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O “MANIfesto” de Filippo Fiumani

De 1 a 16 de fevereiro, o artista italiano leva “MANIfesto” ao espaço TODOS, em Marvila. A próxima exposição individual de Fiumani (aka MANI) tem a curadoria do designer Bruno Pereira e a assinatura do Departamento. A entrada é gratuita.

Agarram, pintam, moldam, correm o mundo em que acreditam para o partilhar. E agora agitam-se numa rebelião de emoções contra o status quo. Falamos das mãos que erguem MANIfesto. As mãos de Filippo Fiumani (aka MANI – e aqui o pleonasmo nunca poderia ser mera coincidência) e do cenário que des(cons)troem para nos conduzir à reflexão. Num sopro, num grito. “Um grito que levanta várias questões. Questões sobre a humanidade, sobre a sociedade, sobre a ética e os valores que se estão a perder. Questões que hoje em dia não estão a ser faladas. Ou, quando são faladas, não estão sequer a ser ouvidas”, esclarece o artista radicado em Portugal há nove anos.


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A indignação é sempre o barro, a matéria-prima da obra do street artist e designer, materializada numa abordagem emotiva, bem-humorada e por vezes crua, inspirada pelos imaginários do punk, skate e surf. Contudo, reinventa-se à imagem da revolução que instiga a cada exposição. A missão: “desafiar a dormência do pensamento e a conivência com a indiferença.” Em MANIfesto, a grande novidade é a incorporação de LEDS em diferentes suportes, combinando “a tecnologia com uma pintura mais primitiva”, não só pelo simbolismo que a luz – conotada com a esperança e a inspiração – carrega em si mesma, como também pela mensagem de que Fiumani pretende fazer eco: “Nós temos que evoluir, mas também temos de olhar para onde viemos, para quem nós somos realmente. Perceber que o progresso que estamos a ter hoje em dia nos deve servir, a nós humanos.” Para o artista, o progresso trouxe-nos, em vez disso, a uma realidade alienada e estandardizada, onde a individualidade tende a perder-se. Por isso, entende que o mais importante é que nesta mostra cada qual escreva e passe a agir em defesa do seu próprio manifesto: “O MANIfesto não traz uma solução, põe sim um spotlight sobre algumas questões. Cada um de nós vai formular a própria solução. A partir do momento em que alguém achar qualquer coisa, já é bonito por si só.”

®Susana Rico



TODOS a Marvila, de 1 a 16 de fevereiro

A exposição tem o cunho do Departamento, tornando assim a colocar o italiano na órbita do amplificador de talentos de Bruno Pereira: “Acompanho o trabalho do Fiumani desde que ele chegou a Portugal. Mal chegou, mandou os projetos que fazia para a Magnética Magazine, da qual sou diretor, e senti logo a vibração punk e a ironia do seu trabalho”, afirma o curador de MANIfesto. Bruno não poupa elogios a Fiumani, considerando-o “um Basquiat do skate, cheio de gana e muito assertivo na crítica político-social”, e frisa que “precisamos de artistas assim, que concretizam o que muitas vezes pensamos revolucionariamente em silêncio, sentados a comer pipocas de pijama às bolas no sofá.” Desde então, tem-no convidado para vários projetos, tais como o Arte em Toda Parte em Setúbal, uma exposição individual na Galeria da Magnética Magazine, na Cidadela Art District (2014), e, mais recentemente, para o Poster Mostra: “Achei que estava na hora de fazer uma exposição individual em Lisboa num espaço interessante, nunca explorado. Conhecia umas catacumbas em Marvila que são a cara dele. Conversámos e avançámos.”


