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Stranger Things: Os Amigos não Mentem

** spoilers **

Questionei muito por onde começar esta crítica/revisão da primeira temporada (sim, porque vai, sem dúvida, haver uma continuação desta série que explodiu como há algum tempo não explodia nada) da série Stranger Things, da Netflix. Começo pelas coisas más (são poucas), pelas boas, pelo contexto, pela minha falta de pressa em ver a série assim que ficou disponível? As hipóteses eram muitas. E há tantas coisas sobre as quais gostava de falar, no que toca a esta série, que temo que nenhum rascunho ou versão deste texto consiga integrar tudo. Mas tentemos.

Stranger Things foi criado, e realizado quase na sua totalidade, pelos irmãos Matt e Ross Duffer (realizadores de Escondidos e argumentistas da série Wayward Pines) de 32 anos que, apesar de não terem vivido plenamente a década de 80 (por ainda serem muito novos, na altura), prestam-lhe homenagem nesta série, que se passa no ano 1983. Especialmente no que toca aos filmes de horror e ficção científica da primeira metade dessa década, prestando vassalagem aos Dois Steves: Spielberg (desde E.T., ao Poltergeist, a Jaws, até ao Encontros Imediatos do 3º Grau) e King (It, Stand by Me, Shinning, Mist e Salem). É inescapável que Stranger Things seja identificado enquanto pastiche muito deliberado (talvez mesmo o pastiche mais compreensivo de ficção científica desta década) ou, pelo menos, uma homenagem a um momento específico da cultura pop (à volta) de 1983. Há um grupo de miúdos a caminhar numa linha de comboio (Stand by Me), um tipo num fato de astronauta a examinar o que parece ser um ovo (Alien), um ser com poderes que o protagonista-criança encontra e que desenvolve um apetite por um petisco em particular (E.T.). Contudo, a lista de influências da série é longa e não totalmente circunscrita a esse ano ou período (vejam uma lista de influências, compilada de A a Z, aqui). E mesmo que queiramos criticar Stranger Things por ser uma “mixtape”, ela não deixa de ser uma extremamente bem sequenciada.

No entanto, apesar de ser tentador dizer que a série é (apenas) uma carta de amor aos filmes de ficção científica e horror dos anos 80, Stranger Things vai bem além do mero tributo e é muito mais do que um simples e repudiável exercício nostálgico. Aliás, numa altura em que a nostalgia domina totalmente a paisagem cultural contemporânea (pensem em coisas como o sucesso recente de filmes como Star Wars: O Despertar da Força, Mundo Jurássico ou, mais recentemente, o jogo Pokémon GO), esta série destaca-se porque é mais do que uma colecção de citações. Isto porque há sempre o perigo de criar algo meramente baseado em momentos e imagens nostálgicas que depois não tem qualquer espécie de conteúdo ou estrutura ou comentário a fazer – uma crítica sobejamente atirada a Super 8, de J. J. Abrams, como sendo visualmente impressionante, mas narrativamente vazio (discordo profundamente desta crítica e acho que o Super 8 é um filme bastante subvalorizado).

Os irmãos Duffer estavam interessados, essencialmente, em pegar na narrativa da “criança desaparecida de forma paranormal” – durante algum tempo, a ideia era fazer uma coisa mais aproximada a Jaws, em Montauk, um local de férias de praia, mas fora de época, contudo a ideia foi descartada devido a razões logísticas –, acrescentando conceitos como as experiências de mind control do projeto MKUltra. Juntaram isso à premissa de “pessoas normais com as quais nos conseguimos identificar que se encontram em circunstâncias extraordinárias e/ou sobrenaturais” e acabaram por juntar tudo no caldeirão dos anos 80, podendo prestar homenagem a alguns dos seus filmes preferidos. Ao mesmo tempo, quiseram tratar estar temporada mais como um enorme filme de 8 horas (Stranger Things tem apenas 8 episódios e vê-se muito bem e muito rapidamente) do que como uma série episódica e conseguem-no maravilhosamente. É aliás bastante preferível que seja uma série e não um filme de duas horas porque podemos passar mais tempo e perceber melhor a dimensão destas personagens, criando-se (eu, pelo menos, criei) laços muito afetuosos. Esta ideia do “filme de 8 horas”, ao contrário dos 13 de outras séries originais da Netflix, também evita que se caia em tramas repetitivas ou demasiado arrastadas. Aliás, Stranger Things consegue manter tudo a andar de uma maneira bem estruturada.

