515 Visualizações |  Gosto

O Internato – admitir e desconstruir o medo, durante 1h15

Fomos conhecer O Internato, a nova experiência de teatro imersivo da responsabilidade de Michel Simeão – diretor do Teatro Reflexo – tão esperada desde o final do Projeto Casa Assombrada de Belas.

Não vamos, obviamente, escrever sobre o que se passou lá, até porque esta experiência tem que ser vivida e sentida por cada pessoa, e as opiniões e emoções vão, com certeza, ser diferentes, dependendo da capacidade de entrega de cada um que entra nesta antiga Casa dos Magistrados, em Sintra.

Antes do ensaio para a imprensa, e de forma a prepararmo-nos psicologicamente para o que aí vinha, falamos com Michel Simeão sobre o projeto e o que podíamos esperar dele. Para quem experienciou a Casa Assombrada de Belas, é importante que entenda as diferenças entre os dois projetos. Segundo o diretor “O Projeto Casa Assombrada funcionava como uma experiência, mas mais daquilo que seria uma atração de terror, onde havia menos teatro e mais a experiência do terror: a visita era feita em audio guides e as pessoas andavam sozinhas pela casa a fazer um percurso que já estava estabelecido. Este projeto é diferente, é uma casa que tem várias salas e em cada uma delas estão a acontecer várias cenas, cenas que estão fragmentadas por vários espaços, e que no seu todo nos vão contar uma história. Aqui as pessoas têm a liberdade total de entrar e sair de onde querem, quando querem e permanecer o tempo que quiserem. As cenas acontecem todas em loop e enquanto assistem, as pessoas vão ser desafiadas com algumas missões, para conseguirem desbloquear portas, para entrarem em sítios que à partida vão estar trancados, para conseguirem saber mais e ir mais longe. Vão ter poder de escolha – esta experiência vive muito da escolha – e as pessoas serão abordadas e desafiadas a escolher um caminho para a história prosseguir, ou seja, tudo depende muito do espetador.”

Entramos confiantes, mesmo sabendo que no meio de tantas cenas, nos iríamos assustar. Atenção, não existem jump scares, aqui o medo e os jump scares são interiores e dependem da capacidade intelectual de cada pessoa. Segundo o Michel, a experiência está feita para “desconstruir o terror e partir do medo de cada um e até o meu próprio medo, para que consigamos elevar um bocadinho, até filosoficamente, esta experiência, e não ser só uma coisa de gritos e de sustos.”

N’O Internato desaconselha-se que se ande em grupos muito grandes, as divisões são pequenas e se forem muitas pessoas para o mesmo quarto, a experiência e as emoções vão ser boicotadas. Levem um amigo, entrem em salas sozinhos quando for oportuno e os personagens assim o pedirem e afastem-se das salas com maior movimentação, podem voltar lá depois. Há sempre coisas a acontecer, por isso não percam tempo em espaços lotados. Entre brincar às escondidas no meio de 1h15 em que queremos procurar respostas, fazer parte da cena e dialogar com os atores ou simplesmente entrar e sair de cada sala – umas vezes com certezas, outras vezes com medo e incertezas – a experiência vale cada minuto do tempo que lá passamos e quem se dedicar a ela, pode chegar a conclusões muito úteis, dentro e fora daquela casa.

O espaço conta com dois andares e nós optamos por começar a explorar o piso de baixo: um susto inicial e uma cena que nos levou a falhar no objetivo desta experiência. A nossa vontade de explorar e encontrar pistas prejudicou-nos ao nível das cenas, que nem sempre foram vistas do início ao fim, mas que ainda assim nos ajudaram a percorrer cada uma das salas e chegar a um final que nos explica muito sobre o projeto. “As pessoas aqui têm acesso a quase tudo, existem 4 cenas centrais que nos contam a história no seu todo, e depois há ramificações de outras cenas mais pequenas que para conseguirem entrar e ver vai depender das escolhas e também de alguma astúcia e de alguma coragem. Vamos afunilando a história o mais possível até ficarmos só dois, eu e tu num sítio.” E nos conseguimos, mal ou bem, chegar a este final!

Aconselhamos a visita a’O Internato! Mais uma vez relembramos, que se adoraram o Projeto Casa Assombrada de Belas, muito bem, mas devem esquecer tudo o que aprenderam nessa experiência antes de atravessar os Portões da antiga Casa dos Magistrados. Se na Casa Assombrada de Belas o objectivo era sobreviver àqueles 50 minutos de sustos com o esfíncter contraído de princípio ao fim e na quinzena subsequente, n’O Internato o objectivo é viver a experiência, saboreá-la desejando que aquela 1h15 se prolongue para que possamos assistir às diversas cenas, aos desempenhos de quem tem coragem de atuar para o público, entre ele e ao seu redor, navegando a imprevisibilidade de uma audiência muitas vezes puxada à cena – fomos arrastados para uma espécie de masmorra, agarrados mais do que uma vez e o carinho nunca foi um sentimento que guindasse estas ações. Tenham atenção aos diálogos repletos de informação que será a grande arma para quem queira sair dali a perceber o que raio acabou de lhe acontecer. Nós não percebemos tudo, mas saímos felizes da vida. Perceber não é tudo, sentir é quase.

O Internato estreia hoje, dia 22 de junho, mas este mês e julho já se encontram esgotados. Durante o mês de agosto a antiga Casa dos Magistrados encerra, e volta em força em setembro, para sessões às 21h e 23h, de quinta a sábado.

Texto: Ana Suzel e Luís Lima
Fotografia: Direitos Reservados