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Jovens de projetos sociais expõem no POSTER

Uma sala na nova biblioteca de Marvila, em Lisboa, que ainda não abriu ao público, serve de atelier improvisado para um grupo de jovens de associações e projetos de cariz social revelarem os seus talentos na área do desenho e da pintura. O Mini POSTER é uma iniciativa do Departamento, estrutura de produção e curadoria de projetos ligados à área da criação artística, e antecedeu o POSTER, a mostra de arte pública que invade as ruas de Marvila entre hoje, dia 16, e domingo 19 de junho.

Os cartazes desenhados por estes 15 jovens, com idades entre os 11 e os 26 anos, serão exibidos na mostra POSTER, juntamente com os muitos artistas convidados e os cinco vencedores da open call. Estes jovens vêm da Fundação Benfica, do projeto Intervir, da Aguinenso (Associação Guineense de Solidariedade Social) e do Conselho Português para os Refugiados (CPR) e, segundo a nota de imprensa, foram convocados para este workshop conduzido pelo artista David Rosado (cujo cartaz também será exposto nas ruas de Marvila), “por terem mostrado ‘especial’ apetência para as artes”.

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Osvaldo Vaz e Carlos Dyassi, ambos de 26 anos, estão a desenhar uma perspetiva do Bairro do Condado – antiga Zona J, em Chelas, de onde são oriundos – sob o olhar atento de Fábio Gonçalves (25 anos), que não participa porque, segundo diz, não tem jeito para o desenho. Os três integram a Aguinenso, uma associação de apoio social às comunidades imigrantes, em particular à comunidade guineense (Guiné-Bissau).

Fundada em 1987 por Fernando Ká, antigo deputado do Partido Socialista que faleceu em dezembro do ano passado, a associação, articulando-se com várias instituições, dá apoio à integração destes imigrantes, seja em termos de documentos – ajudando no processo de regularização – seja ao nível da habitação. Com sede no Bairro do Condado, a Aguinenso tem-se focado, sobretudo, na comunidade ali residente, mas o seu raio de ação é bem mais abrangente do que isso, explica-nos Ana Correia, diretora de serviços da associação. “Todo e qualquer guineense que tenha necessidade de apoio, nós apoiamos, esteja no Algarve ou no Porto”, garante.

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Trabalhando, até há bem pouco tempo, exclusivamente com famílias, a Aguinenso está a desenvolver, desde abril deste ano, um projeto direcionado para as crianças e jovens dos seis aos 30 anos, o “Dá-te ao Condado”, que visa a sua inclusão através das artes, dança e música. É precisamente por isso que Osvaldo, Carlos e Fábio estão aqui, a participar no workshop organizado pelo Departamento. “Este novo projeto é, digamos, a menina dos nossos olhos”, precisamente porque permite à associação, pela primeira vez, chegar aos mais novos, explica Ana Correia.

Vencedor do Programa Escolhas, que tem como missão promover a inclusão social de crianças e jovens de contextos socioeconómicos vulneráveis, o projeto terá a duração de três anos. Ana espera que, nesse tempo, a associação consiga ajudar a mudar a forma como a cidade vê o Bairro do Condado, que continua a ter “um estereótipo um pouco negativo”. O filme Zona J (1998) veio, na sua opinião, “dar uma imagem menos positiva da zona”.

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“Nada do que lá está é verdade. O realizador vinha já com uma ideia pré-definida do bairro. Filmou aqui como podia ter filmado noutro sítio qualquer”, diz Osvaldo Vaz, tirando, por segundos, os olhos do papel. E Fábio acrescenta: “Eu moro aqui desde sempre e nunca aconteceu nada daquilo que o filme retrata”. Enquanto os rapazes falam, Ana Correia vai acenando com a cabeça, em sinal de concordância. “Queremos que as pessoas percebam que há aqui muitos jovens com muito talento, e que a própria cidade se abra a este bairro”, diz por fim.

Esse é também um dos principais objetivos do POSTER, explica o designer gráfico Bruno Pereira, mentor do projeto. “Há cinco, seis anos que ando um bocadinho à volta de Xabregas [entre as freguesias de Marvila e do Beato], por achar que é uma zona com um potencial incrível, apesar de ter estado despojada e abandonada durante muito tempo, com edifícios muito degradados, quase em falência. Esse potencial está agora a ser aproveitado pelos criativos, artistas e ateliês de design que se têm instalado aqui nos últimos anos, sobretudo a partir de 2016”, diz o designer, que acredita que a este ritmo a zona vai tornar-se, dentro de pouco tempo, “um dos polos criativos da cidade”.


Texto: Helena Bento
Fotografia e Vídeo: Alexandre Murtinheira