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De Enniscorthy a Brooklyn

Publicado originalmente em 2009, com tradução portuguesa no ano seguinte (Bertrand), Brooklyn, do irlandês Colm Tóibín, está de volta às livrarias, à boleia da adaptação cinematográfica estreada em janeiro em Portugal. O filme, realizado por John Crowley e protagonizado por Saoirse Ronan, está nomeado para três Oscars: Melhor Filme, Melhor Atriz Principal e Melhor Argumento Adaptado (o argumento é da autoria de outro conceituado autor: Nick Hornby).

A história é a de Eilis, uma jovem irlandesa da pequena cidade de Enniscorthy (a terra natal do autor) que, perante a falta de oportunidades profissionais, aceita a ajuda de um padre que lhe arranja trabalho em Brooklyn, Nova Iorque. Eilis começa por trabalhar numa loja de roupa – vivendo em casa da senhora Kehoe, que aluga quartos a jovens imigrantes – e à noite tem aulas no Brooklyn College para ser guarda-livros. Entretanto, num baile, conhece Tony, um encantador italo-americano que faz com que as saudades que Eilis sentia da Irlanda comecem a desvanecer-se.

Tóibín conduz a narrativa de uma forma segura, mas a que falta qualquer coisa: é um tom genérico, um estilo estandardizado, que podia ser escrito por qualquer outra pessoa competente. Isto é, falta-lhe uma voz, uma chama, algo que fizesse este Brooklyn sobressair no meio de tantos outros livros competentes. Para esta sensação contribui também o facto de quase tudo correr bem a Eilis. Ela tem trabalho, tem casa, tem um namorado, passa com distinção nos exames do curso – tirando um episódio de saudades de casa, nada influi drama à história.

O drama surge muito depois e concentra-se todo na parte final do livro. Precisamente por isso, por ser a parte final, revelar o que acontece tiraria o entusiasmo a quem não leu ainda o livro, ou não viu o filme. O que se pode revelar é que Eilis é forçada a visitar a Irlanda, por algo que lá aconteceu. E na Irlanda, na sua Enniscorthy, vê-se de repente a braços com a dúvida: voltar ou não voltar a Brooklyn. O motivo que a leva a duvidar é bastante prosaico, mas de certa forma parece não encaixar no caráter de Eilis. Numa história onde tanta coisa podia correr mal, o obstáculo que o autor cria parece desajustado, forçado.

Apesar destes defeitos, Brooklyn é um livro interessante, que se lê com prazer, e o filme não fica aquém. Aliás, talvez o tom genérico do romance seja o que possibilita uma adaptação bastante fiel e bem conseguida. Tirando, naturalmente, algumas omissões e ligeiras mudanças na cronologia dos acontecimentos, o filme de John Crowley consegue passar praticamente o mesmo que o livro. No final há um acrescento, um pequeno epílogo que no livro não aparece, e esse final (que não se pode dizer que é alternativo, antes um avançar mais no tempo do que o livro) dá-lhe outra graça, encerra melhor a história.


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Texto: Gonçalo Mira
Fotografia: Direitos reservados