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The Leftovers: entre o absurdo e o divino

Depois de passarmos em revista o primeiro episódio da terceira temporada – e um bocadinho das temporadas anteriores – passou-se muita coisa no mundo de The Leftovers.
Volto a sublinhar que The Leftovers é das melhores séries contemporâneas. Evitando comparações estúpidas tipo “É o The Wire de séries sobre o absurdo e o divino” – sim, The Wire é incrível e está a um nível tipo píncaros mas há espaço para outras coisas igualmente maravilhosas -, é mesmo uma série como não há outra. Fala de uma forma completamente acertada sobre tudo o que nos torna humanos, sobre a necessidade de encontrar um significado e um propósito nesta vida, sobre a maneira como lidamos com a perda, sobre como não vemos que o que precisamos está mesmo debaixo do nosso nariz até que deus/o mundo/o acaso nos dá um murro no nariz. Se a primeira temporada era tão dura que muito pouca gente teve coragem de continuar – continuarei a defender a genialidade dessa primeira temporada – isso é uma pena, especialmente porque estas duas últimas temporadas não têm sido senão um pequeno milagre televisivo. E está quase a terminar.

Depois de Kevin descobrir que Matt, John e Michael (os seus “apóstolos”?) o consideram uma espécie de Segunda Vinda de Cristo à Terra por ter sobrevivido a várias mortes, Nora teve de lidar com o facto de que a sua relação de anos com este homem está a desfazer-se. Em parte porque nunca falam sobre as suas verdades mais essenciais embora sejam co-dependentes, e em parte porque continuam ambos verdadeiramente “broken”. Quando é contactada por cientistas nórdicas que supostamente conseguem enviar (através de “blasts” de radiação) – é contactada através de Mark Linn-Baker, de Perfect Strangers (um estranho mundo paralelo, este) – pessoas para o mesmo sítio para onde elas foram “departed”, o segundo instinto de Nora é usar isso como desculpa para ver Lily (a criança que retornou à mãe, Christine, quando esta percebeu o erro de ter deixado a filha para trás) e para destruir ilusões de que há alguma explicação “mágica” para a Sudden Departure. Digo segundo porque, mesmo que Nora só perceba isso tarde demais, ela quer realmente, precisa desesperadamente, desta oportunidade, desta possibilidade de rever os filhos. Quando ela e Kevin finalmente confrontam – em Melbourne, Austrália, of all places (para onde as cientistas a mandaram) – coisas muito feias são ditas. Depois das quais não se pode voltar atrás. E o amor que uniu estas pessoas e que trouxe, literalmente, Kevin do purgatório é enterrado. Quando sai do hotel, Kevin não olha para trás. Esse episódio termina com a mais bonita imagem e Nora, sublinhada pela música “Take on Me” dos a-ha, que nunca teve contornos tão tristes como tem agora.

Já Kevin Sr. e Matt Jamison têm passado por provações que testam o limite da sua fé e da sua arrogância. Kevin Sr. vê-se como a personagem principal de um (imaginado) desígnio divino, recusando a aparente invulnerabilidade do seu filho Kevin, seguindo pistas que as vozes que ouvia durante a primeira e segunda temporada lhe vão dando até que se calam. Depois disso, esquece a conversa que tem com Kevin na “afterlife” e, ao invés, põe a sua fé num pequeno animal que parece encontrar coisas (o pedido de Kevin Sr. a esse animal? “Purpose!”). Fica, então, convencido que é o seu dever impedir um dilúvio bíblico. A sua fé (em si próprio) e a sua arrogância nunca se abatem. E quando conhece Grace, uma australiana cuja fé impediu que interpretasse a vida de uma certa maneira, ajuda-a a renovar novamente a sua fé. Num acto que é menos vitorioso do que totalmente absurdo, mas para Kevin Sr. tudo está sujeito a interpretações. Grace, depois de acidentalmente matar um polícia que achava ser Kevin Garvey Jr., confessa-lhe: “There is no message, and God doesn’t care about me. “It’s all just a story I tell myself. It’s just a silly, stupid story. And I believed it because… I’ve gone a bit crazy, haven’t I?”. Garvey Sr. recusa essa hipótese. Ela apenas encontrou o Kevin errado.

Já Matt Jamison, personagem que tem sempre um episódio dedicado e a quem aconteceu as coisas mais brutais, decidiu há muito tempo que Deus era a resposta. Até que se vê confrontado com um homem que se afirma como Deus.E assim, Matt, “just another asshole who thinks he’s God” é confrontado com “another asshole who thinks he’s God”, algo que o testa até ao limite, com resultados diferentes dos de Kevin Sr. Ao confrontar este homem, Matt tem um momento de auto-realização profundo e a sua fé é realinhada para o bem e em prol da humanidade, ao invés de em prol de uma figura abstracta que preza mais do que tudo. No final de contas, Matt é esbofeteado, metaforicamente desta vez, pela ideia de que ele próprio desistiu das coisas mais importantes para si por estar numa “hopeless pursuit of certainty”. E tudo isto ocorre num episódio que se passa num barco repleto de pessoas que se entregam a uma orgia, num culto ao leão Frasier.

Já só faltam 3 episódios para o final da série. E tal como as suas personagens, não estou preparada.

Texto: Ana Cabral Martins
Imagem: Direitos Reservados