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The OA: há coisas que não se explicam

The OA já foi descrito como uma “failed, but not wholly worthless, experiment in TV auteurism“, um “Sci-Fi Mystery Not Worth Investigating“, mas também como “One of the Year’s Most Important Films” e um “poço de coisas estranhas mas mais interessante queStranger Things. Ninguém parece conseguir uma opinião consensual: é maravilhoso e é péssimo. Em que é que ficamos? Vamos descobrir, falando do primeiro episódio.

The OA é um exercício em “auteurism” mas ainda é cedo para confirmar se podemos chamar a este exercício “televisão”. Os episódios existem, são oito, mas a maneira como estão pensados não parece obedecer a uma regra fixa (71min, 58min, 60min, 64min, 61min, 31min, 41min, 50min). O primeiro episódio de The OA funciona como os primeiros cinco ou dez minutos de um filme ou, melhor ainda, como prólogo de uma narrativa literária. O genérico aparece, finalmente, quando faltam apenas 14 minutos para o episódio acabar (episódio esse que passa para lá da 1h10 minutos). Mas voltemos ao início.

THE OA

Zaç Batmanglij e Brit Marling já colaboraram anteriormente, colaboração esta que começou com o filme-tese de Batmanglij, um filme de 35mm chamado The Recordist (2007) em que Marling também entra. Juntos, fizeram depois Sound of My Voice (2011) e The East (2013) e tornaram-se presenças assíduas do festival de cinema de Sundance. Agora são os co-criadores desta série da Netflix. Esta plataforma-de-distribuição-tornada-produtora anda a lançar dinheiro em diversas frentes para criar conteúdos de entretenimento que apelem a nichos de audiência diferentes. Fuller House pega na nostalgia de quem viu Full House ou redescobriu Full House na própria plataforma. As séries da Marvel (como Luke Cage) fazem a ligação ao Universo Cinematográfico da Marvel. Até Stranger Things funcionava como algo-que-remetia-para-outra-coisa (nostalgia pelos anos 80 e pelo cinema de Steven Spielberg e pela obra de Stephen King). Com The OA, a Netflix fez uma aposta que é totalmente desligada de qualquer apelo pré-existente. Excepto a tendência para ser – pela sinopse – comparável a Stranger Things que, por sua vez, já parecia um filme de oito horas em vez de uma série dividida em episódios. Cada vez mais, as séries da Netflix são pensadas enquanto pacotes para serem devorados de uma vez o que começa a tornar a distinção entre o que é uma longa-metragem e o que é um episódio de televisão (especialmente quando não passa na televisão) uma coisa difícil de fazer.

Mas voltemos à comparação possível com Stranger Things. Num artigo anterior, mencionei as semelhanças:

Uma criatura feminina sobrenatural, com uma propensão para hemorragias nasais dirige-se para uma cidade suburbana do midwest americano. Um grupo de rapazes – os seus únicos aliados – são arrebatados pelo seu passado doloroso e pelos seus poderes místicos. As histórias que ela conta transportam-nos para mundos que só conheceram através da ficção – cheios de cientistas diabólicos, experiências cruéis e dimensões alternativas. Ela percebe melhor os rapazes do que eles próprios: o potencial da sua bondade e os limites da sua utilidade.

Há diferenças, contudo, logo à primeira vista. Prairie Johnson (Brit Marling) é uma jovem cega que desaparece aos vinte anos e, anos mais tarde, regressa à comunidade onde cresceu tendo recuperado misteriosa e milagrosamente a visão. Prairie – que reitera várias vezes que o seu nome é “The OA” não revela a ninguém o que se passou com ela durante os sete anos em que esteve desaparecida, nem ao FBI nem aos próprios pais: “It would hurt me to hurt you. And it would hurt you”. A parte mais intrigante (para além de uma cegueira curada) é que Prairie tem umas estranhas cicatrizes nas costas, evidência de um trauma que considera unspeakable.

