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Ler “The Cursed Child” e voltar a Harry Potter

** alguns spoilers **

Como já mencionámos anteriormente, no passado dia 31 de julho, estreou no West End, em Londres, UK a peça Harry Potter and the Cursed Child (a ideia é serem duas sessões separadas, uma primeira parte para ver à tarde e uma segunda para ver à noite, ou em dois dias seguidos), uma história original de J.K. Rowling, Jack Thorne e John Tiffany, sendo que a peça propriamente dita foi escrita por Jack Thorne. Ao mesmo tempo, foi lançado o livro-da-peça Harry Potter and the Cursed Child Parts I & II. Isto significa, bastante claramente, que as rédeas do universo do Harry Potter já não estão apenas nas mãos de J.K. Rowling, tornando este imaginário muito mais parecido com o que acontece/acontecia com o Universo Expandido da Guerra das Estrelas, em que autores diferentes trazem a sua própria contribuição para o cânone deste mundo de feiticeiros. Isso pode ser bom: liberta Rowling para enveredar por outras aventuras, (ela parece muito interessada em contar a história americana da Magia e seguir o Newt Scamander pela Nova Iorque dos anos 20) e permite que outros autores tragam abordagens novas para o mesmo universo. Isto tendo em conta que esta peça é totalmente aprovada pela autora da saga escrita, tanto que Jack Thorne e John Tiffany trabalharam com ela (dizendo que história gostavam de contar, recebendo feedback e input dela) na conceção desta narrativa. É mesmo apresentada e publicitada como novo (último?) volume da série.

A peça passa-se 19 anos depois dos acontecimentos do último livro. Harry é agora um Auror (membro de uma brigada de elite de feiticeiros altamente qualificados cujo trabalho é controlar atividades relacionadas com as Artes Negras) a trabalhar para o Ministério de Magia e pai de três filhos, incluindo o pequeno Albus Severus (cujo nome vem das adoradas personagens Dumbledore e Snape). Esta relação é absolutamente crucial para a peça que, se tem um tema prevalecente, parecer ser a dificuldade de comunicação entre pais e filhos e como viver na sombra de um determinado legado pode ser difícil para todos os envolvidos.

O epílogo do último livro da saga de Harry Potter acabou com Harry a confidenciar ao seu filho Albus, com 11 anos, que não só não teria mal nenhum ser escolhido para a fação Slytherin de Hogwarts porque se deveria orgulhar por ser da casa de Severus Snape (o seu homónimo), como poderia pedir para ser escolhido para Gryffindor, se assim o desejasse. Apesar disto, Albus é escolhido para Slytherin, não tem grande talento para voar, e começa a ser maltratado pelos colegas por ser “totalmente diferente” do seu pai. Para piorar as coisas, Albus torna-se amigo do filho de Draco Malfoy (rival de Harry em Hogwarts durante toda a saga), Scorpious – odiado na escola devido a um rumor estranho sobre este ser o filho secreto de Voldemort. A história começa, então, a girar à volta de Harry não se conseguir dar bem com o seu filho, nem Albus com o seu pai, e estarem fundamentalmente desligados um do outro, sem maneira de encontrarem pontos em comum. Todas estas coisas acontecem muito rápido e a história, em si, é despoletada por uma discussão em que Albus diz que gostaria de não ser filho de Harry e este responde dizendo que também gostaria que ele não fosse seu filho.

E aqui chegamos a um grande problema com este livro/peça. É-me muito difícil acreditar – mesmo tendo este desenvolvimento a bênção de Rowling – que Harry Potter, uma pessoa empática por natureza, pronta a sacrificar-se pelo próximo, que se mostra tão solidária em tantas ocasiões, incluindo no tal epílogo, se porte assim.

Há muito mais para falar sobre a história, mas não quero contar tudo que se passa, até porque não saber permite que haja um impacto emocional inegável que tanto parte o coração de quem leu todo o Harry Potter (e quiçá cresceu com o Harry Potter) como volta a sarar o coração partido.

A peça gira à volta de um mecanismo em particular. A narrativa está repleta de viagens pelo tempo, com Albus a tentar corrigir um “erro” do pai ou, pelo menos, uma tragédia que sempre foi necessária à evolução da narrativa deste mundo. O passado é re-escrito, re-re-escrito, conhece-se a linha temporal mais negra possível, tudo volta ao aparente normal e chegamos a visitar o local (e o tempo) onde tudo começou: Godric’s Hollow, onde Voldemort matou os pais de Harry e se ligou para sempre ao destino do Rapaz Que Viveu.
(Pequena nota: é curioso mencionar que, nesta peça, o verdadeiro vilão é apenas revelado na segunda metade da Segunda Parte.)

Importante é a ligação desta peça com o livro que, de uma maneira bastante concreta, mudou a maneira como os livros e o mundo de Harry Potter funcionava. Se antes os livros eram pequenas aventuras durante o ano escolar, sem grande efeito de um ano para o outro, a partir de Harry Potter e o Cálice de Fogo as coisas ficam bastante mais maduras, com Rowling a deixar que Harry cresça com os leitores (e vice-versa) e a permitir temas mais duros e acontecimentos mais negros: como a morte de Cedric Diggory. Em The Cursed Child, há uma ligação com este livro que lembra muito o filme Regresso ao Futuro II – o que, só por aí, deve dar uma indicação bastante clara do que acontece sem ser agressivamente spoiler.

Infelizmente, ao contrário dos livros (especialmente os mais recentes, na minha opinião), a qualidade de escrita peca muito em relação ao que Rowling nos habituou – “My geekness is a-quivering”? Temo que não. Há clichés abundantes (“for my sins”, “light in the darkness”), frases demasiado pomposas que servem apenas para indicar o quão esperto o dramaturgo se considera, e menções (acidentais?) estranhas a um filme mau de Dwayne “The Rock” Johnson (“Scorpion King”) e a uma Senadora dos Estados Unidos (“Elizabeth Warren”).

No cômputo geral, foi demasiado bom reencontrar as personagens queridas que li durante tantos anos. Contudo, houve sempre um sentimento de estranheza que me fez pensar no quanto as conseguia, de facto, reconhecer. Esta publicação sofre por ser a versão escrita para o ensaio da peça e por faltar toda a encenação, bem como a presença dos atores para dar vida (e personalidade distinta) a cada personagem. Fiquei também com a sensação de que o mecanismo das viagens no tempo (que obedecem a regras diferentes do que no livro Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban) permitia, talvez em demasia, um retorno a coisas já resolvidas que não sei, até que ponto, valia a pena revisitar. Há, contudo, duas aparições que me comoveram muitíssimo e várias cenas que valeram muito a pena ler.

E, sim, (ainda) quero muito ver a peça. London, anyone?

Texto: Ana Cabral Martins
Fotografia: Direitos Reservados