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“Silêncio”: um filme frustrante de Scorsese

Enquanto pessoa que escreve sobre filmes – ou sobre séries ou sobre cultura pop, em geral – a minha escrita está condicionada pela minha perspectiva. E provavelmente nunca estive tão agudamente consciente da minha perspectiva como ao ver este filme de Martin Scorsese (Taxi Driver, Tudo Bons Rapazes e, mais recentemente, O Lobo de Wall Street). Foi muito complicado, talvez mesmo impossível, criar uma ligação emocional com este filme, sobretudo durante o seu visionamento. Tenho, contudo, nas semanas subsequentes, pensado muito na sua mensagem e na ambivalência (ou não) do filme em fornecer algum tipo de respostas. Tenho, aliás, gostado mais do filme à medida que o tempo passa.

Silêncio não é um filme fácil.

SILENCE, foreground right: Liam Neeson, 2016. ph Kerry Brown / © Paramount / courtesy Everett

Comecemos pela sinopse. O filme começa em Portugal, em 1633. Quando a Companhia de Jesus recebe a notícia de que o missionário-no-Japão Cristóvão Ferreira (Liam Neeson) teria renunciado publicamente à fé cristã, Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garrpe, ou Garupe no filme, (Adam Driver), dois dos seus discípulos mais fiéis, decidem partir para o Japão para o confirmar e, quiçá, resgatar. Quando chegam, os dois padres deparam-se com uma população sob o regime Tokugawa, que proibiu o Cristianismo ou quaisquer influências europeias no Japão. Isto implica que os dois jovens padres não podem mostrar-se à luz do dia sob pena de tortura e prisão – não só sua, como de quem reza com eles.
Rodrigues e Garrpe assistem a perseguições cruéis aos cristãos, impedidos de qualquer demonstração de fé em Jesus Cristo e encorajados a apostatar (ou seja, a renegar a sua fé e iconografia).

Martin Scorsese chegou a estudar num seminário antes de se virar para o mundo do cinema. Contudo, o Cristianismo esteve sempre presente na sua obra, sendo o exemplo máximo disso “A Última Tentação de Cristo”, um filme polémico de 1988, que mostra o lado talvez demasiado humano de Jesus (Willem Dafoe). Scorsese parece lutar com a sua fé, humanidade e dúvida religiosa nos filmes que tocam nesta temática mais profundamente. E a viagem que se vive neste filme parece ser profundamente pessoal.

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A maneira como este filme é recebido pode ser ambivalente. O enredo é muito simples e o foco é em questões relacionadas com fé. Rodrigues (o filme, entretanto, segue Rodrigues em detrimento de Garrpe) questiona o silêncio que apenas recebe de Deus, mesmo quando este lhe reza a pedir que acabe com a crueldade que vê com os seus olhos. O filme questiona também o lugar dos missionários cristãos no Japão e, em várias conversas que Rodrigues tem com Inoue (Issei Ogata), a validade da arrogância religiosa em ir para outro país pregar uma Verdade superior àquela em que outras pessoas acreditam. Para Rodrigues, não há espaço para compromisso e a sua Verdade é universal e absoluta e, por isso mesmo, ele sente que não tem senão a obrigação de a espalhar.

O filme acaba por ser redundante na sua mostra constante de momentos de crueldade e tortura e penso que não seria necessário tanto tempo dedicado a essas imagens. Mas, ao mesmo tempo, questiono-me se esta redundância não será o que torna tão frustrante – e, eventualmente, eficaz – a arrogância de Rodrigues. O filme equipara (e a personagem de Liam Neeson fala sobre isso) a sua devoção ao Deus cristão com arrogância, especialmente perante o sofrimento do outros. Inevitavelmente, o filme chega à questão central do filme: é-se mais obediente aos ensinamentos de Cristo (sobretudo no que toca à abnegação) se se seguir as obrigações para com a Igreja e não apostatar ou é-se mais obediente ao exercer abnegação total perante o sofrimento dos outros.

~spoilers~
No podcast /Filmcast, Dave Chen, Jeff Canata e Devindra Hardawar questionam o filme de uma forma dura dizendo que Martin Scorsese, depois de um filme inteiro em ambivalência perante o trabalho e as decisões de Rodrigues, finalmente acaba por decidir que o “lado” do padre missionário é o lado “certo”. Quando Rodrigues se vê convencido por Ferreira a pisar a imagem de Jesus ouve a voz de Jesus. Para Chen, Canata e Hardawar isto significa que o proverbial silêncio é quebrado e que a fé/missão (e arrogância) de Rodrigues é justificada. Há um lado “certo”. Algo sublinhado pela cena final, dado que parece dizer (ainda mais se tivermos em conta a dedicação deste filme) que o trabalho destes missionários era essencial e fundamentalmente bom e que nunca perderam realmente a fé inabalável que tinham dentro de si. Contudo, Film Crit Hulk argumenta que o que Scorsese faz, durante o filme e no final, é fazer “the best possible argument for religious devotion against evil persecution, he then gives us the most honest answer of where it all goes”. E onde vai é para o momento supostamente do-outro-mundo em que Jesus fala com Rodrigues mas a voz é de Ciaran Hinds, o padre e chefe da Igreja em Portugal, que é mentor de Rodrigues. Tornando-o um momento que não é, de todo, de-outro-mundo mas muito humano.

Silêncio não é um filme fácil. É um filme frustrante, sem respostas fáceis em que os detalhes são mais fundamentais do que se possa pensar. Mas é um filme mais belo do que alguém poderia pensar. Sobretudo eu.

O elenco conta também com Tadanobu Asano, Shinya Tsukamoto, Yoshi Oida Yosuke Kubozuka, Ryo Kase e Nana Komatsu, entre outros.


Texto: Ana Cabral Martins
Imagens: Direitos Reservados