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Monstros Fantásticos ma non troppo

Quanto mais penso neste filme (o visionamento foi segunda-feira), menos gosto dele. E senti que gostei bastante no rescaldo de o ter visto.
Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los é um filme com argumento de J.K. Rowling que volta ao mundo mágico de Harry Potter mas…nos anos 20 e em Nova Iorque. O filme segue Newt Scamander (Eddie Redmayne), um magizoólogo que está a escrever um livro intitulado Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los, que, por sua vez, se torna um manual escolar usado por Harry Potter em Hogwarts, 70 anos mais tarde.

Newt foi expulso de Hogwarts (a escola de feiticeiros inglesa) por um acidente envolvendo criaturas mágicas – mas foi defendido por Dumbledore, o melhor personagem de Harry Potter a seguir ao próprio – e é um personagem que um Hagrid menos despreocupado. Entretanto andou a estudar criaturas mágicas por vários cantos do mundo, mas também a salvá-las da perseguição humana ou da extinção. O seu método envolve uma pasta encantada onde cabem todas as suas criaturas: há várias adoráveis e outras assustadoras e outras ainda majestosas. Quando Newt desembarca em Nova Iorque com a sua pasta, começa a aventura deste filme. No site Pottermore, J.K. Rowling tem vindo a publicar uma série de artigos que funcionam como história da magia na América desde o tempo dos nativo-americanos até aos anos 20 e a maneira como a sociedade de feiticeiros se desenvolveu – diferente da europeia. Ora, essa história é abordada no filme mas de uma maneira muito superficial. Esta é uma sociedade muito segredada, onde pessoas sem magia e feiticeiros não podem misturar-se, com uma escola americana de magia própria (Ilvermorny), a existência do ramo de administração MACUSA (uma espécie de Ministério da Magia mas totalmente separado do mundo “no-maj”, como eles chamam aos “muggles” na América) e de um grupo “extremista” chamado “Segundos Salemers”, que advogam uma nova caça à bruxas. Há bastante mais suminho nos artigos de Pottermore sobre estes assuntos e, como eu os li, não sei bem se pessoas que não o tenham feito ficaram com uma ideia clara de como funciona esta sociedade para além dos broad strokes que o filme providencia.

E este é o cerne da questão. Por muito que eu tenha gostado – e, acreditem, gostei – de voltar a entrar num mundo mágico que é populado por Albus Dumbledore e será populado por Harry Potter, o filme peca pela sua superficialidade. Bear with me. A parte boa é que o filme não tem uma fonte literária de onde foi adaptado. O argumento vem diretamente de J.K. Rowling sem antes passar pela casa de uma editora de livros e isso ajuda a que um filme não possa ser comparado, desfavoravelmente, em relação a um texto original. Isto foi bom para mim porque não gosto dos filmes do Harry Potter que mudam coisas do texto: sou purista. Mas os 133 minutos deste filme não chegam para criar a fundação necessária para os quatro filmes que se seguem, quanto mais para nos fazer sentir que as personagens são mais do que esboços. O enredo do filme é bastante simples: Newt perde a mala, algumas criaturas escapam e ele tem de as encontrar e vai ter ajuda nessa busca. Mas há muitas outras coisas a acontecer: a presença de Credence (Ezra Miller) e dos “Segundos Salemers”, bem como da família de magnatas/políticos Shaw. Mas a mais importante coisa-a-acontecer é a referência constante a Gellert Grindelwald.

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Quem leu os livros sabem quem ele é. Começa por ser um amigo/interesse romântico de Dumbledore e acaba um feiticeiro negro muito poderoso com uma agenda sinistra: o “bem maior” que é o domínio do mundo inteiro por feiticeiros, em que muggles/no-majs não têm lugar – ou, pelo menos, não têm um lugar protegido. É um Voldemort avant la lettre e é eventualmente derrotado por Dumbledore. Este filme começa com vários recortes de jornais que falam sobre a crueldade e violência de Grindelwald e a sua fuga às autoridades. Para a MACUSA, há medo real de uma guerra intercontinental despoletada pela eventual presença de Grindelwald no país. E Newt só vem complicar as coisas.

Por muito que se tenha escrito, mas sobretudo dito (por Rowling), que este filme seria um “standalone”, há muita coisa a ser semeada para o futuro (ver: Grindelwald) e o filme sofre por isso. Newt tem um passado que poderá vir ao de cima mas não é já e todas as pessoas com quem cria laços não são bem desenvolvidas.

Jacob Kowalski (Dan Fogler) é um no-maj que só quer fundar a sua própria pastelaria mas que é posto em contacto com os feiticeiros de Nova Iorque apesar de isso ser proibido. Porpentina “Tina” Goldstein (Katherine Waterston) é uma ex-Auror cuja caída em desgraça nunca é totalmente explicada (ou, pelo menos, não satisfatoriamente). Há ainda Queenie Goldstein (Alison Sudol) que parece uma espécie de Marylin Monroe mas que lê pensamentos. Newt afeiçoa-se a estas pessoas e elas a ele mas sem grande “porquê”. Todo o enredo principal é muito baseado na conveniência e em twists que, francamente, não têm grande interesse. Quando a história nem parece ter sido bem fechada. Como se fosse um capítulo em vez de um “todo” completo – e é, há mais 4 filmes para vir deste franchise cinematográfico.

Como pensamento final, a pior parte, para mim, é terem dado um papel – senão de relevo agora, de relevo futuro – a Johnny Depp. Este ator não só entrou numa rotina podre de personagens que não são mais do que criações cosméticas como é um tipo que foi acusado de violência doméstica é é bastante triste ver esta mancha sujar um mundo tão fundamentalmente bom como o de Harry Potter.

Há coisas bonitas neste filme, contudo. As criaturas mágicas são realmente fantásticas mas o CGI às vezes impede que se leve a coisa muito a sério em termos de interacção com humanos. Newt é genuinamente adorável mas o facto de ser representado por Eddie Red-bore (porque o acho boring) é um “contra”. Jacob poderia ser uma verdadeira delícia se os únicos requisitos não fossem sem ter um ar embasbacado constante, embora consiga ter momentos muito bons. No fim de contas, foi bom voltar a este mundo, mas soube-me a pouco. Talvez o mal seja eu querer mais!

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Pensamento Extra:
* Porque raio é que quase ninguém diz os encantamentos ou feitiços? Nos livros e nos filmes de Harry Potter todos os feitiços são acompanhados de uma palavra de encantamento. Aqui? Nem sei o que estão a fazer. Parece que pensaram “eles fazem magia, não pensem muito nisso”. “Not great, Bob“.

Texto: Ana Cabral Martins
Fotografia: Direitos Reservados