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O “anarquismo alegre” da Silvadesigners ao serviço da palavra

Um estúdio colorido, ousado e com “bom feitio”. É assim que a Silvadesigners quer ser vista ao fim de 18 anos e inúmeros prémios, nacionais e internacionais. Comprovam-no projetos icónicos, como as capas tipográficas dos livros de José Saramago, o livro dos 40 anos de canções de Sérgio Godinho ou a imagem do Concurso de Sardinhas das Festas de Lisboa.
A poucos dias da participação no POSTER, Jorge Silva abre o livro do dia-a-dia do atelier e fala da revalorização da palavra numa era de excessos visuais.

 

Falemos sobre o poder da palavra e o reinventar de alguma maneira o design em Portugal. É um pouco esse o caminho da palavra enquanto objeto visual?

Não somos os únicos a fazê-lo, obviamente, o excesso de imagens e ruído, sobretudo digital, que há à volta da fotografia, torna até bastante pertinente este regresso ou esta revalorização da palavra. Se acrescermos a isso uma forte componente de design editorial – que nós temos neste atelier – muito ligado ao design, ao projeto e à paginação de periódicos, ou seja de revistas, jornais e newsletters, nós temos aqui uma espécie de situação perfeita para desencadear naturalmente essas abordagens.

Desde há muitos anos, ainda mesmo antes do atelier, que eu tenho esta preocupação muito grande com a manipulação gráfica das palavras, mas sobretudo numa perspetiva não tanto de grafista mas mais emocional, ou seja, de criar uma relação emocional com o leitor. Essa relação consegue-se, quanto mais óbvio ou banal é a palavra.

 

Conhecemos algumas publicações vossas, mais relacionadas com a cultura popular. Além da portugalidade ser algo muito presente, há uma alegria que emana dos vossos trabalhos. E não é ao acaso, visto que vocês se autocaracterizam como um “atelier alegre e com bom feitio”. É essa a vossa marca?

O bom feitio é um pau de dois bicos! Mas permite a sobrevivência. Este atelier tem quase 18 anos, o que é uma marca assinalável se pensarmos que aqui coabitam pessoas e profissionais de, pelo menos, três gerações diferentes. Essa coabitação, que é sempre difícil e tensa, naturalmente consegue-se porque há princípios e uma lógica que se sobrepõe a todas as particularidades, inclusive as minhas! Há aqui um conjunto, e esse conjunto tem alguns princípios que são para mim fundamentais: nós somos um atelier criativo, mas também somos um atelier de serviço. E hoje em dia as pessoas querem cada vez mais eficiência. Não querem problemas, querem pessoas que resolvam problemas, pelo menos aqui no contexto em que nós trabalhamos, nesta indústria. O nosso desafio é conciliar esse bom feitio, não significa que o cliente tem sempre razão, significa sim que o cliente pode ter sempre razão e que – o que também é verdade – nós nunca temos a razão toda. Há uma espécie de média, e isso faz com que sejamos relativamente modestos na maneira como funcionamos com os clientes.

Claro que os clientes estão cada vez mais desorganizados, cada vez fazem mais coisas, como nós também, cada vez ganham menos dinheiro, como nós também, e essa pressa e essa vertigem de tempo não é amiga da qualidade, da confeção, do tempo que nós precisávamos para pensar nos trabalhos. Mas aquilo que nos pode caracterizar é um compromisso e um desafio entre a qualidade e o mainstream, ou seja, quando nós trabalhamos clientes já há 10 ou 12 anos, de facto às vezes é difícil dar saltos e fazer roturas. E portanto, uma boa parte dessa confiança, que nós temos dos clientes, e a boa relação que estabelecemos com eles tem a ver com um compromisso de fiabilidade. Podemos não estar de acordo com aquilo que estamos a fazer, mas ainda assim fazemos. Sempre que possível, estamos na fronteira, tentando propor, tentando desafiar e tentando desafiar-nos a nós próprios.

