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O improvável apelo de Riverdale

“Improvável” é, claro, uma opinião. Talvez não devesse ter duvidado da dupla Greg Berlanti – o responsável, depois do power couple Kevin Williamson e Julie Plec de Vampire Diaries, pela renascença do canal televisivo The CW com uma gama de séries de super-heróis (Arrow, Flash, Supergirl, Legends of Tomorrow) – e Roberto Aguirre-Sacasa, que não só já trabalhou com a Marvel Comics, como também nas séries Glee e Big Love.

A maneira como “venderam” a série foi enquanto uma mistura de The O.C. com Twin Peaks e, digamos de passagem, que o tratamento Twin Peaks resulta muitíssimo bem neste contexto teen-numa-cidade-pequena. Mas talvez o meu maior problema, na antecipação da série, tenha sido o desinteresse em ver uma versão gritty da banda-desenhada do Archie, que sempre me pareceu, em termos de quintessencial “americanidade” salutar e higiénica, um pouco desinteressante. Para não falar da variável “teen” dado qe não tenho tido um grande apetite para séries sobre adolescentes. Pior ainda, Archie é, basicamente, sobre duas frenemies, Betty (a miúda perfeita) e Verónica (a miúda sassy), que adoram e lutam pelos afetos de um homem (o Archie, claro), o que, francamente, me desagrada profundamente. Nunca houve enredo que me aborrecesse mais do que um “bom” e prolongado triângulo amoroso.

Mas houve mudanças. Primeiro na banda desenhada, que passou a ter outra imagem e uma abordagem mais moderna que chamasse novos leitores: há um personagem gay, um personagem assexual, e o Archie está mais giro. A série foi pensada também dentro de este “rebranding” de toda a “brand” do Archie. Quando comecei a ver críticos que respeito a dizer bem da série (com alguma surpresa!), repensei a minha posição. Afinal, se o episódio está disponível na Netflix no dia seguinte, não faria mal nenhum em espreitar.

Touch of Evil

Há algumas coisas que gostava de salientar sobre a série. Como qualquer produção Berlanti, há mais referências a pop culture do que se possa imaginar. A Veronica (Camila Mendes) é uma latina (yay) que está a fugir de um passado como mean girl e depos de um escândalo em que o seu pai se revela uma espécie de Bernard Madoff. Betty (Lili Reinhart) é uma rapariga que sofre de pressões intensas para ser perfeita, algo demasiado destruidor para uma jovem rapariga. Jughead não come tanto como na banda desenhada mas! é especialmente giro (representado pelo ator Cole Sprouse) e é também o narrador. Kevin é o gay-best-friend mas também tem uma vida própria, o que é refrescante – para além de ter as melhores referências e comebacks. Mas a Veronica também. E a Josie (“Justin Gingerlake”!). Ah, sim, Josie and the Pussycats (esqueçam aquele filme horrível de 2001) estão bem presentes. Cheryl Blossom (Madelaine Petsch) é, ela própria, uma mean girl a esconder uma vida dura. Por sua vez, Archie (K.J. Apa) gosta de futebol americano E de compor canções na sua guitarra acústica*. Ah, e mencionei que tem um affair com a professora de música que começou durante o verão quando Miss Grundy lhe deu boleia enquanto estava a usar óculos-com-corações? [inserir emoji com ar maroto] E os pais! Por favor, falemos dos pais. O pai de Archie é o incrível e antigo heartthrob Luke Perry (Beverly Hills, 90201); a mãe de Betty é Mädchen Amick de Twin Peaks (sublinhando ainda mais a conexão) e o pai de Jughead é Skeet Ulrich, nada mais nada menos que outro heartthrob dos anos 90 que apareceu nos filmes Scream e The Craft.

Mas para além do delicioso comentário – de Kevin, claro – em como, durante o verão, “Archie got hot!”, o que interessa realmente em Riverdale é a morte de Jason Blossom. A série gira à volta do que realmente aconteceu a Jason, de rivalidades familiares que duram há gerações, e o mistério de “Onde está Polly?”, a irmã de Betty. No meio disto tudo, há momentos genuinamente bonitos e amizade, especialmente entre Betty e Veronica que se tornam de facto amigas, algo que é o seu destino serem. E, assim, Riverdale conquistou a minha atenção e coração. SE não estão a ver a série, deviam.

* É hilariante quando Veronica lhe diz que num mundo pós-Justin Timberlake, todos podemos ser o que quisermos.

Texto: Ana Cabral Martins
Imagens: Direitos Reservados/ Netflix