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Tudo o que é preciso saber sobre a sexta temporada de Game of Thrones

Ao falar com amigos e listar a quantidade de, digamos, conteúdo que andava a consumir relativamente à sexta temporada de Game of Thrones, percebi que andava a ler um mínimo de 10 artigos, a ouvir pelo menos 4 podcasts, a ver uma média de 3 vídeos e a ver um programa-de-rescaldo… tudo isto por cada episódio. Podemos dizer que andei a viver intensamente esta temporada. Aliás, desde que o Jon Snow morreu no final da quinta, que seguir a produção de Game of Thrones e ler a wikipédia da A Song of Ice and Fire se tem tornado recorrente. Não me julguem.

Agora chegou a altura de fazer um balanço de contas.

A sexta temporada de Game of Thrones foi muita coisa. Uma revolta matriarcal. Uma revitalização da moribunda família Stark (em mais do que uma maneira). Uma temporada sob o signo do renascimento e/ou da ressurreição. Mas foi, mais do que qualquer outra coisa, o desfecho, o culminar (ou, se quisermos ser “estrangeiristas”: o payoff) de seis (seis!) temporadas.

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Existiram diferenças. A mais notável é o facto de a série estar oficialmente sem livros para adaptar – George R. R. Martin tentou, os criadores da série tentaram dar-lhe tempo (o cliffhanger da morte de Jon Snow é o mais notório modo de adiar a conclusão desta história), mas o homem não conseguiu. E foram alguns momentos (toda a ação em Riverrun e a eleição nas Iron Islands), tudo o resto é baseado nos esboços em bruto que Martin deu aos criadores: eles sabem o que tem de acontecer, sabem qual é o endgame, mas a maneira de chegar a esses momentos poderá eventualmente desviar-se dos futuros livros. Assim, o ritmo da narrativa está claramente acelerado e as timelines das histórias não estão sincronizadas temporalmente ­– deste modo, não temos de passar episódios inteiros em viagens, há uma elipse narrativa e temos de lidar com esse tipo de saltos para o momentum que a narrativa está a criar.

Como se queixava Alan Sepinwall (num dos vários textos que li dele), há alturas em que a série parece dedicar-se apenas a momentos marcantes e deixar-se definir por eles. Houve episódios mais parados que mesmo assim inseriram este tipo de ferramenta para galvanizar os espectadores, como o discurso de Daenerys em cima de Drogon em que pede aos Dothraki que a ajudem a conquistar Westeros. Acontece frequentemente esta coleção de momentos não prefazer uma grande narrativa geral porque são tantas as partes em movimento que as coisas às vezes funcionam de forma desajeitada ou, pelo menos, pouco harmoniosa.

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No episódio final, as peças entraram em linha e os personagens estão posicionados para o futuro. Vale a pena falar um pouco sobre a jornada de algumas personagens.

Arya
A atriz Maisie Williams avisou os fãs da série que a sua storyline seria aborrecida. Infelizmente, é aqui que sentimos o peso de George R. R. Martin que, na sua tentativa de acertar as linhas temporais nos livros, acabou por arrastar plotlines de formas frustrantes. Arya passou demasiado tempo com os Faceless Man, sem grande razão e com um funcionamento interno de lógica questionável: porque é que ela anda tão despreocupada depois de ter recuperado a sua espada Needle e abandonar esta Ordem? Como conseguiu recuperar das suas feridas de modo a derrotar a Waif? Que raio de despedida do Jaqen H’ghar é aquela? Quando ela regressa a Riverrun (Braavos é em frente, com uma pequena língua de oceano no meio, geograficamente), parece ter consigo uma cara: dada ou surripiada? Arya recupera a sua identidade. Já não é “uma rapariga” mas sim Arya Stark de Winterfell e o seu plano é ir para casa. Mas isso não nega o facto de esta rapariga querer continuar a riscar nomes da sua lista de vingança e a tarte-de-Freys (algo que acontece nos livros, mas cozinhada por outras pessoas) é mais um passo perturbador numa viagem que culmina em Arya transformar-se numa assassina ninja.

