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#somosD’Alva

Eles são amigos, eles são música, eles são tumblr, eles são #LLS (livres, leves e soltos). A Magnética esteve em modo Parlapié com Alex e Ben,  a dupla que formou D’Alva há cerca de um ano atrás. Desde então que conquistaram o público português e têm vindo a dar muito que falar pela sua abordagem original POP e estética “tumbleresca”.







Para os mega distraídos quem são os D’Alva e como se definem enquanto músicos?


ALEX: Eu posso dizer que D’ALVA são um grupo de amigos que fazem música. Para facilitar chama-se POP, porque a nossa música é muito heterogénea e cada canção tem uma personalidade muito própria e vai beber a géneros e influências diferentes.

E quantos membros tem a banda neste momento?

ALEX: O core da banda somos nós os dois.

BEN: A criar somos nós os dois e quando é para pegar no que criámos e traduzir para ao vivo somos seis. Mas gostamos de olhar para a coisa como um coletivo, ou seja, usamos este sistema porque é muito mais fácil a criação sermos só dois, mais rapidamente chegamos onde queremos e aí tem muito a ver com o início da pergunta. Somos duas pessoas que reagem e sentem a música de forma muito semelhante, portanto o diálogo é muito mais rápido e imediato, como aqueles amigos que são tão próximos que completam as frases um dos outros. Eu arranjo o verso de uma canção e ele vai aparecer com o refrão ou vice versa e tem sido sempre assim, portanto é muito natural.


Como funciona o vosso processo criativo?


ALEX: Depende. Não há uma regra.

BEN: Há uma regra! Que é, enquanto estamos a compor estamos a gravar e a produzir. É a única coisa portanto.

ALEX: Mas não temos propriamente uma fórmula, em que primeiro aparece uma coisa e depois constrói-se o resto à volta. Não sei, é tudo muito orgânico. Há canções em que há uma melodia e depois fazemos à volta disso. Há outras em que o Ben tem um ritmo e nós tentamos construir à volta disso. Eu gosto de pensar um pouco como se fosse uma escultura em que…

BEN: Tu tens uma peça em bruto e vais tirando tirando tirando até ficar com o aspecto que queres que tenha.

ALEX: Para mim às vezes até é ao contrário, tens um esqueleto, uma estrutura com arame e depois vais criando.

BEN: Sim as duas maneiras são válidas. Nós agora estamos a trabalhar numa canção em que temos praticamente tudo menos o refrão.

ALEX: Eu agora estava a pensar numa ideia para o refrão neste momento!

BEN: Mas temos uma particularidade que nos distingue muito dos outros artistas de bandas. Conforme estamos a construir a ideia, já estamos a pré produzir, portanto é muito normal uma canção chegar ao fim com coisas que ficaram desde o início e isso é uma das coisas que nos distingue.


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Quais são as vossas referências musicais?


ALEX: Não sei, nós ouvimos muita coisa. Houve uma coisa que nos marcou bastante que foi quando nós percebemos os dois que gostamos imenso do primeiro álbum das Spice Girls. Porque nós sempre vivemos em contextos diferentes. Quando eu conheci o Ben, ele estava numa banda de Punk e eu era bué fã dessa banda. E houve assim uma data de cenas que eu fiquei ‘O quê? Tu também curtes disto?’.

BEN: No início íamos fazer uma coisa muito mais indie rock, que era muito o que o Alex queria fazer, mas depois percebemos que partilhávamos um gosto, que já nem lhe chamamos de guilty pleasure. Houve um momento em que estávamos a fazer um trabalho de design e durante tipo duas semanas a banda sonora foi Spyce Girls e parávamos para dançar. Até que percebemos “Ok, isto não dá para evitar.” Eu acho esse disco genial, acho que está super bem feito. É muito diferente, ambos podemos dizer que gostamos de James Blake que já não tem nada a ver, o Alex adora a Twigs.

Houve uma altura que devorámos o disco da Jessie Ware. É o que gostamos e a nossa música foi um bocado nisso. De toda a música que está a ser feita em Portugal e cantada em português, o que é que não existe e que nós gostávamos que existisse e neste caso foi música que tu ouves e queres dançar.


Gostavam de eventualmente fazer música em Inglês?


ALEX: Não e por acaso já tivemos alguns convites para fazer algumas colaborações, alguém que achou que o Frescobol era um hit que em inglês ia rebentar. Mas nós não quisemos fazer. Eu não digo que nunca farei, mas acho que não faz sentido.