Em relação à citação acima, há que retificar uma questão. Embora muitas críticas e materiais sobre The OA se concentrem nos quatro jovens rapazes – Steve Winchell (Patrick Gibson), Jesse (Brendan Meyer), French (Brandon Perea) e Buck Vu (Ian Alexander) – que ajudam Prairie (à lá Stranger Things), há um quinto elemento, pelo menos, neste primeiro episódio: Elizabeth “Betty” Broderick-Allen ou a razão que me vendeu totalmente a The OA. Esta personagem, uma professora de liceu de meia-idade, é representada por Phylis Smith, uma atriz que normalmente faz comédias. O seu currículo inclui coisas como The Office (2005-2013), Bad Teacher (2011) e Inside Out (2015).

Mas voltemos ao início. Depois de Prairie ser encontrada e não contar o que se passa aos pais, ou ao FBI, a sua única preocupação é encontrar Homer – quem é Homer? Os detalhes são poucos, excepto ser alguém que teve uma “near-death experience”. Para o encontrar, Prairie tenta usar Internet, algo que os pais a tentam impedir de o fazer, com todas as boas intenções. Na sua busca por Internet, conhece Steve, um rapaz tão sensível quanto violento, que tenta pedir um quid pro quo a Prairie: se esta o ajudar a evitar ir para o tipo de centro para-militar que toma conta de jovens problemáticos, Steve ajudará Prairie.
Assim, Prairie disfarça-se de mãe de Steve e tenta convencer a professora dele – Broderick-Allen – a ajudar este rapaz que parece totalmente perdido, apelando ao seu sentido de missão enquanto professora e à sua responsabilidade perante um aluno que não tem as mesmas facilidades dos outros. Apesar de não gostar nada da personagem deste Steve (miss u, Steve Harrington), a conversa entre Prairie e Broderick-Allen é maravilhosa, incluindo por ser uma alegria ver a Phylis Smith a exercitar músculos que vão para além da comédia.

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A mentira de Prairie e Steve é descoberta e este defenda-a perante os pais de ambos, embora tente descartar-se da sua parte da promessa (muito Strangers on a Train, que bom um rapaz tão novo saber deste filme). Prairie lança, então, um pedido de ajuda e socorro para o cosmos (a.k.a, a Internet), filmando um vídeo em que pede que 5 pessoas vão ter com ela para a ajudarem e que, no processo, deixem as portas de suas casas abertas – de modo a que ela, Prairie, possa metaforicamente entrar nas suas vidas e corações (estou a supor). Aparece Steve, que decide acreditar em Prairie mesmo que a ache louca, e alguns miúdos que este conhece (que tinham conhecido Prairie quando ela tentou arranjar Internet numa casa abandonada onde Steve parece vender drogas). Mas são só quatro. E é aí que aparece a professora de Steve, Broderick-Allen, é aí que a série me ganha, é aí que Prairie (ou, vá, The OA) começa a contar a sua história (que remonta à Rússia, onde nasceu e cresceu e numa altura em que tinha visão) desde 1987. É aqui que vemos The OA a ficar sem visão, que a vemos morrer pela primeira vez e que a série torna contornos metafísicos e, de certa forma, espirituais de uma forma que me lembra muitíssimo a segunda temporada de The Leftovers, uma das melhores séries da televisão americana de sempre – especialmente a segunda temporada.

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Este episódio lança os primeiros dados e cria os primeiros mistérios e pede-nos que, enquanto, espectadores nos entreguemos totalmente à história de The OA, pessoa e série. Não há grande comic relief e a série leva-se muito a sério e ou estamos na onda da série e nos entregamos de uma forma totalmente sincera, reciprocando a sinceridade que nos é fornecida, ou não vamos gostar da viagem. E, francamente, estou pronta para uma série que se leva a sério, que é uma fábula cheia de sinceridade e que nos pede para que tomemos atenção sem soltar risos a gozar. A ideia é dar o leap of faith. E eu estou pronta para o resto.

Texto: Ana Cabral Martins
Imagens: Direitos Reservados/ Netflix