515 Visualizações |  Gosto

“Sherlock”: um retorno reformulado

Sherlock é uma série britânica baseada nas histórias, de Sir Arthur Conan Doyle, do detetive Sherlock Holmes. A série foi criada por Steven Moffat (Doctor Who, The Adventures of Tintin, Coupling) e Mark Gatiss (The League of Gentlemen, Match Point), e conta com Benedict Cumberbatch como Sherlock Holmes e Martin Freeman como o doutor e companheiro-de-aventuras John Watson. Já foram produzidos treze episódios: três por cada temporada (em 2010, 2012, 2014 e 2017) e um episódio especial (um holiday special, vá) a 1 de janeiro de 2016, passado na era vitoriana com as vestimentas clássicas e bigodes. A quarta série começou a ser exibida no início de janeiro de 2017: no domingo dá na BBC One, na segunda-feira está disponível através da plataforma Netflix (mesmo em Portugal). A série, que se passa nos dias de hoje, é uma atualização muito bem sucedida do detetive mais famoso da história da literatura (certo, há Poirot, mas Sherlock é mais conhecido) e já esteve nomeada para vários prémios (BAFTAs, Golden Globes, Emmys) tendo vencido outros tantos (Emmys). O sucesso da série vai para além da fan fiction e do Tumblr, sendo um portento de audiências que se espalhou pelo mundo e tornou Martin Freeman e Benedict Cumberbatch em estrelas – agora também no cinema (The Hobbit, Captain America: Civil War, Doctor Strange).

Esta quarta temporada, vê Watson já casado com Mary – que, curiosamente, é uma antiga assassina – e Sherlock a adaptar-se à ideia do amigo ter uma família de quem ele, Sherlock, cuidará. É amoroso e idílico até ao momento em que tudo descamba. Depois do nascimento de Rosie, Watson começa a interessar-se por uma mulher que conhece no autocarro. O mistério que prende Sherlock (“The Six Thatchers”) acaba por ter algo a ver com Mary – e com o final da sua vida como assassina – e a arrogância de Sherlock acaba por levar a que o tentem matar (com um tiro num Aquário londrino) e Mary põe-se à frente para o salvar, morrendo no processo. Watson enraivecido com o amigo, abandona-o. Sherlock vai ver uma psicóloga. Tudo isto acontece no primeiro episódio, que chegou na segunda-feira, dia 2 de janeiro, na Netflix.

O segundo episódio (“The Lying Detective”), que ficou disponível na segunda-feira desta semana (dia 9), foca-se no luto de Watson e na tentativa de juntar novamente os dois companheiros depois da morte de Mary. Sherlock está completamente drogado (o seu problema com drogas e sobriedade é sobejamente falado ao longo da série) e, portanto, não em total posse das suas faculdades. O mistério gira à volta da personagem de Toby Jones, um magnata filantropo que tem um segredo horrível, que acaba por ser descartável e a visão pérfida dos seus dentes horríveis desnecessária.

Entramos agora em território com spoilers.

maxresdefault

Por onde começar? A questão da vida de Mary nunca esteve em grande dúvida a meu ver. A relação central desta série, e deste pedaço de literatura, sempre foi Watson E Sherlock e, mesmo nos livros, Mary Watson acaba por morrer. Tenho pena que tenha sido depois de ter uma filha – é estranho ver uma mãe a lançar-se para apanhar uma bala destinada a Sherlock com uma filha em casa – e que tenha envolvido um Watson que enganou emocionalmente a sua mulher, mãe da sua filha e amor da sua vida.

Esta série sempre tornou muito claro que Watson era um homem de fibra moral incrível e que percebia, mesmo que não compreendesse, que Sherlock tenha métodos estranho que acabam sempre por ter intenções benignas. Watson é compreensivo e a rocha emocional que estabiliza o mundo racional de Sherlock – pintar Sherlock com um “monstro” parece-me, sinceramente, demais. E o amor e adoração e companheirismo entre os dois, mesmo que nunca explícito, é o que sempre me fez voltar a ver esta série. A quarta temporada, trabalhou muito para ver Watson reduzido à sua condição humana. Watson culpa – até certa altura – Sherlock pela morte de Mary até ao momento em que lhe confessa que não o culpa, apenas é uma situação horrível com a qual terão de viver. Mas a parte que considero mais egrégia é Watson estar disposto a abandonar, de facto, o amigo até ver um vídeo em que Mary explica a Sherlock que este tem de se pôr em perigo para que Watson o salve e para que, em retorno, Sherlock o salve a ele. Watson diz que só o salvou porque Mary lhe pediu (no vídeo, na sua cabeça, em alucinação – o que de certa forma, é ele próprio? É confuso) – “he’s only human” não me parece uma explicação válida. Não estou OK com isto. E por descobrir que Sherlock faz anos, insiste em celebrar com bolo – uma reviravolta estranha que podia ter sido melhor explicada sem toda a questão “eu-não-te-queria-salvar-só-o-fiz-porque-a-Mary-pediu”. Coisa com a qual estou OK? Ver Sherlock a dar um abraço com compaixão a Watson, depois deste confessar a traição (uma explicação, talvez, para a maneira mais intensa de viver o seu luto), tentando aliviar a sua culpa.

A outra parte importante deste(s) episódio(s): Eurus. Já houve várias menções a um irmão extra de Sherlock e Mycroft. Em vez de um irmão, é uma irmã, que parece ter um passado dúbio dado que Mycroft diz várias vezes que nunca lhe demonstrou compaixão (ver mais aqui). Eurus insinua-se na vida de Sherlock de várias maneiras, sendo a autora do misterioso “Miss Me?” que parecia vindo de Moriatry (Andrew Scott) beyond the grave, que já vinha do final da terceira temporada. Primeiro, como a amante (emocional) de Watson; depois, como a filha do personagem de Toby Jones, dando informações que o ajudariam a perceber o caso (por que motivo?); terceiro, como psicóloga de Watson. Eurus tem uma série de perucas e lentes de contacto, aparentemente.

Não sei se estou interessada neste drama familiar e neste voltar à infância de Sherlock. A série tem vindo a tornar-se cada vez mais acerca de maximizar a inteligência emocional de Sherlock e o seu apego a Watson mas não estou a ver a coisa feita da melhor maneira mais acertada tendo em conta os personagens. Ao mesmo tempo, os mistérios da série têm-se tornado cada vez menos sobre surpreender o espectador e mais sobre enganar o espectador, suprimindo e omitindo informação, quando isso nunca aconteceu nos episódios iniciais, e mais bem sucedidos, da série. Até os mistérios-da-semana se tornam irrelevantes face às reviravoltas familiares.

Espero que o terceiro e último episódio desta temporada – “The Final Problem”, que sai dia 16 de janeiro – acabe, pelo menos, com a amizade entre Sherlock e Watson completamente restaurada. Senão…o que andamos aqui a fazer?


Texto: Ana Cabral Martins
Imagens: Direitos Reservados