319 Visualizações |  Gosto

“Sherlock”: é mesmo assim que acaba?

Este texto terá spoilers.

Este foi o final do meu artigo sobre os primeiros dois episódios desta quarta (e talvez final) temporada:

Espero que o terceiro e último episódio desta temporada – “The Final Problem”, que sai dia 16 de janeiro – acabe, pelo menos, com a amizade entre Sherlock e Watson completamente restaurada. Senão…o que andamos aqui a fazer?

Pelo menos tive o que queria. Mas foi um episódio francamente fraco. No final de contas, deixou de ser uma adaptação das aventuras do detetive Sherlock Holmes para passar a ser uma série apenas com menções a títulos e personagens de histórias de Sherlock, e personagens por quem tenho um afecto que já foi construídos em temporadas anteriores (e melhores) que não sei se reconheço em absoluto. Moffat e Gatiss, os criadores da série e os escribas deste último episódio, parece que se centram cada vez mais na ideia de que, no meio de tudo isto, só Sherlock é que importa (todos os outros personagens são satélites para se sacrificar em nome do génio rude), contudo estamos sempre de volta das mesmas questões e lições que este tem de aprender. No final, o que é que sabemos que não sabíamos antes?

Talvez que Mycroft não é tão esperto como parece? Ele já tinha feito escolhas duvidosas quando lidou com Moriarty. Que John Watson faria qualquer coisa por Sherlock? Já sabemos isso desde o primeiro episódio da série e, ainda mais, desde o último episódio da segunda temporada. Que Molly Hooper está apaixonada por Sherlock? Ok, aquele telefonema foi mesmo necessário quando sempre soubemos isso? E será que já tínhamos visto Sherlock a, finalmente, admitir que tem amigos ou pessoas a quem está ligado? Todo o enredo de “The Reichenbach Fall” (o último grande, excelente episódio desta série) é sobre Sherlock eventualmente se sacrificar para salvar não só John Watson como uma série de outras pessoas que ele também considera amigas – mesmo que não sejam tão amigas quanto John Watson.

C2CqODJXgAABq5i

O twist de “The Final Problem” é que Eurus é genial, ainda mais inteligente que os irmãos e que tem zero código moral por ser tão esperta. Tão esperta que consegue reprogramar pessoas? O quê? Como? De que estamos sequer a falar? Não compro o que esta série está a vender. Muito menos compro a questão da Irmã e da metáfora da rapariga-no-avião-sem-ninguém-acordado. Na prisão transformada em jogo sádico, o único momento interessante é o diretor da prisão a dizer: “Com Eurus Holmes no mundo a quem é que eu vou rezar?” Estaria a colocá-la num patamar divino ou a mera existência de Eurus é incompatível com a existência de Deus pois este não permitiria este mal? Alas, nunca saberemos porque ele não é Sherlock e não interessa o que este diz. O retorno a casa dos Holmes – Musgrave, onde havia sempre mel à hora do chá – ficamos a saber que Redbeard não era um cão mas o melhor amigo de Sherlock. Talvez Eurus esteja tão obcecada com Sherlock que todos os seus planos hiper-elaborados e pensados com anos de antecedência (obrigada, Mycroft, pela prenda de Natal que lhe deste, foi claramente boa ideia) têm como finalidade matar os melhores amigos de Sherlock (e Mycroft? Odeia-o? Não interessa, tudo isto é sobre Sherlock, apesar de ter sido Mycroft quem a aprisionou) porque quer brincar com ele. Mais uma vez: não compro o que esta série está a vender.

Até a coda, o momento em que Sherlock e John estão a reconstruir 22B Baker Street tem de ser manchado para mais um vídeo de Mary. Quantos vídeos é que esta mulher gravou antes de morrer? Porque é que estes homens não conseguem chegar a conclusões sozinhos tipo “somos amigos e vamos voltar a morar juntos e a desvendar crimes e mistérios”? Eles não conseguiam chegar lá? Temos de ter a Mary a chamar-lhes “my Baker Street Boys”? O John tem de ser convencido de que gosta do melhor amigo quantas vezes? Um momento que deveria ser absolutamente brilhante e emocionante, o culminar de uma amizade tão bonita quanto co-dependente, termina com um vídeo de Mary.

Este não era o final (efectivo ou não) da série que desejei ou que a série sequer merece. Ou que estas personagens e, sobretudo, estes atores, cujas performances são absolutamente brilhantes, mereciam (Benedict Cumberbatch e Martin Freeman terão sempre um lugar no coração dos fãs desta série). Claro que eles têm de voltar ao status quo e estarem juntos a desvendar crimes mas…”not like this“.


Texto: Ana Cabral Martins
Imagem: Direitos Reservados