O design é tão diverso, a quantidade de criadores é tão fantástica, mesmo em Portugal, que seria muito arrogante e estúpido da nossa parte pensar que nós é que detemos a verdade ou o dom da palavra, e isso coloca-nos numa situação relativamente flexível, sempre em relação ao trabalho e em relação aos clientes. E apesar da personalidade de cada um, há de facto uma lógica geral de sermos relativamente urbanos, se possível às vezes até complacentes com os timings, as aflições e as ansiedades dos nossos clientes e até as nossas próprias.

 

Para quem não está no mundo do design, onde é que vocês já se posicionam e o que querem ser neste universo? O que é a vossa marca e o que vos distingue?

É difícil falar numa marca única, num atelier, até porque existem aqui vários criadores diferentes que inclusive têm a possibilidade de assinar os trabalhos que daqui saem. Isso é também uma das nossas características, há um conjunto de individualidades, e esse conjunto acaba por criar também uma espécie de lugar comum e imagem comum. Mas se formos ver com mais cuidado, essa imagem comum é feita de fragmentos que correspondem a várias pessoas aqui do atelier. A começar por mim, mas também a passar pelo Rui Belo, pelo Luís Alexandre, pela Elisabete Gomes, ou pela Rita Mendes, ou pelo Luís Alvoeiro, ou pelo André Cândido.

Todos nós temos olhares que são condicionados às nossas idades, às nossas influências, às escolas onde andámos, àquilo que fazemos fora deste atelier. Mas há, apesar de tudo, uma alegria e uma espetacularidade no trabalho gráfico que eu acho que atravessa todas estas pessoas, muito ligado a cromatismos fortes, a tipografias muito pesadas, exageradas, à ilustração editorial que nós praticamos com parcerias ou contratações de bons ilustradores portugueses. Nós gostamos muito da ilustração, que é uma herança da minha vida nos jornais antes do atelier e, portanto, tudo isso faz com que pareça haver aqui esta exuberância gráfica, às vezes alguma surpresa, um trabalho muito impositivo da tipografia, uma presença constante ou frequente da ilustração, que permitem às vezes ter a perceção de que há uma imagem do nosso atelier. Mas isso é, se quisermos, uma versão simpática da realidade. Eu acho que a coisa é um bocadinho mais complexa.

Nesse aspeto, nós apresentamos um colorido e uma diversidade que não encontramos por exemplo no Porto, nos ateliers e designers do Porto, que são para nós também um exemplo e às vezes um modelo. São extraordinários, mas de facto têm uma sobriedade e uma severidade cromática e gráfica que nós não conseguimos mesmo fazer, ou raramente conseguimos fazer! (risos) Há um lado anárquico, não escolar, não académico na maneira como nós muitas vezes abordamos o design editorial que nos é muito grato, mas que não vive de pressupostos estéticos ou teóricos, que nós encontramos muitas vezes noutros ateliers e que são referenciais também no design português. Portanto há um lado anarquista e alegre que nos caracteriza e que gostamos muito de praticar.


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A irreverência do estúdio cabe toda no POSTER

 

O que é que vos motivou a participar nesta edição do POSTER?

Eu já conhecia o projeto, há um ano atrás tive oportunidade de ver uma reportagem numa das revistas de que sou diretor de Arte – que é a Agenda da Câmara. É sempre interessante porque é um trabalho que sai fora das rotinas do atelier, e é uma montra, não é? Ou seja, estamos a participar numa montra de artistas, num conjunto diferente de artistas onde nós estamos incluídos com muito gosto e com muita honra. Esse confronto com outros olhares e com outros designs e grafismos é muito interessante para nós. E depois também é o facto de – uma coisa que é assustadora – podermos fazer qualquer coisa e isso é meio caminho andado para o desastre! (risos) Neste caso o que eu fiz foi lançar um concurso interno de ideias, já que temos vários designers aqui. Nós somos nove, sete são designers e, portanto, há várias ideias, vários olhares, e o facto de o POSTER não ter criado um desafio muito concreto em termos temáticos, deixa-nos a possibilidade de criar algo diferente do habitual. Basicamente o que nós queríamos era ter uma ideia interessante ou até um pouco provocadora, que pudéssemos aplicar com alguma economia gráfica que os tempos exigem, e foi isso que aconteceu!

