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Mourah: “Encaro a música como uma missa ou uma experiência mística”

A viver na Suíça há já um bom par de anos, o músico português Mourah continua incansável. Depois de Kardia, que editou em meados de 2015, Mourah está a preparar o lançamento de um novo disco ainda para este ano. Chamar-se-á Silk Armour e será lançado em outubro.

Entretanto, lançou o videoclip de “No Sour Days” – terceiro e último single de Kardia –, realizado por Mei Fa Tan. O guião do vídeo foi escrito pelos dois “e a ideia de base era extrapolar a letra romântica da faixa para um amor mais abrangente”, explica Mourah em entrevista à Magnética Magazine.

Em 2015, o músico português venceu o prémio do público para Melhor Artista no concurso “Swiss Live Talent”, dez anos depois de ter sido considerado a grande Revelação Musical de Portugal com o seu primeiro álbum From One Human Being to Another.





Antes de mais, pedia-te que nos falasses um pouco sobre o teu álbum mais recente, Kardia. Em que é ele se distingue dos anteriores, em termos de sonoridade e de temas?
Kardia já não é assim tão recente pois foi editado em meados de 2015 e já estou a trabalhar no próximo, Silk Armour, que verá a luz do dia em outubro deste ano. “No Sour Days” é o terceiro e ultimo single tirado do disco, depois de “Icarus 101” e “Streams”. “Kardia” é a palavra grega para coração. Evoca as nossas raízes, o passar do tempo, o pulsar da vida. E um dia essa pulsação deixa de ser… A vida é, de facto, curta e tremendamente frágil. Cada um pode decidir não fazer nada dela ou, pelo contrário, tentar fazer dessa aventura algo de belo, inventar coisas, criar, amar, dar sentido às horas que passam e aceitar que nada é perfeito. Quis propor essa mensagem no disco… que a vida só faz sentido numa tentativa de desenvolvimento espiritual baseado no amor universal e no respeito pela natureza e pelas pessoas, e não tanto pelo materialismo.
A nível musical, quis propor uma espécie de caleidoscópio do que o meu coração musical contém. Temos uma fusão de estilos, trip-hop, soul, rock alternativo, drum’n’bass, pop. Houve uma tentativa de equilíbrio entre sons eletrónicos e instrumentos acústicos.

Fala-nos do teu novo videoclip. Como é que surgiu a ideia e o que é que tentaste transmitir?
O vídeo surgiu na sequência da minha vitória num concurso de algum prestígio na Suíça. Foi com um orçamento de 10.000€ e uma equipa de dez pessoas a trabalhar que eu e Mei Fa Tan, realizadora do videoclip, chegámos a este resultado profissional. Trabalhámos no guião os dois juntos. A ideia de base era extrapolar a letra romântica da faixa para um amor mais abrangente. Temos três personagens femininos confrontados com a noção de amor-próprio e que denunciam os media que veiculam padrões estéticos irreais, o amor interdito entre pessoas do mesmo sexo que, por pressão social, chegam a negar-se a si mesmas, e um amor que considero pouco saudável, como o amor daqueles pais que projetam os sonhos que não realizaram nas próprias crianças, independentemente dos seus desejos. De certa forma, queríamos também homenagear a Mulher, verdadeiro sexo forte, pilar central da humanidade e que ainda sofre tantas discriminações.


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Apesar de teres deixado Portugal com cinco anos, continuas muito ligado ao país, nomeadamente através da música. Apresentaste cá o teu trabalho em mais do que uma ocasião. Foi esta a forma que encontraste de continuar ligado às tuas origens?
A minha ligação com o país expressa-se sobre várias formas e a música, como referes, é uma delas, sem dúvida. Excetuando a minha mãe e uma tia, toda a minha família vive em Portugal; conto também com alguns amigos aí que fiz na altura do meu primeiro disco gravado em Lisboa e onde vivi durante dois anos. Também continuo ligado aos nossos ‘embaixadores’ e vibro intensamente com as vitórias lá fora dos nossos desportistas, artistas, músicos, cientistas… Sinto Portugal na pele, e sempre que regresso, sinto-me logo em casa, como se fosse uma evidência. De repente, parece que tudo encaixa e faz sentido, no sítio certo e momento certo.

Dizes que gostarias de poder ter maior visibilidade em Portugal, mas Portugal não tem assim uma indústria musical tão relevante quanto isso. O que te leva, então, a querer ter mais visibilidade cá?
Sim, porque não tentar primeiro o Reino Unido ou os EUA? Não sei. Talvez seja por razões mais pessoais. Queremos sempre ser reconhecidos pelos nossos. Além disso, o meu primeiro álbum foi gravado e promovido aí; algumas pessoas ainda se lembram de mim. Por outro lado, hoje em dia a música partilha-se mais facilmente de maneira global, a noção de mercado dividido em fronteiras nacionais – excepto para a musica tradicional – faz menos sentido, a meu ver. Um belo exemplo disso são os Buraka Som Sistema, que têm muito sucesso no estrangeiro graças a outros meios de distribuição.

És músico a tempo inteiro na Suíça ou tens outro trabalho?
Viver somente da música, hoje em dia, especialmente em territórios tão pequenos como a Suíça ou Portugal, é uma aposta difícil de concretizar. Ainda mais quando se vê o estado do mercado da música, com as vendas de discos tão moribundas. Perdeu-se a noção e a cultura de comprar música. Em paralelo com a minha carreira enquanto músico, dou aulas em escolas. No entanto, a paixão fala sempre mais alto que a razão e continuo com esperanças de um dia poder ganhar a minha vida através exclusivamente da música.

Quando é que decidiste que aquilo que querias mesmo fazer era ser músico?
Cresci com os meus pais a acordarem-me de manhã ora com jazz, do lado do meu pai, ora com música clássica, do lado da minha mãe. Por volta dos oito anos, o meu irmão mais velho deu-me a conhecer aquele que viria a ser o meu primeiro ‘pai musical’, o Prince. Nessa altura, destacava-me também no coro da escola. Não me lembro bem do momento em que decidi, de forma consciente, que queria ser músico e viver disso. Pensava, aliás, que toda a gente queria ser músico ou era músico. Agora encaro a música como o meu psicólogo pessoal, como uma missa ou experiência mística.
É uma luta permanente ser um sonhador num mundo virado para o materialismo e a rentabilidade. Mas tenho um pesadelo recorrente: acordo numa cidade sem imagens, sem sons, nem cinemas, sem galerias de arte. É por isso que continuo então a manter esse sonho: viver o que sou, ser o que vivo.