BEN: D’Alva é uma coisa bastante particular no sentido em que vive muito daquilo que eu e o Alex somos e da relação que temos. Ambos não somos 100% portugueses, eu sou meio português. Ele nasce em Luanda, a mãe dele é brasileira o pai dele é São Tomense. A minha mãe é portuguesa mas nasce no Brasil, o meu pai é Cabo Verdiano, portanto há uma lusofonia. Os Palopes é uma realidade para nós, eu tenho metade da minha família que é totalmente portuguesa e depois tenho a outra metade que é Cabo Verdiana , que é um contexto completamente diferente. Acaba por não ser muito bom para nós psicologicamente, tens de te adaptar quando está em contextos diferentes e eu confesso, a nível do lado comunitário que a cultura africana tem é muito mais descontraído que o lado português. Eu passo mais tempo com a minha família portuguesa mas nós temos essa maneira de estar um com o outro que é super descontraída. Nós pensamos sobretudo em África, nos Palopes e sobretudo no Brasil. Não pensamos muita para além.

ALEX: Mas também há uma coisa que temos de ser muito sinceros, o problema da maior parte dos portugueses em cantar em inglês, o sotaque é horrível, you know? E os portugueses não sabem cantar ou escrever com um inglês poético, são muito poucos, sei lá consegues nomear 5 no máximo que conseguem fazer isso bem.


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Consideram-se uma banda da internet com bastante referência visual “tumbleresca”. O que é o tumblr para vocês?


ALEX: O tumblr, houve uma época em que o tumblr era a minha vida! Seguia prai 2000 e tal blogs. Houve uma altura que cheguei a ser “Tumblr Famous”.


BEN: Há toda uma cultura e comunidade de Tumblr, mesmo em Portugal. Hoje em dia conhecemos algumas pessoas que estão à frente do tumblr, e que foi uma coincidência feliz. Quem tem tumblr entende que o tumblr é tudo menos objetivo e isso é parte do seu charme. Nós não nos cingimos a um meio de comunicação, há uma altura numa entrevista em que ou alguém diz ou somos nós que dizemos “ A nossa música é como o feed do Tumblr”, em que estás a ver uma foto de um gato preto e de repente estás a ver uma animação em 3D, um giff ou alguém a fazer uma tipografia e depois vês um post do adventure time e um gif do pokemon, moda e uma ilustração. Mas de alguma forma eu acho que isso faz tudo sentido e eu penso que vivemos nessa era de estarmos expostos ao que é um mosaico.

ALEX: No Tumblr atrai-me bastante a ideia de tu teres comunidades distintas tudo reunido no mesmo feed. Se o nosso disco fosse um tumblr, seria um tumblr que funcionava muito bem na página do template e também ia funcionar muito bem no feed. Porque tu vês pessoas que que pensam claramente no tumblr enquanto feed, mesmo na componente social: “isto é o que eu gosto, isto é a minha opinião” e há pessoas que: “ok eu tenho uma página que tem sempre a mesma estética.” O nosso seria um misto.


Fez um ano recentemente desde que lançaram o vosso primeiro álbum. Contem-nos como foi o vosso ano passado como D’Alva.


ALEX: Foi uma surpresa. Primeiro não estávamos à espera que fosse tão bem recebido. Logo no primeiro concerto que nós demos com este disco, as pessoas já sabiam cantar as músicas, numa sala que estava esgotada.

BEN: Foi um bocado estranho. E o disco tinha saído há muito pouco tempo e estavam ali para ver D’alva. E o Alex chega e diz a primeira palavra da primeira canção e as pessoas começam todas a gritar a letra e foi um bocado overwhelming.

ALEX: Foi emocionante. Depois tocámos no nosso primeiro grande festival. Tocámos no Nos Alive, foi épico. Estou-me a lembrar, foi uma experiência super assustadora, nunca tínhamos tocado num festival daquela dimensão para tanta gente, para um público tão diverso. Depois o nosso primeiro auditório, Teatro do Circo em Braga, é um dos auditórios mais bonitos em Portugal. Depois realizei um dos meus sonhos, que era tocar num evento de moda, no ModaLisboa no desfile do Luís Carvalho, foi awesome. Há uma coisa que quase ninguém viu que foi no início do ano, em que a Red Bull nos contacta para fazer um concerto privado para eles na Serra da Estrela e foi muito especial.

Mas também há muitas outras coisas , a parte mais importante é quando eu conheço as pessoas e fico a falar com elas e percebo que temos histórias em comum e a forma como a nossa música faz parte da vida de cada uma dessas pessoas. Isso para mim é muito gratificante.


Têm colaborações de sonho que gostassem de ver a acontecer? Em Portugal e fora de Portugal.


BEN: Fora gostávamos de trabalhar com o Silva no Brasil. Nós temos muitos amigos em comum, e basicamente o músico por de trás de Silva, há uma empatia grande com o que ele está a fazer no Brasil e gostávamos de fazer qualquer coisa com ele, não sabemos se vai acontecer.

ALEX: Posso dar respostas assim mais absurdas, eu gostava de trabalhar com a Lovefoxxx das CSS. Ela agora é artista plástica, mas isso seria uma colaboração de sonho. Em Portugal gostava imenso de trabalhar com o Samuel Úria, nós somos amigos e não sei porque é que isso ainda não aconteceu.  Talvez o Branko também. As colaborações que tivemos até agora foram muito improváveis.

