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Filippo Fiumani: “Ainda sonho que a Arte possa revolucionar as almas das pessoas.”

Na adolescência, o skate fê-lo deslizar até ao mundo da Arte. Mais tarde, foi a vez de a Arte lhe ensinar novas manobras no mundo do skate. Juntou-lhe a rebeldia do punk e a aventura surf. E, hoje, todos estes imaginários voam lado a lado com os traços crus e humorados de Filippo Fiumani para criar pensamentos e motivar reflexões. Sobre o estado da cultura. Sobre os problemas do quotidiano. Sobre o futuro da sociedade em que vive.

O italiano tem um sonho e sonhar deixa-o livre. Presença confirmada na terceira edição do POSTER, o designer e street artist leva agora às ruas de Marvila o resultado de mais um exercício de pura liberdade.

 

Filippo, o teu trabalho tem uma componente muito social e um ótimo exemplo disso é a caneta que criaste para invisuais. De certa forma achas que isso distingue o teu trabalho? O facto de pensares em mensagens na Arte com uma função e não só como algo meramente estético?

Para mim, uma coisa é certa: tem sempre que existir uma vertente ativista e social, que está muito ligada ao meu background. Desde muito pequeno que oiço música punk rock, que tem um ADN um pouco revolucionário. Gosto muito de culturas independentes e de Arte um pouco fora da caixa. Portanto acho que a minha Arte é o reflexo das minhas influências, desde novo até aos dias de hoje. E é isto que eu tento transportar para o meu trabalho, em termos visuais.

Quando lancei a caneta, em 2014, foi numa tentativa de criar uma linguagem diferente que chegasse mais facilmente às pessoas invisuais. Foi uma época bonita, consegui experimentar várias coisas e chegar a um resultado interessante. Com muita pena minha, a caneta não entrou em produção.

Ainda sonho que a Arte um dia possa vir a ser um instrumento para revolucionar as almas das pessoas. É um sonho difícil de se manter, porque estamos constantemente a ver exemplos opostos a isto, mas sonhar torna-me livre!

 

O arte e o design foram o pretexto para tu interpretares e expressares este teu imaginário (skate, surf, punk), ou foi ao contrário?

Acho que foi uma coisa que cresceu de forma natural. Quando entrei no mundo do skate aos 14 anos, entrei automaticamente no mundo da música e no das artes também – porque o skate para além de um desporto, traz uma grande cultura artística consigo. Ao longo dos anos, a minha tendência foi começar a customizar as minhas próprias pranchas de skate e desenhar coisas nas paredes. Acho que o skate me impulsionou a entrar no mundo das Artes e depois foi a Arte que me impulsionou a continuar no Skate. A isso juntou-se o Surf, e todas estas culturas se envolvem de forma equilibrada.

 

Se te dissessem que até ao fim da tua carreira como designer só podias escolher um destes elementos para trabalhar, qual escolherias?

Não sei! A realidade é que todos estes elementos fazem parte de mim. O skate, como é óbvio, é a raiz mais forte que tenho, mas apesar de adorar andar de skate, estou a começar a acusar a idade! (risos) Já não consigo andar como andava, coisa que não sinto com o Surf, pois ainda me permite surfar todos os dias e estar bem. Por isso escolheria, talvez, o Skate de um ponto de vista criativo e o Surf de um ponto de vista de desporto.

 

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Um POSTER para refletir sobre o estado da Arte

 

Em primeiro lugar, porque é que aceitaste o desafio do POSTER?

Aceitei este desafio porque o convite veio da parte do Bruno Pereira, diretor e criador do projeto POSTER, e eu gosto bastante do trabalho que tem desenvolvido nos últimos anos, tanto nas artes visuais como na música. Depois também estive a ver um pouco do que foi feito pelo POSTER nas últimas edições e gostei da abordagem e da ideia de partilhar uma das minhas imagens. Eu faço street art, mas não é propriamente ir pintar numa parede: preparo normalmente os trabalhos em casa e depois colo na rua. Portanto achei interessante participar neste desafio e criar algo específico para uma parede.

 

Fala-nos do Poster com o qual tu contribuíste para este projeto. O que é que ele representa e pretende transmitir?

Acho que é um Poster bastante direto, que veio de uma fase crítica da minha vida enquanto artista. A representação em si é uma cara preta, cujos olhos são de uma pessoa que fotografei num primeiro plano – que passa por uma série de problemas que eu próprio também passo – e as ilustrações por dentro são ligadas à temática da vida enquanto pai e da dificuldade que uma pessoa tem em tentar criar Arte e sobreviver através dela. O Poster em si conta com uma frase (“Arte é saber viver com 600€ por mês”), que acaba por ser uma mensagem bastante clara, que é uma situação atual não só no meu caso, mas para muitas pessoas..
Quando me foi feito o convite, de levar algo para as ruas, pensei em fazer algo deste género. Eu não gosto de colocar na rua “gatinhos e corações”, prefiro que seja algo concreto e uma mensagem que possa deixar as pessoas refletir e pensar um pouco qual é o caminho que a Arte deveria ter.

 

Que papel é que achas que o POSTER pode ter ou já está a ter no sentido de chamar a atenção para o valor da Arte, pelo facto de promover uma “Galeria a Céu Aberto”?

Penso que a partir do momento em que o conceito do POSTER é ser uma galeria a céu aberto, dá liberdade a cada um de passar uma mensagem e de partilhar a sua própria Arte. Eu acho que cada um dos artistas sabe onde quer chegar, portanto cada um dos convidados escolhe um pouco do que quer levar para a rua e o POSTER é um caminho e uma oportunidade para apresentar vários nomes de criativos e artistas.

 

Achas que o POSTER pode criar um impulso e dinâmica a esta zona mais esquecida da cidade?

Acho que Marvila é uma zona que hoje em dia já não é tão esquecida como era, antigamente quando lá passava de skate – falamos de há 7 anos atrás, quando tinha acabado de chegar – era um local mais underground. Hoje já se está a transformar, aos poucos, num sítio que está a ganhar mais atenção por parte dos artistas e dos próprios habitantes de Lisboa. O meu objetivo enquanto street artista e convidado do POSTER 2018 é deixar a mensagem clara que as ruas não podem ser só ornamentais. Não acredito numa arte meramente ornamental nas ruas. Numa galeria a céu fechado acho que pode ser aceitável o facto de produzir algo extremamente estético. Na rua acredito que o mais importante é a troca de ideais e questões que afetam várias pessoas neste país.

 

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Entrevista: Rita Matos
Fotografia: Alexandre Murtinheira