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“The Leftovers”: O Livro de Kevin

The Leftovers é uma série – diriam os nossos amigos do outro lado do Atlântico – “criminally underrated”. Ninguém – vá, muito pouca gente – vê esta série e, se esta fosse menos genial, talvez estivesse mais inclinada a dizer que compreendia, dada a temática pesada. Contudo, a série é genuinamente um dos mais bem escritos e realizados esforços da televisão americana contemporânea. Está a par de coisas como Mad Men, The Wire, The Sopranos, Breaking Bad, Six Feet Under ou qualquer outra série que queiram atirar como “melhor de sempre”. Podemos ter passado da “Godlen Age of Television” para “Peak TV” e podemos estar assoberbados com séries para ver (já não é só nos canais normais ou naqueles canais de cabo que têm umas séries boas, agora há Amazon, há Netflix, há Hulu, há tudo e mais alguma coisa). Mas se eu conseguir alguma coisa (este ano? este mês?), que seja convencer alguns de vós a ver esta série maravilhosa.

Voltemos um pouco atrás. A série foi criada por Damon Lindelof (já podemos deixar o homem em paz por causa de Lost? Ele não merece tanto vitríolo) e por Tom Perrotta e é baseado no livro deste, com o mesmo nome (há personagens e acontecimentos que foram modificados, mas o ADN é o mesmo). Se não sabem já, a série (e o romance) lidam com o desaparecimento de 2% da população na Sudden Departure que traumatizou o mundo. A primeira temporada lida com as consequências. E, se formos muito simplistas, uma série que lida com o luto. Contudo, ao longo dos episódios, é um muito mais do que isso. Como diz Alison Herman, do site The Ringer, esta série é uma “eerie, allegorical exploration of grief and our attempts to reckon with it”, algures entre o “deeply personal and the impossibly global, the mundane and the magical”. É sobre os recantos mais sombrios do ser humano, sobre a necessidade extrema de ser compreendido, sobre olhar para o abismo e ter de lidar com o olhar de volta.

Na primeira temporada, Lindelof estava a atravessar a sua própria depressão e a série está tingida com uma espécie de desespero que não se consegue abafar. Não há um único momento em que não estejamos a pôr o dedo na ferida que é ser um ser humano e é absolutamente incrível por isso: é inabalável, o seu olhar. E, apesar de tudo, The Leftovers anseia por esperança.
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*alguns spoilers*
Na segunda temporada, passámos de Mapleton, NY, para Jarden, Texas. Uma cidade que não foi tocada pela Sudden Departure e que é vista, agora, como um Milagre e à qual chama Miracle. Ambas as temporadas tiveram de lidar com a existência disruptiva dos Guilty Remnants que tentam lembrar constantemente quem tenta continuar com a sua vida da tragédia que foi a Sudden Departure. Na terceira temporada, ainda não sabemos o que nos espera. Mas depois das portas que foram abertas na segunda – toda a jornada inesquecível de Kevin (Justin Theroux) – acho que podemos esperar tudo.
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*imensos spoilers*
A terceira temporada prometeu uma viagem à Austrália que ainda não se realizou. Ainda estamos em Jarden. Estamos perto do aniversário dos 7 anos da Sudden Departure e há um sentimento generalizado de que algo bombástico pode acontecer. Kevin ainda está atormentado pela sua viagem ao Outro Lado e ainda tem o seu deathwish e imensa dor. Nora (Carrie Coon) parece totalmente normal, não fora o caso da filha adoptiva (que tinha com Kevin), Lily, já não estar com ela (os pormenores são poucos). Matt Jamison, irmão de Nora, está convencido que Kevin é uma espécie de figura messiânica devido às propriedades mágicas de Jarden.

Por enquanto, fico por aqui. Talvez para dar tempo a quem queira pôr-se a par, talvez para dar espaço à série para nos mostrar um pouco mais. Mas para a semana farei um recap como deve ser. Portanto: vejam The Leftovers. Confiem em quem vos quer bem.


Texto: Ana Cabral Martins
Imagem: Direitos Reservados