Bran
A personagem com que Game of Thrones começa, naquele início no longínquo ano de 2011, esteve ausente uma temporada inteira. Era provavelmente a storyline, fora a do Jon Snow, que me despertava mais interesse. Bran começa e acaba abruptamente o seu treino com o Three Eyed Raven (um péssimo ou ótimo mentor só o tempo o dirá). Introduz-nos à Tower of Joy, mostra-nos que as histórias que se contam não são necessariamente a verdade e que o passado é a chave para vencer as guerras que virão. Toda esta temporada está sob esse signo: o conhecimento do passado como instrumento essencial para combater os White Walkers, a história que se repete. O ataque final à caverna do Three Eye Raven, causado pela insubordinação de Bran, dá origem a uma dos momentos mais emocionalmente poderosos da temporada: num momento em que o seu mentor tem de provocar o download de toda a informação que possui para Bran (para que este consiga navegá-la no futuro), este fica preso entre o passado e o presente, entre os seus poderes de warg e os seus poderes de greenseer e quem sofre com isso é Hodor, que simultaneamente se sacrifica (sem estar a comando de Bran) para que o “little lord” possa viver e sofre o acidente que o torna uma pessoa incapaz de dizer algo que não “Hodor” = “hold the door”, o último comando de Meera, a tentar fugir com Bran dos zombies invernosos.

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Cersei
A Rainha-Mãe entra numa rota de colisão e numa descida a umas trevas de onde não há retorno. Depois de ter sido humilhada no final da quinta temporada, depois de ter sido abandonada pelo filho a favor da religião dos Sete, depois de ter enviado Jaime para fora de King’s Landing (para dominar militarmente Riverrun), depois de ter sido abandonada pelos aliados que antes tinha traído, Cersei já não tem aliados. Bom, tem dois, o Zombie Mountain e o pouco ortodoxo Maester Qyburn. Quando Olenna Tyrell pergunta a Cersei se ela vai matar toda a gente, ou lhe coloca essa ideia na cabeça ou exacerba essa noção que já existia. Pegando nas reservas de wildfire deixadas pelo Mad King, que Jaime impede de serem utilizadas quando mata o rei, Cersei vinga-se de forma absolutamente explosiva, abrindo caminho para um reino de medo e absolutamente solitário: aqui está presente novamente o renascimento, ela torna-se na Rainha Cersei, Primeira do seu Nome, depois da profecia se ter realizado e Tommen se suicidar. Os seus três filhos morreram e Cersei está consumida pela ambição de poder. Agora Jaime terá de lidar com o facto de a única pessoa que ele ama (e que lhe resta, no fundo) ter feito exatamente aquilo que ele tentou evitar, sacrificando a sua reputação pelo caminho: a destruição de (parte de) King’s Landing através de wildfire, um plano que fora do Mad King e que Jaime impediu que acontecesse quando o mata. Será ele o “valonqar” (irmão mais novo) que, supostamente segundo a profecia que também anunciava a morte dos três filhos, porá as suas mãos à volta do pescoço de Cersei até a matar?

Daenerys
Finalmente. Finalmente Dany tem os Dothraki novamente com ela, os Unsullied, navios para transportar toda a gente (obrigada, Yara e Theon, um dos melhores team-ups desta temporada), três dragões quase adultos (jovens adultos?) e amigos em Westeros prontos a abraçar a sua causa: os Martell em Dorne e o que resta dos Tyrell no The Reach. Nada mau. O Jorah está algures a tentar curar a sua greyscale, o Daario foi abandonado em Meereen, mas a relação de Dany com Tyrion está cada vez mais forte. Não só depende totalmente do conselho sábio do anão mais maravilhoso de sempre, como Tyrion tem finalmente nela uma figura que confia plenamente nele e o faz ser a melhor versão dele próprio. Ambos têm agora um propósito, senão mesmo um destino, que é a culminação de anos de desenvolvimento destas personagens. O plano final da armada foi algo que desejámos ver desde a primeira temporada e sabe tão bem que esteja finalmente a acontecer.

