde então a coleção não tem parado de aumentar…

Miguel Ferreira – A minha foi o Supermix 8… Temos de começar por algum lado! A música é uma descoberta e isso é uma das coisas que lhe dá interesse. Agora acontece cada vez menos… consegues ouvir tudo e mais alguma coisa com um click do rato. Não que isso seja propriamente mau, mas roubou a diversão do processo de descoberta. Quando tens tanta oferta é mais complicado apaixonares-te por algo.

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Quem está por detrás de Talbot e como se descrevem enquanto músicos?

MF – Eu e o Paulo já tínhamos um projeto de música electrónica, mas mais experimental, os Low Pressure System. Editámos vários temas em compilações desde 2003. Muita da base dos Talbot tem origem nessa altura, mas desta vez queríamos criar um ambiente mais Pop. Não me considero exatamente um músico, mas sou um apaixonado pelo som. Gosto muito de manipular e experimentar.

PRB – Enquanto artista visual vejo a música como uma extensão do meu trabalho. Utilizo-a muitas vezes nas minhas peças, sobretudo em vídeo e instalação.
Na minha adolescência fiz parte de alguns projetos (do pop/rock ao experimental) e sempre gostei de explorar diferentes sonoridades.

Falem-nos sobre o álbum “Talbot”. Como o descrevem e o que pretendem transmitir com ele?

PRB – O nosso álbum é uma viagem de Gáfete e Reinaldes – locais onde passámos as nossas infâncias – até Lisboa. Neste percurso coexistem influências de cariz mais tradicional com sons mais urbanos e contemporâneos.

MF – Este álbum também reflete a nossa amizade. Foi arquitetado num espírito construtivo, de descoberta mútua, sem pressas nem prazos. Não houve egos a interferirem com o trabalho e acho que isso ajudou ao resultado final.

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O vosso disco conta com várias vozes e participações. Falem-nos dessas escolhas e como surgiu a oportunidade destas colaborações.

PRB/MF – Foi um processo muito natural. Todos os convidados são nossos amigos. Quando estás em processo criativo é importante trabalhar com pessoas com quem tens empatia e que compreendem a tua linguagem.

O que é para vocês a música e como a trabalham?

PRB – O nosso processo de criação é muito diversificado, por vezes, errático e casual. Por exemplo, iniciámos este projecto com a ideia de fazer música 100% pop em português e de repente quando reunimos o primeiro material, reparámos que de pop restava pouco. As músicas tinham ganho vida própria e seguido o seu caminho.

MF – Apesar de termos uma ideia inicial do que queríamos fazer, não nos deixámos prender criativamente, daí que o resultado final seja uma amálgama de diferentes experiências e cruzamentos.

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Em todo o mundo, com quem gostariam de colaborar e em que palco gostariam de apresentar a vossa música?

PRB – Laurie Anderson, David Byrne, Morrissey, Airto Moreira, Van Morrison, Ennio Morricone, Janita Salomé, DJ Shadow, João Peste, Brian Eno, António Pinho Vargas, Kate Bush, Marianne Faithfull, Meredith Monk, e não me alongo mais porque a lista ficaria muito extensa.

MF – Sinceramente prefiro colaborar com amigos do que com alguma celebridade ou artista que admire. Acho que me ia sentir intimidado… Mas se a Annie Clark quisesse colaborar comigo eu colaborava com ela… Quanto a palcos, os Talbot não foram pensados para tocar ao vivo, mas vamos arranjar maneira de transpor as densas camadas sonoras que constituem as músicas para algo mais orgânico que resulte em palco.

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Entrevista: Ana Suzel
Fotografia: Chtcheglov Pinti