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John Filipe: “Fascinam-me as temáticas que o vídeo ainda consegue explorar”

John Filipe é um dos portugueses a trabalhar na W+K em Amesterdão. Fascinado pela área dos videojogos, John fala-nos de algumas experiências profissionais, nomeadamente a primeira campanha para a Nike Grécia, onde teve a oportunidade de ser criativo, realizador, fotógrafo e designer. Leiam a entrevista e visitem a sua página pessoal:


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Fala-nos do teu percurso. A área do vídeo sempre te fascinou?

Fascínio acontece quando não conhecemos inteiramente ou não dominamos algo. Portanto não penso que seja mais ou menos fascínio pela área, porque sinceramente atualmente não me fascina. O que me fascina são as temáticas que o vídeo ainda consegue explorar e comunicar. Temáticas essas que poderiam ser exploradas por outras artes, no entanto no final penso que seja uma questão pessoal de “como é que o teu cérebro pensa ou sente” e o meu é audiovisual.

Fascina-me desde sempre (e atualmente ainda mais) a área de videojogos, penso que seja a forma de arte mais completa de todas, em que possui todas as artes mais o fator interativo. Um videojogo não só te conta uma história, como te faz aprender e experienciar algo que se manifesta fisicamente no teu cérebro, fazendo com que se desenvolva.

Pensa nos simuladores de pilotos, é o exemplo mais comum e óbvio de como ao jogares crias sinapses em que o teu cérebro grava e podes usar na vida real. Agora a parte que me interessa não é só a parte de aprendizagem mecânica, mas também a emocional. Um bom videojogo, consoante a sua temática ou seu plot, obriga-te a tu seres o responsável pelo desenrolar da história e isso tem um efeito cerebral muito mais potente a nível emocional.

A capacidade e a qualidade que temos hoje em dia nos videojogos (que não para de aumentar), faz com que os “filmes me pareçam mais falsos que videojogos”, isto porque a nível emocional, ao vestires a pele durante 30 horas de uma personagem, crias um laço muito maior do que com uma personagem que apenas olhaste para ela durante 2 horas. É uma área em que desejo envolver-me brevemente.


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Como defines a tua linguagem/estética?

A estética resultante depende do projeto. Acredito que a melhor direção de arte é aquela que fala fluentemente a “linguagem” do tema ou do objeto em si.

Estás a trabalhar em Amesterdão, como surgiu essa oportunidade? Achas que, na área que trabalhas, existem mais oportunidades fora de Portugal?

A W+K em Amsterdão tem um método de recrutar através de um “programa” chamado “the Kennedys” que dura 7 meses. Para esse período é formado um grupo multidisciplinar para trabalhar dentro da agência em projetos que não se limitam à publicidade. No final do programa tens hipótese de ter um contrato.

Em relação a existir mais trabalho nesta área fora de Portugal: sim, não é uma questão de opinião, é estatístico. Estão a ser formados mais profissionais que dependem em tirar salários na área das “artes comerciais” ou publicidade, do que a quantidade de trabalho existente.

Um outro fator que penso que seja o mais importante, é se o pouco trabalho que existe vale a pena? Se vale a pena o esforço, sacrifício, stress e instabilidade por um mercado que não valoriza talento, que não arrisca, que está sempre atrás de alguma tendência, que não te faz crescer e que te paga em 90 dias (quando paga). Claro que não.

E assim não exportamos apenas o “excesso”, mas também exportamos (e não importamos) o talento que era suposto evoluir a indústria para a próxima geração. Mercado saturado e pouco apelativo ao talento é o pior sintoma.


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Tens trabalhado ultimamente com a Nike. Fala-nos dessa experiência e como é trabalhar com grandes marcas.

Muito difícil comparar a Nike com outra “grande marca”. Enquanto uma “marca grande” faz uma campanha, a Nike faz 10. O ano ainda agora começou e estamos a produzir 4 campanhas ao mesmo tempo para a Nike (isto apenas no office de Amsterdão, a W+K tem outros 7 offices espalhados pelo mundo, onde a Nike é exclusiva). É frenético, e muito exigente para os criativos.

Estás a lidar com uma marca que exige sempre “freshness”. Querem ser eles a definir a cultura (e serem seguidos ou copiados) e nunca vice-versa. Isso é o maior desafio, mas também o maior prazer.


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Existe algum trabalho que tenhas feito que te seja mais especial ou que tenhas atingido um dos teus ‘objetivos pessoais’?

No ano passado tive a oportunidade de fazer a primeira campanha de sempre para a Nike Grécia, a ser lançada durante os Jogos Olímpicos de 2016. E era um briefing “Just do it“, estas campanhas focam-se em manter um diálogo inspirador com o público, ou resolver algum problema cultural específico.

A Grécia sofreu uma crise severa política e económica, abalando e deprimindo uma nação inteira e os seus atletas. