947 Visualizações |  Gosto

Terra Concreta de Afonso Pais

Afonso Pais é conhecido por muitos pelo seu vasto percurso musical. A paixão pela música surgiu no primeiro contacto com os instrumentos, ainda em criança, e sempre se mostrou fiel aos seus interesses na área da música. Hoje, tenta levar a música à sua origem, e o seu mais recente disco Terra Concreta leva-nos ao inicio da criatividade musical.

afonso3

 

Em primeiro lugar, como surgiu a paixão pela música?
Essa pergunta é para mim tão misteriosa quanto a origem da consciência sobre o mundo que me rodeia, ou a auto-consciência que me permite identificar os meus gostos sem saber as razões que os fundamentam. O prazer que infalivelmente extraio no acto de fazer e ouvir música foi sem dúvida o motor de toda a curiosidade. A audácia necessária para induzir estados de espírito e exercitar a sedução pelo uso da música aconteceram, estou certo, como consequência de uma timidez inata. Ter tido contacto com instrumentos musicais lá por casa quando era pequeno facilitou imensamente a procura das notas e a descoberta de um primeiro sentido de expressão musical.

Como descreve o seu percurso musical?
Fui sendo fiel aos meus interesses musicais, à ambição de ir sendo tão bom e eficaz quanto aqueles que fui e venho admirando mais, e a conseguir satisfazer-me (ainda que só temporariamente) com o estímulo que possa trazer a quem me ouça, e aos meus colegas músicos. Nunca soube bem em que lugar musical quereria estar no futuro e continuo a não saber, nem o que queria representar para os outros: hoje em dia isso é uma felicidade para mim. Apenas venho seguindo atentamente os meus gostos em metamorfose, percorrendo um caminho evolutivo no sentido da simplificação, que me vá aproximando de um lugar que imagino existir, onde a música seja a forma de expressão que me entrega a quem for, sem obstáculos.

afonso1

Ao que mais dá valor num músico?
Se eu for ouvinte desse músico, o seu timbre, genuinidade, imprevisibilidade, originalidade, e só num segundo plano a técnica / virtuosismo. Se for alguém com quem estou a tocar, somando a tudo o que disse, um altruísmo musical muito grande e ouvidos muito abertos e atentos.

Terra Concreta é o seu mais recente trabalho. Fale-nos sobre ele.
Com Terra Concreta proponho trazer a minha música ao ouvinte, no lugar mais consequente onde esta encontra a influência do meio natural, num resultado final o mais próximo possível do ponto de origem da inspiração.

 “Levar a música à sua primeira origem, a Natureza”. Explique-nos o porquê desta necessidade.
Não diria uma necessidade, mas sim a possibilidade de uma assunção do lugar da Natureza no início da criatividade musical, e numa visão mais abrangente do todo, representa a procura por um contacto não filtrado com as raízes da imaginação.

Acha que a música que se faz hoje em dia já não respeita as tradições? Qual a sua opinião sobre a área musical da actualidade?
Só receio que nos meandros labirínticos da música tornada indústria, cada vez menos autores e intérpretes tenham a assertividade, rasgo e resiliência para querer acreditar no seu percurso de busca por caminhos de originalidade que lhes sejam genuínos. Assisto a um receio cada vez mais generalizado e nocivo de que só existe viabilidade na repetição de formatos de sucesso. Tradição é memória viva e útil, é conhecimento e cultura tornados sentido crítico e capacidade de veicular uma voz própria. Não creio porém que seja desejável repetir e cristalizar o que aconteceu como forma de comunicar artisticamente, e se isso acontecer, estaremos a vilipendiar as nossas influências e paixões, venerando-as a um ponto de as tornar matéria morta e embalsamada.

afonso2

Se tivesse que escolher o instrumento musical do qual sai o seu som favorito, qual seria? Porquê?
A guitarra, pois é para mim a voz que nunca tive.

Que músicos ou música o inspiram?
Demais para poder dizer alguns apenas e ainda assim ser representativo. Ouvir música é tão importante na minha vida como tocar e compor, sou muito cioso dos meus discos e do tempo que preciso para deles usufruir. Ver música ao vivo é a instância em que estamos mais próximos de compreender o que seria sermos outra pessoa, com outros gostos e outro imaginário, uma aprendizagem apenas superável pela experiência de tocar com essa pessoa… e mesmo assim, são mundos complementares! Tenho estado atento a uma nova geração de compositores-intérpretes Brasileiros, dos quais destaco um parceiro musical recente: Thiago Amud.

Um palco, no mundo inteiro, onde gostasse de tocar?
Algures no mundo, onde pudesse acompanhar Chico Buarque, numa nossa parceria com música minha e letra dele.

Que conselho daria aos músicos portugueses?
Não tenho conselhos, deixaria o desafio de convivermos mais, musical e pessoalmente. Mas vejo isto acontecer, felizmente. Espero que surja de um desejo partilhado, e cada vez menos de uma necessidade de subsistência… isso significaria que a nova música vai criando o seu lugar por cá, e na verdade esse é o rumo orgânico que todos devemos esperar ou exigir.

Entrevista: Ana Suzel
Fotografia: Direitos Reservados