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“La La Land” vai partir e sarar os corações mais empedernidos

La La Land is a very good movie, but it becomes a great one during its ending sequence” – Jennifer Vineyard, Vulture

Tenho tantas coisas para dizer sobre este filme que não sei se conseguirei falar de todas neste texto.
Antes de mais, é importante mencionar que La La Land: Melodia de Amor já passou por várias fases de apreciação crítica desde a sua estreia nos Estados Unidos. Primeiro, uma onda de boas críticas que não foram capazes de resistir aos filme, de A. O. Scott do The New York Times a Matt Singer do Screencrush. Depois, uma série de críticos, como a Amy Nicholson da MTV News, começaram a expor a costuras do filme. Palavras como “superficial” e “ligeiro” começaram a ser atiradas na direção do filme.

Contudo – porque há sempre um “contudo” – Matt Singer já começou a iniciar o backlash (ou seja, uma forte reação negativa por parte de um grande número de pessoas) ao blacklash contra La La Land. Mesmo que – e não invalido, obviamente, leituras deste tipo – sejamos incapazes de desviar o olhar perante questões como os clichés na maneira como o filme trata o jazz, ou o facto de Sebastian (a personagem de Ryan Gosling) ser, de certa forma, enquadrado numa “narrativa branca” enquanto “salvador do jazz”, ou ainda uma gigante “mansplaining session” em que um homem adora explicar porque uma mulher deveria adorar jazz,…há qualquer coisa neste filme que transcende estas questões e, até, vê-as de outra maneira que não a representada por estes hot takes e thinkpieces.

E mesmo enquanto musical, este não é um filme que apenas pegue em momentos ou cenas clássicas do género. Este filme é mais do que pastiche, mais do que homenagem e mais do que uma adaptação ao século XXI de uma forma de fazer cinema que está adormecida, senão moribunda. Este é um filme em que o realizador, Damien Chazelle (Whiplash) consegue pegar exatamente no que era que fazia musicais funcionar tão bem e torná-lo absolutamente seu e, mais do isso, absolutamente maravilhoso: todas as componentes do filme, incluindo as mais ambíguas, se unem para fazer um filme que não só é mais profundo do que parece, mas é também mais adulto emocionante do que o seu género (musical) posso fazer parecer à primeira vista.

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Para quem viu a abertura dos prémios Golden Globes, já viu um vislumbre do que será o número de abertura do filme mas penso que nada se pode comparar ao que vamos na tela: uma explosão de cores, movimento e música que indica desde logo ao que vamos – mas ainda não percebemos bem porque a música é tão alegre. E como este, há outros momentos mágicos no filme, mágicos no sentido mesmo de alquimia, em que algo se passa entre os vários elementos em que eles resultam em algo inqualificável: pura e simplesmente, resulta e transportam-nos.

A história de La La Land é muitíssimo simples. Um rapaz que gosta da jazz, Sebastian (Ryan Gosling) e quer abrir o seu clube apaixona-se por uma rapariga que quer ser atriz, Mia (Emma Stone), e ambos perseguem as suas ambições juntos. Ao invés de um qualquer constrangimento fabricado, a sua relação é posta à prova na medida em que os laços que os unem não serão tão românticos ou tão fortes quanto os laços que os prendem aos seus sonhos. Emma Stone tem, neste filme, uma tour de force, transformando um papel que podia ser banal em algo absolutamente sublime e sincero. Não há movimento que faça ou emoção que sinta que seja um piscar de olhos ou meta ou auto-consciente. Ryan Gosling, por seu lado, é uma escolha interessante. Se fosse Miles Teller (de Whiplash) como inicialmente previsto, este personagem seria seriamente mais patético e agressivo, sendo o seu tradicionalismo (perante o jazz) assim visto como uma teimosia e menos como algo romântico. Ryan Gosling talvez seja demasiado charmoso, mas também o é Emma Stone e torna-se fácil perceber porque se apaixonariam os dois.

É também de nota a forma como Chazelle filma a hora mágica, a mistura de laranja e roxo, tão querida por tantos realizadores que vieram antes e deixa que Los Angeles brilhe de uma maneira como raras vezes vi no cinema. Se nem tudo é brilhante, talvez aponte a natureza às vezes erráticas e sem razão de ser de movimentos de câmara que interrompem a fluidez que Chazelle consegue manter em quase todo o filme.

Finalmente, este é um filme que lida com aspetos fundamentais da vida e, no final, voltamos à música de abertura mas de um ponto de vista diferente. Este filme que pode parecer superficial é francamente mais do que isso. Parece ser apenas um momento de entretenimento, mas é afinal um meditação especialmente bonita e honesta no que toca ao amor, à perda e às escolhas que temos de fazer na vida, relativamente ao que queremos fazer e com quem queremos estar. Mesmo que haja elementos ambíguos, a mensagem de Chazelle é tudo menos:

“(…) artists should follow their passion wherever it leads. Not because it will save an artistic medium, or even because selling out is bad, but simply because if you don’t do what you truly love you will never be happy, even if doing what you love might not work out in the end.”

E no fim, somos presenteados com um final que é capaz de ser o clímax mais audaz possível. Em que Chazelle embrulha “intense and delicate emotions in sheer, intoxicating cinematic bliss“.

Texto: Ana Cabral Martins
Imagens: Direitos Reservados