 

Como é que olha para o poster final e o que nos pode dizer acerca da mensagem que ele transmite?

Eu pessoalmente sou bastante agnóstico, diria que não estamos a falar aqui de um atelier evangélico, não estamos a falar aqui de um ressurgimento de uma crença. Embora, por causa deste trabalho, podemos dizer que nos tempos que correm cada vez podemos ter mais fé. Eu diria que é uma fé que não se associa a fenómenos intangíveis, é no nosso trabalho, no otimismo pelo nosso futuro, nas pessoas e nas instituições que nos rodeiam.

O nosso poster tem esse lado provocador e irónico, ao estarmos a usar uma frase bastante redonda da Bíblia, mas que tem muito a ver com o nosso trabalho, com aquilo que é o nosso core – que é trabalhar as palavras e a sua importância, que se manifesta em muitos dos projetos, encomendas e trabalhos que nós executamos aqui. Essa preocupação sobre a palavra, e a sua importância primordial na comunicação – até como imagem – é muito importante para nós e sempre nos guiou desde o princípio. Tem a ver com a matriz do atelier, tem a ver com a minha relação muito profunda com o design editorial, com os jornais e com as revistas. E o cartaz que fizemos para o POSTER manifesta isso, de forma surpreendente, tratando-se de uma frase que é por e simplesmente uma tradução literal de palavras de um livro religioso.

O poster é muito simples, eu ainda tentei fazer uma experiência com mais grafismo com esta frase, mas depois acabamos por ficar por esta solução muito simples, como se fosse uma headline de um anúncio. Não há praticamente nenhum valor acrescido em termos de grafismo; é a expressão ou grafia mais simples que podemos ter, embora seja possível agora ter leituras um pouco mais subtis sobre o design do cartaz: o vermelho é uma cor que nós usamos recorrentemente, sobretudo na nossa comunicação de self promotion. A tipografia que usámos é uma fonte matricial do atelier, foi com ela que eu fiz inicialmente o corporate do atelier. Mas gostei muito de introduzir aqui uma situação que tem a ver com crença, com fé, que está certamente nos antípodas da nossa vida material e quotidiana, mas que ainda assim tem uma lição e um conteúdo que nos é querido. É o valor que nós conseguimos extrair daquelas palavras que nos interessa, a leitura que nós fazemos a partir de um monumento histórico da literatura, que é a Bíblia e que faz parte da nossa cultura e que respeitamos também por isso.

 

Como vê a iniciativa do POSTER, em termos de promoção da Arte no contexto urbano, nomeadamente na zona de Marvila, que está a começar a ser revitalizada?

Eu nunca assisti ao vivo a nenhuma das edições do POSTER. Tive oportunidade de ver numa peça jornalística que saiu na Agenda de Lisboa, mas nunca estive lá, nunca foi coincidente em termos de timing com esta iniciativa. Mas acho-a muito interessante, porque tem umas características muito próprias! É muito minimalista, é muito sofisticada no sentido em que convida artistas de várias artes e não propriamente designers e ilustradores apenas. Não é exclusiva, em relação àquilo que seriam as pessoas que habitualmente fazem cartazes, ou sabem fazer cartazes.

E depois, obviamente, nós conhecemos o histórico recente daquela zona oriental de Lisboa, o esforço de revitalização que tem sido feito por toda a gente, desde coletividades locais, até à própria autarquia. Sabemos que esse fenómeno está em alta, tivemos oportunidade há um tempo atrás de trabalhar a imagem e o relançamento da nova Biblioteca de Marvila, e, portanto, assistimos na primeira fila a esse esforço. É muito interessante e surpreendente porque tem problemas e potencialidades extraordinárias e foi uma zona que ficou de costas para a cidade durante muito, muito tempo. Já teve outras vidas gloriosas, em termos de comércio, indústria e população, e agora o que estamos a assistir é uma espécie de ressurreição, lenta obviamente, mas acho que segura. E uma iniciativa como estas ajuda também a fixar ali coisas importantes como a Cultura, e isso é fundamental, para que aquela zona volte a ter o brilho que já teve.


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Entrevista: Rita Matos
Fotografia: Alexandre Murtinheira