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José Pando Lucas: “Há uma enorme pressão para sermos pró-ativos e incansáveis”

José Pando Lucas foi para Berlim, em 2015, à procura de trabalho, mas a grande oportunidade acabou por surgir vinda do país que ele acabara de deixar, Portugal. O festival de arte urbana Walk & Talk Azores, que se realizou pela primeira vez em 2011 e, no ano passado, dedicou a sua sexta edição à arquitetura e ao design, estava à procura de alguém para acompanhar e documentar o evento. “A Diana e o Jesse [James], fundadores do W&T, acharam que a minha linguagem e estética podiam trazer algo de novo à comunicação e documentação do festival”, conta José Pando Lucas, em entrevista à Magnética Magazine.

Foi aí que tudo mudou, diz também. “Foi a minha primeira experiência de trabalho mais a sério não sabia bem o que esperar nem o que ia fazer, mas acabou por ser tudo muito positivo”. Foi também aí que conheceu Vhils (Alexandre Farto), que era um dos convidados do festival e viria a propor-lhe, mais tarde, que se mudasse para Lisboa (José Pando Lucas vivia então no Porto) e fosse trabalhar para a Solid Dogma, empresa audiovisual do artista de rua.

Pando Lucas começou também a fazer vídeos para a Underdogs Gallery, galeria de arte de Vhils, em Xabregas, Lisboa. “A Underdogs já existe há uns anos e tem vindo a fazer um trabalho fenomenal pelos artistas emergentes e pela arte ‘mais underground’ em Portugal e nós decidimos que na estava na altura de criar uma espécie de ‘artist profiles’ para cada artista que expõe e trabalhe com a agência”, explica.

Apesar de ter estudado Pintura na Faculdade de Belas Artes do Porto, José Pando Lucas interessa-se desde muito novo por vídeo e fotografia. “Eu já fazia experiências audiovisuais desde que entrei para a faculdade, em 2007, embora essas experiências, na altura, fossem sobretudo objetos crus, sem um sentido muito definido”. Mas foi durante o curso que as suas opções se foram estreitando à medida dos seus gostos e interesses. Em Praga, cidade onde esteve em Erasmus, José Pando Lucas descobriu um “Kino Kabaret, em que durante 76 horas pessoas de todo o mundo se juntavam para fazer curtas-metragens sem qualquer fim lucrativo”. “Toda a gente trabalhava com toda a gente e a única cena era mesmo celebrar o cinema”, conta. Mais tarde, em 2014, realizou a sua primeira-curta metragem “mais a sério, com argumento e sequência narrativa”, intitulada “Joaquim, O Abóbora”, que acabou por ser selecionada para o Fantasporto – Festival Internacional de Cinema do Porto. Foi aí que “descobriu que era este tipo de projetos artísticos que queria fazer”. Filmar “Joaquim, O Abóbora”, com um grupo de “meia dúzia de amigos, se tanto”, permitiu-lhe perceber ainda outras coisas. “Olhando para trás, vejo algumas coisas que mudaria… mas foi uma daquelas experiências que te abrem os olhos para o que te faz feliz. Depois, foi Internet, tutoriais, mais Internet e mais tutoriais”. Hoje em dia, diz Pando Lucas, “é fácil aprender a fazer as coisas sozinho, mas é preciso querer e querer muito”.

José Pando Lucas esteve no ano passado em Hong Kong por causa da exposição “Detritos”, de Vhils, que ficou encarregue de documentar em vídeo. “Eu e o Alexandre [Farto] concordámos desde o início que o vídeo tinha de ser uma obra de arte por si só, tinha de ter uma mensagem, e que não deveria ser somente um objeto documental da exposição. A partir daí, fomos construindo”. O resultado “é uma história sobre os dias de hoje, sobre o tempo e a passagem dele, sobre saber viver, sobre poesia e humanidade”. Hoje em dia, diz Pando Lucas, “há uma enorme pressão na sociedade para sermos pró-ativos, empreendedores e incansáveis, e é muito fácil esquecermo-nos das verdadeiras razões que fazem levantar da cama dia após dia”. “O trabalho de Vhils está muito ligado a esta ideia, por isso estávamos em sintonia”.

Pando Lucas descreve a experiência de filmar em Hong Kong como “surreal, em todos os aspetos”. “Para ser sincero, há um ano não imaginava sequer que teria a oportunidade de ir lá filmar e de repente já lá estava e tinha um ‘deadline’ de 15 dias para entregar o vídeo”. O realizador diz que foi um dos períodos da sua vida, dos últimos anos, em que se sentiu mais “criativamente fértil” e acrescenta: “É para este tipo de projetos que eu vivo”.

Embora reconhecendo que “não é nada bom com planos” e que neste momento prefere “pensar num projeto de cada vez”, até porque está a full-time na Solid Dogma e não é ele quem decide que projetos vai fazer, José Pando Lucas diz que no futuro o seu objetivo é fazer cinema – “cinema pelo cinema, pela arte e pela cultura e nada mais”. “Acho que há muitas histórias que merecem ser contadas e que o cinema português tem muito para dar”, conclui.

Texto: Helena Bento
Fotografia: Direitos Reservados © José Pando Lucas

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