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O creative hub TODOS, lar de mais de 60 criativos independentes dos mais diversos ramos artísticos, foi então o púlpito escolhido para espalhar este MANIfesto. E, efetivamente, o espaço não poderia ser mais do agrado do artista: “Antigamente, era uma cave que utilizada pelo contrabando. Havia imensos túneis, que hoje em dia estão todos tapados. E isto é uma coisa que me fascina bastante porque tem aquele aspeto meio-tosco que as minhas obras também têm… e meio-pirata”, congratula-se Fiumani. Classifica o trabalho do curador como “crucial”, salientando a sua energia e intuição, que o ajudaram a “perceber que tipo de trabalho é que tenho em mãos, e o que é que faz sentido ou não, dentro do meu corpo de trabalho.” Nas palavras do curador, “é simples trabalhar com talento. O maior desafio foi conseguir um equilíbrio para não se perder nada na mensagem deste manifesto artístico que expõe a rua, a sociedade, os equilíbrios e os desequilíbrios, o caos, a dor, a libertação e o amor.”

De 1 a 16 de fevereiro, desenho, escultura, instalações luminosas e objetos customizados vão reunir-se “de forma bruta e sem filtros” para revelar “um artista à antiga, genuíno, livre”, em contraciclo com “uma arte que se tornou chata, previsível, pensada, objeto de Marketing, de Instagram, de Pinterest. Tão diferente que é sempre igual, cheia de cânones”, conclui Bruno Pereira. Sentir, sinta quem vê. No final, diz Fiumani, o mais importante é que “cada qual possa fazer a sua própria viagem dentro da exposição.” Além do mais, o bilhete é grátis. Pode é não ter volta.


FLYER MANIFESTO FIUMANI


Quem é Filippo Fiumani?

Filippo Fiumani (aka MANI) nasceu em 1987 em Loreto, Itália, e pinta desde que se lembra.

A sua obra é um convite constante à reflexão sobre problemáticas sociais materializado numa abordagem emotiva, bem-humorada e por vezes crua, inspirada sobretudo pelos imaginários do punk, skate e surf.

Na verdade, foi à procura de ondas que veio para Portugal em 2011, mas, mais do que mar, encontrou no país território para desenvolver a carreira de artista visual e street artist iniciada aos 15 anos. Em paralelo, tirou o Mestrado em Design.

2014 seria o seu ano de afirmação, ao expor pela primeira vez a título individual, na Fábrica Features Lisboa. Nesse mesmo ano, foi notícia por ter criado uma caneta para invisuais. Em 2015, co-fundou a Santiboards, uma marca que produz material de surf e kitesurf.

Das suas exposições mais recentes, destaque para a eclética “Visual Disorder Exhibition” na art ride do Wheels and Waves 2018, em Biarritz. Entre os muitos desenhos e objetos, estava um moto que o próprio Fiumani criou com a ajuda da Mad50s Motorcycles.

Também em 2018, foi um dos 20 convidados da 3.ª edição do Poster Mostra. O poster que levou às paredes de Marvila era, ao mesmo tempo, um protesto contra a precariedade da Arte e um elogio à arte “de viver com 600 euros por mês”. Ainda no ano passado, a curta-metragem “Untitled Project”, por ele produzida, fez parte da seleção oficial do RIFF – Rome Independent Film Festival, na categoria de National Short Competition.

Apesar de o estilo de Fiumani ter evoluído – numa espécie de recuo à adolescência -, para uma estética Lo-Fi, desprovida do rigor dos lápis e dos planos, o Design não deixou de estar presente no seu dia-a-dia: atualmente, Filippo leciona um seminário da disciplina na Universidade Lusófona.


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Exposições Anteriores


2018 Participação como artista convidado na Poster Mostra 2018, Marvila, Portugal
2018 Exposição Coletiva, Wheels and Waves, Biarritz, Franca
2018 Exposição Coletiva, Lost Warhols, Soho gallery space, New York, USA
2015 Exposição Individual, Punk Surrealism, Galeria Abraço, Lisboa, Portugal
2014 Exposição Coletiva, Galeria Magnética na Cidadela Art District, Cascais, Portugal
2014 Exposição Individual Santos no Mega Store Benetton, Lisboa, Portugal
2008 Exposição Individual Freak Show na Wastedhouse Bondi, Sydney, Austrália


Texto: Rita Pinho Matos
Fotografia: Susana Rico | TODOS