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‘A Pedra e o Charco’ de André da Loba

“A Pedra e o Charco” é a exposição individual do artista André da Loba, patente na Galeria Underdogs. Esta é uma exposição que une a ilustração e a escultura, ao mesmo tempo que convida o espectador a traçar o seu próprio percurso narrativo e a interpretar cada um dos elementos criados pelo artista, como se também ele pertencesse ao local. O armazém 56 da Rua Fernando Palha foi invadido por cores, formas simples e convidativas, desafiando todos a repensar o conceito de ilustração e a entrar e conhecer o trabalho deste artista português que tem vindo a ser alvo de um grande reconhecimento internacional.

A Magnética Magazine esteve presente no dia da inauguração e entrevistou André da Loba. Para quem ainda não visitou o local, vejam o vídeo e conheçam algumas das suas obras:





Como descreves o teu trabalho? O que pretendes transmitir e quais as técnicas que mais utilizas?

“Isso não é comigo, porque nenhuma árvore explica os seus frutos, embora goste que lhos comam.” Miguel Torga, n’Os Bichos.
Quando desenho não tenho estas perguntas em mente. Até acho que estas são perguntas redutoras por reduzirem (perdoa-me a redundância) a ilustração ao seu sentido mais imediato: o visual. A ilustração já não é o desenho com a intenção decorativa das iluminuras medievais, mas sim um desenho de exploração intelectual. É mais uma reflexão do que uma representação. Há mais de um século que o mundo da ilustração tem produzido imagens desafiantes, inteligentes e sofisticadas que propõem ao leitor mais dimensões do que o texto que suportam (ou pelo qual são suportadas…).

Fala-nos um pouco sobre a exposição “A Pedra e o Charco”. Quais os materiais utilizados?

Esta exposição cresceu de uma maneira pouco planeada, sem obedecer muito à razão ou a um texto. Ganha vida na força das imagens, nas relações que estas podem ter entre si e no que podem significar para cada um de nós. Considero quem visita a exposição como mais uma personagem deste enredo abstracto. Assim testo fronteiras entre ilustração e arte; Será que ainda é ilustração quando está numa parede de uma galeria? Será que a separação da narrativa em vinhetas torna esta exposição num grande comic? As peças tridimensionais ainda são ilustração? Já me dirás o que te parece.

És ilustrador, designer gráfico, escultor, entre outras. Consegues escolher uma área de eleição ou todas acabam por se complementar?

“Nani gigantum humeris insidentes”, Bernard de Chartres.
Hoje em dia temos disponíveis tantas ferramentas e há tanto espaço para criar que era uma pena não aproveitar e ser múltiplo no meu trabalho.

São vários os clientes com quem já trabalhaste ou trabalhas. Existe algum nome com quem gostasses de trabalhar?

Considerando que ainda não trabalhei com esse nome sonante, pensar no futuro, por mais irresistível que seja, estraga-o e tenho por norma não embarcar nesta prática. Sou mais do presente. Do agora. Às vezes parece-me que a nossa geração vive demasiado no futuro, à procura das garantias do passado; mas como eu acho que temos mais deveres do que direitos, sinto que para conseguir alguma coisa tenho de trabalhar e não fantasiar sobre ela. Isto não quer dizer que não sonhe, muito pelo contrário: sonho, e muito. Mas a melhor maneira de sonhar (ser futuro) é, a meu ver, investir no presente; estar presente agora e não pensar em estar daqui a um bocado. Espero acima de tudo ter energia e ideias para continuar a trabalhar muitos mais anos.


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Texto: Ana Suzel
Fotografia e Vídeo: Alexandre Murtinheira