BEN: A Capicua já fizemos, era a cena principal. Se tivesse de dizer alguém para colaborar n vezes, era com a Capicua, mas já fizemos, portanto não podemos fazer mais. Sei lá, Sam the Kid. Ele gosta do que estamos a fazer, o que é fixe. OK! O DJ Marfox…

E mais, vou-te dizer: Lena d’Água. Acho que se ela fizesse uma cena connosco ia ser “A cena”, eu penso que se ela confiasse em nós para fazermos uma canção, ela nem ia entender o que ia acontecer, estou a falar mesmo a sério. Nós tivemos com ela há umas semanas, ouvimo-la cantar e a voz dela está igual. Nós estávamos a fazer o nosso disco e de vez em quanto íamos ouvir coisas antigas dela. Se ela confiasse em nós acho que fazíamos uma coisa fenomenal.


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Ainda têm metas ou sonhos a concretizar enquanto D’Alva?

ALEX: Eu gosto de pensar que é uma história e que é uma história de ascensão, um work in progress. Em relação ao Alive, no ano passado, deram-nos a escolher vocês querem ficar no Clubbing ou no Heineken. E nós: “Não, vamos começar pelo início.” Até porque eu gosto imenso de ver as coisas a crescer de forma sustentada.

BEN: Nós temos perfeita noção que o mercado da música é tão volátil que hoje toda a gente está a gostar do que estamos a fazer e amanhã passamos a música de fundo e por isso queremos crescer de forma super super sustentada e há coisas intencionais que não fazemos para ganhar fãs muito rápido. Nós queremos ganhar fãs de forma natural e gradual. E nós podíamos ter facilmente o triplo de likes no facebook nesta altura, mas olha ia-nos custar 100 euros, e não era genuíno. Nós queremos fazer música enquanto D’Alva, enquanto as pessoas gostarem do que fazemos, enquanto fizer sentido. A partir do momento que sentirmos que já não estamos a fazer nada relevante, facilmente eu e o Alex desligamos a ficha e fazemos outra coisa qualquer.

ALEX: Sim, mas as minhas metas são diferentes do que no início.  É óbvio que tenho o sonho de tocar num palco de um grande festival, imagina Paredes de Coura, mas eu também só quero fazer isso daqui a 2 anos ou quando achar que sentido. Mas também gostava de ter uma produção à séria. Eu e o Ben gostamos imenso de K-POP, que é POP da Coreia do Sul. Uma referência para nós são os Buraka, e a nível de produção que tem vindo a crescer ao longo dos anos.

Agora no concerto do CCB dia 19 de Junho vamos tentar dar um passo em relação à parte cénica e das luzes. Acima de tudo não quero ser aquela banda que chega, canta as suas canções e vocês vão ouvir e acabou. A música também pode ser visual uma vez que é a continuação da tua arte.


Agora que está a chegar a altura festivaleira, onde é que vos podemos ver ao vivo?


O maior festival vai ser o Super Bock Super Rock, mas agora cronologicamente no dia 19 de Junho estamos em Lisboa no CCB e no dia seguinte vamos para Braga para o festival Vira Pop. Depois é o SBSR,  passados dois dias vamos ao Festival Mêda + na Guarda, dia 23 de Julho e depois Festival Bons Sons. Vamos estar presentes no Festins a 20 de Agosto em Alcains e depois há mais coisas mas que não podemos adiantar. E no final do ano queremos fazer uma mini tour.


Planos para um segundo álbum…


ALEX: Nós falamos sobre isso, mas também não vai acontecer agora. Ainda é muito cedo, este álbum ainda só tem um ano. A minha banda favorita tem uma regra que é cada álbum tem de ter um intervalo de dois anos. E essa regra dos dois anos funciona muita bem. Porque o público muda, porque as pessoas crescem, o quotidiano muda, o país muda, tudo muda… Nós também mudamos, queremos dizer coisas diferentes…

BEN: O nosso primeiro disco correu muito bem e queremos fazer um segundo disco que seja tão bom ou melhor. Se for para fazer algo que não fique ao nível, não vamos fazer. Mas estamos com ideias de fazer um single em breve, queremos convidar alguém, tem de fazer sentido, não queremos fazer só por fazer. Já estamos a trabalhar, a canção já está meia feita. E devemos lançar qualquer coisa nova porque de facto as pessoas estão a pedir coisas novas.

ALEX: Eu prefiro investir em bons vídeo clips do que estar a fazer por fazer. Ben: Secalhar esse é o nosso futuro, secalhar é fazer singles, mas com vídeos bons. Gostava de fazer vídeos sem quase dinheiro nenhum, mas que fossem fortes conceptualmente. Uma cena toda Marina Abramovic.


Vejam o Wordplay dos D’Alva:







Entrevista: Isabela Gonçalves
Fotografia e Vídeo: Beatriz Pereira