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Rita Braz: “O Q Revolt é só o início da revolução”

De volta a Portugal, a fotógrafa continua a entoar o grito contra o preconceito face às mulheres que amam outras mulheres, em conferências e exposições. O próximo passo é a criação de uma marca inspirada em “Q Revolt”, o livro onde 100 rostos de 8 cidades mundiais celebram a diversidade na homossexualidade feminina.

Em paralelo, Rita Braz acaba de criar, juntamente a diretora de Arte holandesa e sua esposa, Hester Haars, o Day Club Studio. Um estúdio criativo que se senta algures entre Lisboa, Amsterdão e Berlim e visa servir marcas que tenham um impacto positivo no mercado.

“Privilege” é palavra que melhor resume o momento que atravessa. Dia 29 de setembro, vamos poder confirmá-lo no cartaz que criou para a terceira edição do POSTER.

 

Vamos começar por falar um pouco sobre o Q Revolt. Considera-lo apenas um Grito ou o início de todo um movimento?

Eu penso no Q Revolt como um movimento de revolução, constituído por diversos momentos e “gritos”. O início foi em 2013, quando a ideia começou e eu comecei a pensar como ia criar o projeto, mas cada vez que eu mostro o trabalho, cada vez que eu falo sobre isso, cada vez que alguém compra um livro, são momentos que têm grande peso.

Nas últimas semanas estive a falar em Berlim, numa conferência. Significa que mais pessoas tiveram acesso ao projeto, mais pessoas que me fizeram questões sobre ele e ficaram a conhecer a mensagem. Estive também numa pequena cidade na Alemanha, em Bochum, com a exposição e isso para mim é outra parte do projeto: ir a locais e meios mais pequenos. O Q Revolt é só o início da revolução.

 

Tendo em conta os sítios onde já passaste, onde já levaste o teu livro e o deste a conhecer, que impacto é que achas que ele está a ter?

A meu ver está a ter um grande impacto. Esta exposição em Bochum para mim foi um open eye porque primeiro estive a expor em Berlim, depois Lisboa (capitais europeias) o que é muito bom para dar a conhecer o teu trabalho, mas ter exposto numa localidade tão pequena na Alemanha fez-me perceber que posso chegar até pessoas que se calhar não teriam acesso a ele. Quando digo acesso não é apenas ao livro, mas sim à diversidade de mulheres que amam outras mulheres, diversidade essa que às vezes é inexistente em meios mais pequenos. Espero conseguir não só quebrar estereótipos mas também empower pessoas mais novas que ainda se estão a descobrir e que precisam de saber – we are here, we exist.

 

Sabemos que tiveste pedidos de mulheres que queriam ser fotografadas, qual foi a sua reação ao ver o livro?

Sim, houve pedidos através das redes sociais e eu fui ter com algumas dessas mulheres, em vários países, para fotografa-las. Eu acho que a reação tem sido boa, as pessoas ficaram contentes com o produto final. Acho que todos os que fizeram parte do projeto estavam orgulhosos e felizes.

 

O projeto foi lançado no Kickstarter. Esperavas uma adesão tão grande?

Foi um bocado “let’s try it”. Em 2013 comecei a ter a ideia, mas não tinha o orçamento necessário, e só o ano passado é que fiz este Kickstarter. Foi bastante trabalho, de PR, de escrever a várias pessoas, de ir a sítios, fazer t-shirts para vender, ir a bares distribuir panfletos, e foi muito bom depois ver que tinha conseguido alcançar o objetivo final.

 

Tinhas a ambição de lançar uma marca tua, inspirada no conceito. Em que ponto é que está este objetivo?

Já tenho em mente o que vai ser o produto, estou na fase de procurar e tratar da produção. Já está um passo mais à frente do que há uns meses atrás quando a ideia era apenas isso mesmo: uma ideia. Mas não posso revelar ainda!

 

Em relação ao Day Club Studio, o estúdio criativo que lançaste, gostávamos que nos falasses um pouco dele. O propósito, a missão..

Eu e a minha mulher sempre quisemos fazer um estúdio criativo juntas. Ela é holandesa, tem mais clientes na Holanda, eu tenho mais alguns clientes em Berlim e em Lisboa, e a ideia é tentar criar um sítio onde queremos trabalhar. É um projeto muito recente, ainda está numa fase inicial, mas o nosso objetivo é fazer trabalhos com marcas que nos digam alguma coisa. Gostamos de cadeiras! (risos) Se virem o nosso instagram vão ver muitas cadeiras!
Basicamente estamos ainda a tentar criar contacto com clientes novos, eu tenho feito alguns trabalhos de fotografia, mas ainda há muito para fazer.

 

Que tipo de trabalho tens desenvolvido desde que voltaste a Portugal?

Tenho feito bastante fotografia – que é o que eu quero fazer agora. Nos últimos anos tenho trabalhado como diretora de arte, primeiro em publicidade e depois em moda, mas aqui em Portugal acho que o meu trabalho pode ser mais “relevante” enquanto fotógrafa. Em vez de estar a fazer trabalho enquanto diretora de arte, tenho feito mais fotografia, diretamente com marcas – e é esse o caminho que eu agora quero seguir.

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POSTER: Mais que uma mostra, a tela ideal

 

Porque é que aceitaste participar no projeto? O que achas do POSTER enquanto iniciativa e o papel que tem na relação com a cidade?

A primeira vez que vi um dos posters ao vivo foi o ano passado; estava a passear em Marvila e achei imensa piada, até tirei uma fotografia porque achei a ideia giríssima. Depois comecei a saber mais sobre a Mostra do POSTER e que já existia há dois anos. Entretanto quando o Bruno Pereira me convidou para fazer parte, não hesitei, claro!

Eu acho incrível aquilo que o POSTER está a tentar fazer, de trazer vida e arte a um local que neste momento está em desenvolvimento e trazer tantas pessoas até lá. É dar acesso à arte, dar acesso à cultura, a todos os habitantes da zona e da cidade de Lisboa. É ainda mais interessante por ser feito num sítio onde não há tanta poluição visual, tantas pessoas e tanto movimento, e isso cria uma certa dinâmica em Marvila.

 

Fala-nos um pouco sobre o teu poster. O que é que ele representa?

O meu poster é muito aquilo que eu tenho sentido nos últimos meses, nomeadamente nas últimas duas semanas, que é “Privilege”. É uma palavra que descreve bastante bem as minhas últimas semanas que andei em tour com o Q Revolt, que conheci muitas pessoas e que ouvi bastantes histórias. Penso muitas vezes quão privilegiada sou: estar na Europa, conseguir viajar para todo o lado, conseguir ser quem eu quero ao nível da sexualidade também e não ter que passar por tantas barreiras. O meu poster representa um mix do que estou a sentir e é criado com base no meu background em moda.

Entrevista: Rita Matos
Fotografia: Alexandre Murtinheira