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A história começa com um cold open (ou in media res, se preferirem) que mostra que algo de muito errado e assustador se passou no Hawkins National Laboratory (na cidade de Hawkins, Indiana, que poderia ser uma qualquer localização suburbana americana), gerido pelo Department of Energy. Corta para um grupo de miúdos, imediatamente adoráveis, a jogar Dungeons & Dragons (no culminar de uma campanha de 10 horas). Quando se despedem, já de noite, Will (o mais doce e frágil deles) segue por um atalho até casa, atraindo uma figura monstruosa da qual tenta escapar, que o persegue até casa, até Will se esconder numa espécie de garagem no quintal atrás de sua casa e… desaparece*. A partir daqui a série gira à volta das tentativas para encontrar Will e explicar o seu desaparecimento, à medida que as várias personagens se vão dedicar a encontrar este monstro e a perceber exatamente o que é que se faz naquele laboratório.

As personagens dividem-se em três grupos etários. Os adultos são vários, mas o foco está no chefe de polícia Jim Hopper (um fabuloso David Harbour – o protótipo do “that guy”) que bebe e fuma demais, claramente com um passado traumático, e Joyce Byers (bom ver-te, Winona Ryder!), a mãe de Will, a atravessar, compreensivelmente, o seu maior pesadelo. Menção honrosa para o professor de ciência Mr. Clarke (Randall P. Havens) e o seu bigode, responsável por alguns dos momentos mais hilariantes da série. Há também Nancy Wheeler (Natalia Dyer) que tenta encontrar a sua desaparecida amiga Barb**, depois de perder a virgindade com o talvez-não-tão-idiota-como-parece Steve Harrington (Joe Keery). Nancy acaba por se aliar ao irmão mais velho de Will, o aspirante-a-fotógrafo Jonathan Byers (Charlie Heaton).

Mas a melhor parte são os miúdos. Genuinamente queridos e divertidos, Mike (Wheeler, irmão da Nancy) (Finn Wolfhard), Dustin (Gaten Matarazzo, cuja cleidocranial dysplasia só o torna mais adorável) e Lucas (Caleb McLaughlin) tentam salvar o amigo desaparecido a todo o custo. A dinâmica deste grupo torna-se ainda melhor e mais comovente a partir do momento em que encontram Eleven (a maravilhosa Millie Bobby Brown), uma rapariga com poderes telecinéticos que parece desconhecer a mais básica decência humana – e waffles. A forte e emocionante amizade que se forma entre este quarteto é o pilar desta série e a principal razão pela qual funciona tão bem. As lições – ou lembranças para quem se esqueceu – de que promessas não se quebram e amigos não mentem são dos momentos que, para mim, mais remontam a uma ideia tocante de inocência perdida.

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Talvez tenha um pouco de pena que este filme-de-8-horas deixe a porta aberta para uma segunda temporada (ou melhor, sequela?) porque isso, de certa forma, torna o inevitável e final sacrifício de Eleven menos marcante. No entanto, gostei tanto de passar tempo em Hawkins e quero tanto rever estas personagens, das quais tive (e ainda tenho) saudades assim que a série acabou, que fico contente pelo facto de um dos produtores da série, Shawn Levy, já ter dito que querem voltar a estas personagens, em futuras temporadas.

Finalmente, queria falar da música. Ela é usada, com grande efeito, em todos os episódios, mesmo que não seja 100% precisa no que toca à sua “localização” temporal (ex: a “Sunglasses at Night” de Corey Hart e “Elegia” dos New Order são pós-1983). Mas a banda sonora é soberba. Começa tudo com o genérico e os seus sintetizadores hipnóticos que prendem o espectador e o puxam para o mundo de Stranger Things. Ouçam mais aqui e aqui.



*Este início é uma subversão bastante engraçada do E.T.
**A Barb tornou-se uma das (senão mesmo “a”) mais populares e adoradas personagens da série (sigam o “Justice for Barb”).


Texto: Ana Cabral Martins
Fotografia: Direitos Reservados