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David Rosado em modo Heidelbergensis

Estivemos no atelier do David Rosado para conhecer o seu trabalho e o local onde pinta todos os dias. Vimos as novas obras em que está a trabalhar para a sua exposição “Heidelbergensis” a inaugurar no próximo dia 20 de Junho na Galeria Presença, e estivemos a falar sobre as suas técnicas e influências. 

Aqui fica o nosso Parlapié: 


David, em primeiro lugar, o que te fez dedicar à área das artes? Como foi o teu percurso até aqui?

O meu percurso foi um pouco complicado porque eu nunca quis ser artista, nunca ambicionei tal coisa.Fui estudar para Évora para um curso de Artes Plásticas, tentei desistir no terceiro ano, mas qualquer coisa me fez ficar. Eu senti que era muito complicado tirar um curso em Portugal, e uma pessoa conviver com a euforia ao mesmo tempo que nos apercebemos da formatação que os próprios professores nos impõem. E quando tens mais ideias do que aquelas que a universidade te dá, acabas por fugir um pouco dessa mesma formatação. Para mim foi difícil, eu estava mais ligado à música e ao skate, do que propriamente às artes plásticas e então a minha presença nas aulas não era frequente.

Quando terminei o curso, sentia que ainda não estava à vontade na área, a minha universidade tinha uma vertente muito abstrata na forma como conduzia os alunos, obrigando a “destruir” tudo o que era figurativo. Andei uns tempos sem saber no que me focar, e depois foi um amigo colecionador que me aconselhou a vir para Lisboa e tentei seguir o caminho da arte pelos modos que eu pensava que seria o correto, aproximando-me de várias galerias e as respostas foram sempre negativas.

Só passados anos é que isto começou a dar frutos e a correr melhor, e hoje em dia vejo a arte de outra forma. Acho que todos os cursos a nível da arte deviam ser restruturados, e tentar encaminhar os alunos para uma nova realidade.

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Nos teus trabalhos vemos uma mistura de técnicas, desde realismo, ao pixel, cartoon ou simples traços, tudo está presente no mesmo suporte. Como chegaste a esse registo e como o defines?

A primeira coisa que fiz quando acabei o curso foi tirar um novo curso de Pintura Multimédia, numa tentativa de me refugiar em algo que me pudesse dar dinheiro ou tornar a vida de um artista mais fácil monetariamente. Na música, apesar de ter lançado alguns CD’s, não me dava estabilidade financeira.

Quando fui trabalhar para a Casa da Música ganhei uma nova estabilidade que me permitia dedicar à arte, comprar os materiais e ir explorando esta área e tentando encontrar-me enquanto pintor. Eu sabia com toda a certeza que queria adaptar o tipo de linguagem de um computador para uma tela feita à mão, e isso é bastante complicado, porque figuração e modelagem não é uma área fácil.

Para chegar aos pixeis, tem que haver muita diversidade e muito treino e esforço, e tentar tudo! Passei por várias linguagens, desde a pintura mais clássica ao abstrato, até influências do design, da música ou à arte de rua.
De todas estas áreas ou estilos, tirei e juntei o que seria melhor para mim e o que melhor me definia enquanto artista.

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Há alguma mensagem que queiras transmitir nas tuas obras?

A Via Láctea! (risos) Eu foco-me muito em entender o porquê das mudanças sociais. Sou muito ligado à rua e ao velho hábito de escrever no muro, que se pensarmos bem é uma ação que já vem da Pré-História, quando representavam nas cavernas os seus rituais de caça.

Nos meus mais recentes trabalhos tudo o que crio é crítica social, dando aos espectadores uma narração, ou a oportunidade criarem a sua própria interpretação. Uso ainda vários detalhes que me foram acompanhando sempre pelas cidades onde passei, principalmente as camadas nos muros ou paredes, a sobreposição de frases, palavras, posters e cartazes, que não resistem por inteiro ao tempo.

Sabemos que tens estado a tens estado a trabalhar numa nova exposição. Fala-nos um pouco sobre ela.

A exposição vai ter como nome Heidelbergensis, que é uma das passagens da evolução humana, quando se começaram a utilizar os instrumentos de corte em predra e onde o próprio crânio começou a desenvolver-se para a forma que conhecemos hoje em dia. É uma passagem muito rápida na Pré-História, mas marcante porque foi na altura em que começaram a assinalar os espaços, a desenhar nas paredes, etc. Se antigamente os desenhos marcavam momentos de caça, nas minhas obras, os meus registos marcam a nossa sociedade e as nossas influências, num registo novo para mim que faz um apanhado de todos as séries que já tive.

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Se pudesses expôr em qualquer museu ou lugar do mundo, onde seria?

No Guggenheim. Seria um sítio onde eu gostava muito de expôr.

Fora do mundo da Arte, quem é o David Rosado e o que mais gosta de fazer?

Sou uma pessoa muito simples. Sou alentejano, logo aí está tudo dito, não é? (risos) Sou muito rotineiro, gosto de ir ao mesmo café, falar com as mesmas pessoas, saio de casa às mesmas horas, vou correr às mesmas horas. Para muitos pode ser monótono, para mim é uma forma de criar disciplina em tudo o que faço. Mesmo na pintura, não acredito no romantismo dos nossos antepassados de que só pintamos quando temos inspiração. É preciso pintar todos os dias, ter uma hora para fazê-lo, e se correr mal e for preciso, destrói-se.Gosto de fazer o meu máximo e não ter medo de arriscar, e acho que é isso que me define como pessoa.

Vejam aqui o Wordplay do David Rosado:

http://davidrosadonet.blogspot.pt/

Entrevista: Ana Suzel
Fotografia e Vídeo: Beatriz Pereira