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“Jackie”: tão perto e tão longe

“Don’t ever let it be forgot, that once there was a spot, for one brief shining moment that was Camelot.”

Poucos eventos na história dos Estados Unidos, especialmente na histórica recente, têm mantido um significado tão intenso quanto o assassinato do seu 35º Presidente, John F. Kennedy, um homem bonito e vigoroso cuja morte foi um duro golpe que abanou a nação. As imagens associadas a este evento e às suas consequências – o filme de Zapruder que mostra o assassinato frame-por-frame (“back and the left“), a viúva a chegar com o caixão ainda no seu vestido com manchas de sangue, milhares de pessoas em luto à entrada do Capitólio, a marcha até ao Cemitério Nacional de Arlington, entre outras – foram mostradas exaustivamente pela televisão, reproduzidas em revistas e em documentários e são vistas, anos mais tarde, como tendo definido uma era da história americana.

Talvez fosse preciso um realizador estrangeiro pegar no mito Kennedy para o ver com alguma distância ou frieza, algo que um americano não conseguiria. E o chileno Pablo Larraín (realizador de No, com Gael García Bernal) preenche os requisitos enquanto pessoa que não se deixa necessariamente impressionar pelo mito. Aliás, o que lhe interessa, ostensivamente, neste filme é mostrar como o mito foi construído, com a vantagem de tantos anos passados.

Infelizmente, a frieza acaba por ser um dos sentimentos mais inevitáveis quando se vê Jackie. Apesar de Natalie Portman habitar real e completamente a sua personagem/ personagem histórica – veja-se, até, a maneira como consegue tornar um sotaque extremamente datado em algo que, ao longo do filme, se torna perfeitamente natural -, e apesar do filme mostrar muitos momentos íntimos de dor e luto, o filme consegue sempre deixar-nos um pouco à distância. Talvez porque ver a criação de um mito tenha algo de calculista, ou pelo menos de calculado, na sua essência, mesmo que entendamos as razões por detrás disso mesmo. A maneira como a criação deste mito é apresentada também não é especialmente benéfica para Jackie que é vista como alguém que tenta compensar a “libertinagem” do seu marido através de uma publicitação de ambas as suas importâncias – de JFK como Presidente e de Jackie como Primeira Dama. Especialmente durante uma conversa com um padre, ou num momento confessional no final do filme, Jackie parece apenas ter encontrado seu propósito enquanto Mulher do Presidente e quando este morre, tudo um sonho morre com ele.

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Jackie consegue contudo criar uma narrativa, sobretudo com a sobreposição do mito de Camelot ao da administração de JFK, que associa o marido a um certo idealismo histórico realizado por heróis como o Rei Artur, elevando JFK à realeza. Contudo, talvez Jackie não se consiga elevar para além de ser uma excelente entrada no portfolio de Natalie Portman, um que talvez lhe conceda um Óscar. Isto porque apesar da fidelidade dos cenários e do guarda-roupa e do retrato de Portman, não haja ali nada realmente de novo, de interessante ou que escape a uma narrativa meramente de recriação. Podem levar-nos por corredores nunca antes vistos mas isso não nos mostra necessariamente algo de novo ou único a este filme.

Jackie conta também com Peter Sarsgaard como Bobby Kennedy, Greta Geriwg como Nancy Tuckerman, BIlly Crudup como o jornalista Theodore White e John Carrol Lynch como Lynon B. Johnson.

Texto: Ana Cabral Martins
Imagens: Direitos Reservados