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O Walk&Talk espalha arte pelos Açores

A sexta edição do Walk&Talk terá lugar na ilha de São Miguel, Açores, entre os dias 15 e 31 de julho. Este festival multidisciplinar de artes, contudo, não se ficará por São Miguel. Pela primeira vez desde a sua criação em 2011, o Walk&Talk dará o salto para outra ilha, a Terceira, entre os dias 23 de setembro e 1 de outubro. A programação é tão vasta e rica que seria difícil destacar alguns eventos. O melhor mesmo é verem tudo na página do festival e lerem a entrevista que fizemos a Jesse James, um dos diretores artísticos.

Como surgiu o Walk&Talk?

O Walk&Talk foi um devaneio que começou há seis, anos numa aventura partilhada com a Diana Sousa. A ideia era criarmos um projeto artístico nos Açores, algo que não existia na altura. Essa ideia de criarmos um centro num sítio que é periférico, geograficamente mas também artisticamente. O projeto foi crescendo, foi-se moldando também a uma série de coisas e hoje em dia é um projeto bastante transversal, não por indefinição mas sim porque faz sentido nos Açores, até por uma questão de partilha de referências e de nós conseguirmos comunicar com um público mais abrangente. É um projeto que vai às artes plásticas, à arquitetura, ao design, à música, à performance, e que tem uma postura muito inclusiva e de contacto entre disciplinas, não somos nada puristas. A ideia é que, mesmo que não haja uma colaboração, as artes comuniquem e convivam no mesmo sítio. É um projeto que está a crescer no sentido em que está-se a definir no que são os seus eixos programáticos.


Walktalkazores2015_aberturainstitucional_ruisoares_03

Tudo começou na street art, certo?

A arte pública está na génese do festival, começou no graffiti e na street art e isso ainda se mantém, essa ideia de termos um museu ao ar livre na cidade de Ponta Delgada. Mas agora investe cada vez mais nessa ideia de um programa de residências artísticas e de termos os artistas mais tempo nos Açores, numa relação mais efetiva com o lugar. Não que isso tenha de se refletir necessariamente no objeto artístico deles, mas que seja um ponto de partida ou um espaço de reflexão. É um espaço – não quero usar a palavra “inspirador” porque não é a melhor – mas é um espaço interessante, que tem um outro ritmo e um outro tempo, para se construir e para se pensar, artisticamente e conceptualmente.

E o que podemos esperar da programação?

Temos a parte das simultâneas, que é toda a programação que acontece no festival, desde as exposições, a concertos, a performances, a conversas. Depois o programa de conhecimento, que são todos os workshops e palestras e masterclasses, que para nós é muito importante: essa ideia não só de criarmos público, mas também de partilharmos e gerarmos conhecimento com essas pessoas. Este programa de conhecimento, mais do que ser uma reflexão sobre o que é apresentado no festival, é quase uma continuação do trabalho artístico com esses artistas, ou com esses intervenientes ou com esses protagonistas. Em traços gerais é mais ou menos isso.


Alby Guillaume (FR)_2012_Finançor©RuiSoares

O que é que há de novo este ano?

A grande novidade deste ano é termos uma programação que acontece ao longo de todo o ano. Deixa de ser um festival para ser um projeto. As residências aliás já começaram. Vai haver muito mais música, performance e dança no festival, pois as artes performativas têm a capacidade de criar memória coletiva, e é muito importante gerar empatia a interação com o público local.
Há a questão de irmos à ilha Terceira, que para nós é um grande passo. Saltar de uma ilha para a outra implica uma série de logística. Não queremos que seja uma repetição de São Miguel, são outros artistas e projetos novos. É um desafio para nós, pois já temos um histórico e uma relação com São Miguel, e vamos recomeçar a nossa conquista agora na Terceira.
Em termos de programação, o que vai acontecer são mais exposições, e um maior investimento de artistas locais e internacionais. Existirão circuitos de exposições, e um grande foco no circuito de arte pública, que nos outros anos esteve mais focado na arte de mural, e este ano vai estar muito mais focado na arquitetura e na instalação. Os grandes projetos vão ter arquitetos e designers que vão estar a trabalhar com comunidades e contextos específicos. Haverá uma conversa com a comunidade para tentar perceber quais são as suas expetativas, ajudando a pensar o projeto que será desenhado posteriormente. É uma forma de aproximar a comunidade, num projeto que culmina na própria construção, e que não costuma acontecer nos festivais.


A Ilha_ContemporayDance_residency_2013©RuiSoares

Em termos de público, nos outros anos, tens visto muita gente de fora? A comunidade também adere ao festival?

Tem havido um crescimento na participação do festival, não deixa de ser um festival de nicho, mas tem vindo a trazer muito mais gente. Existem coisas que são mais restritas e direcionadas a um público mais específico, mas depois existem outras super abrangentes e que acontecem na rua, e por isso mesmo o contágio é muito grande. Uma das coisas que sentimos no ano passado é que as pessoas marcam muitas viagens na altura do festival. É quase um dois em um, ir de férias para descansar e aproveitar a natureza, e ao mesmo tempo estar presente no festival. No ano passado houve uma grande comunidade de artistas e designers que marcaram presença nos Açores nessa altura, o que fez toda a diferença a nível de programação.


Atelier Backlar_2014©RuiSoares

EIME (PT)_2_2012©RuiSoares

Okuda (ES)_2012©OrgW&T

Topo (VZ)_2012©RuiSoares


Texto: Gonçalo Mira
Fotografia: Direitos Reservados