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Lisboa recebe a Genée International Ballet Competition 2017

Portugal acolhe, pela primeira vez, a Genée International Ballet Competition, um evento organizado pela Royal Academy of Dance – uma das mais influentes organizações de educação e treino em dança no mundo.

É em Lisboa que serão acolhidos os bailarinos das várias nacionalidades, competindo nas semifinais, a 13 e 14 de setembro, e na final a 16 de setembro, onde se encontra pela primeira vez um bailarino masculino português, João Gomes de 15 anos, que espera inspirar a próxima geração de bailarinos.

Até ao dia de hoje, todos os bailarinos tiveram aulas e ensaios intensivos para esta competição que conta com um painel de jurados composto por importantes figuras do mundo da dança, tais como Dame Monica Mason – anterior diretora artística do Royal Ballet -, o diretor artístico do Scottish Ballet, Christopher Hampson e ainda Lynn Wallis OBE, ex-diretora artística da RAD.

Como embaixadores do evento estão Valentino Zucchetti, medalha de ouro da Genée (Hong Kong 2006) e primeiro solista do Royal Ballet e ainda a portuguesa Brígida Pereira Neves, bailarina no Tiroler Landestheater e alumni Genée (Birmingham 2003).

O coreógrafo convidado para a competição é César Augusto Moniz, que apresentará dois solos – um para raparigas e um para rapazes – com quem falamos sobre a dança em Portugal e a importância deste evento para o nosso país e para os nossos bailarinos.

A Genée International Ballet Competition 2017 aterrou em Lisboa este ano. Quão importante é para a nossa capital ter esta competição em território nacional? Quão importante é para os bailarinos portugueses?

É extremamente importante porque é o primeiro evento de dança internacional de grande prestígio que vai ser feito em Portugal. Para a capital, para a cultura portuguesa e para a área da dança é algo extraordinário e único, porque nós nunca tivemos nada assim, nem com este prestígio nem com este nível. O RAD está em 80 países, portanto acho que é de vital importância ter um evento desta natureza a acontecer em Lisboa.

Relativamente aos bailarinos, é igualmente importante porque é a primeira vez que eles vão ter um concurso mundial aqui tão perto, com jovens de tantos países diferentes. Vai ser estimulante e enriquecedor para as carreiras deles, no fundo porque vão estar a ver outros jovens a competir, muito talentosos, artística e tecnicamente bastante avançados e evoluídos. Vão ser candidatos com muita qualidade, com uma técnica elevada porque a escola é fantástica. A Royal Academy é uma referência no mundo inteiro, onde grandes bailarinos foram formados com o seu método e no fundo grandes estrelas têm nascido de lá.

Para os jovens portugueses bailarinos é sem dúvida uma oportunidade única de ver os grandes talentos a desfilar desta maneira num espetáculo ou nas provas – neste caso no Teatro Tivoli e no Teatro Camões. Certamente que os vai estimular e dar alento para as suas carreiras e para continuarem a lutar por aquilo que é uma carreira na dança, visto que em Portugal é extremamente difícil neste momento porque não há muitas companhias.


César Augusto Moniz performing in Natcho Duato Company


Sabemos que entre os finalistas se encontra pela primeira vez um bailarino português. Fale-nos um pouco do seu trabalho e do seu potencial enquanto bailarino.

É um jovem bailarino que está a ser muito bem treinado pelos professores da academia e certamente vai brilhar tanto como os outros. Penso que ele foi bem treinado e eu também lhe vou dar todo o apoio que eu puder de uma forma imparcial, como é obvio, mas com certeza que lhe vou dar o máximo apoio para ele poder brilhar no meio de tantos talentos internacionais.

Como é coreografar e ser responsável por uma parte desta competição?

É bom, eu já tinha decidido deixar de coreografar há alguns anos, mas continuei a fazer projetos internacionais. Criei a minha própria companhia, que surgiu quando o Ballet Gulbenkian se extinguiu, de onde recolhi alguns bailarinos e tivemos 6 anos de trabalho na Companhia e a colaborar com a Unesco em vários projetos internacionais.

É uma grande honra, porque como disse anteriormente este é um evento único. Além de ser único é uma Academia de grande prestígio, que já ganhou um prémio Unesco – o que já diz mutio sobre a alta qualidade que eles realmente desenvolvem –  por isso para mim é uma honra ter sido convidado no meio de uma lista enorme de coreógrafos. É um prazer poder trabalhar com a Academia e com tantos jovens de tantos países, de diferentes culturas.  Trabalhei muito no estrangeiro como mestre de bailado e como coreógrafo, já estudei com centenas e centenas de estudantes e profissionais no mundo inteiro e, portanto, para mim não é algo novo, mas é algo que eu acarinho e que gosto.

Neste caso aceitei o desfio porque achei que valia a pena, que Portugal merecia ter alguém com conhecimento e com uma carreira que pudesse fazer algo pelo país, que o representasse.
Relativamente a trabalhar com os bailarinos, eles são talentosos, tecnicamente são bastante fortes, pelo que eu vi na Opera de Sidney o ano passado e espero que este ano também o sejam.  Para mim é sempre um prazer trabalhar com gente talentosa e que tecnicamente e artisticamente sejam realmente notáveis.

O que tem a dizer aos bailarinos portugueses que querem seguir a dança como profissão? Que conselho lhes dá?

O conselho que lhes dou é irem para o Conservatório Nacional fazer a primeira parte da formação porque o Conservatório Nacional forma grandes bailarinos. Nós temos grandes bailarinos a dançar no estrangeiro, neste caso por exemplo posso-lhe dar um nome que é o Marcelino Sambé que está neste momento no Royal Ballet e que foi promovido a primeiro solista e é excelente. Temos muitos mais noutros países e isso mostra que o Conservatório está realmente a formar grandes estrelas. Portanto, tentem entrar para o Conservatório, façam a vossa formação e depois vão para outros países continuar a trabalhar. Isto é o que eu aconselho: saiam daqui, façam como eu fiz. Eu fui para Cannes, na altura para o Centre de Danse Rosella Hightower. Estudei também na Escola do Ballet Gulbenkian que é uma escolar que já não existe mas onde nós tínhamos alguns dos melhores professores do mundo.

No fundo, o que eu diria aos bailarinos portugueses é: continuem a lutar, tenham muita coragem, trabalhem arduamente e vão para outro país, porque neste momento aqui não há apoios nem visibilidade à dança suficiente para que todos possam manter uma carreira aqui e formar-se depois de já terem a primeira base.

Entrevista: Ana Suzel
Fotografia: Direitos Reservados