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Jon
Temo que muitos ainda considerem o Jon Snow como alguém que toma decisões parvas e apenas um rapaz bonito sem grande vida interior. Contudo, há já algum tempo que o Jon é o meu herói. Tudo bem, ele toma decisões parvas que lembram o “Stupid Ned”, mas eu não quero que ele perca a sua nobreza e o seu bom coração em troca de ser um Littlefinger. Estou sinceramente a torcer por este bastardo e absolutamente investida no arco deste personagem, que começou a temporada morto e acabou como “King in the North”, com Lyanna Mormont a declarar que não quer saber se ele é um bastardo, ele será o seu rei até ao final dos seus dias – se bem que todos sabemos o final trágico do Young Wolf Robb, na sua duração enquanto King in the North. A sombra negra neste quadro glorioso é o poder manipulador que Petyr Baelish ainda usa em Sansa, que sabe que não deve confiar nele mas que não consegue evitar seguir os seus conselhos ou, pelo menos, sentir que ele tem alguma razão nas coisas que diz. Por seu lado, Littlefinger finalmente admite que quer o Iron Throne e que quer Sansa ao seu lado, independentemente do caos que crie até lá chegar.
Mas não nos esqueçamos de um dos mais poderosos momentos desta temporada: a confirmação da teoria R+L=J. Jon não é filho de Ned Stark, mas sim da sua irmã, Lyanna. O seu pai será, sem dúvida, Rhaegar Targaryen, o filho do Mad King que supostamente a raptou (terão, mais provavelmente, fugido juntos) depois de a coroar “Queen of Love and Beauty” num torneio. A importância de paternidade e maternidade de Jon Snow tem pairado sobre livros e série (“Quem é a mãe de Jon” foi a pergunta que Martin fez aos criadores da série ao decidir que os deixava pegar na sua narrativa) e vamos ver no que vai dar.

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***

Game of Thrones está na reta final. Em princípio, só temos mais 13 episódios até isto acabar. Benioff e Weiss, os criadores, sabem o que vai e o que tem de acontecer. Até lá, é normal que as coisas se tornem um pouco mais convencionais, à medida que peças se movimentam para os seus lugares necessários (Cersei no Iron Throne, Dany a vir de Este, Jon como King in the North). Precisamos de uma vilã, de personagens secundários que se vão juntando e precisamos de heróis pelos quais torcer. Game of Thrones continua, no entanto, complexo, violento e mesmo as vitórias deixam um sabor amargo na boca. A série continua a dar-nos a satisfação de uns quantos, pequenos momentos de contentamento ao mesmo tempo que nos relembra: não existem finais felizes.

Finalmente, este último episódio de Game of Thrones, tendo às suas costas seis temporadas de desenvolvimento de personagens e de narrativa, parece menos o fim de algo e mais o início da ação-como-deve-ser. Possivelmente porque só agora é que Dany está a atravessar o Narrow Sea, algo que desejámos ver desde o final da primeira temporada (talvez até antes, mas antes não existiam dragões deste tamanho). Está a começar definitivamente o “Great Game” e Tyrion avisa-nos: “the Great Game is terrifying”.

Pensamentos extra:

* A diferença, como sublinhou uma vez Alfred Hitchcock, entre surpresa (em que não sabemos o que vai acontecer) e suspense (em que sabemos o que vai acontecer) é um movimento que tem acontecido em Game of Thrones, que se tem afastado de uma para oferecer a outra. Este é um movimento de que estou a gostar bastante.

* A música de Ramin Djawadi nos primeiros 20 minutos do último episódio e a realização de Miguel Sapochnik são marcas de Game of Thrones no seu expoente.

* Roose Bolton avisou o Ramsay de que pessoas que se portam como animais selvagens (sem seguir os códigos normais de conduta) são dados a comer aos cães. Ele acabou por ter razão.

Texto: Ana Cabral Martins
Fotografia: Direitos Reservados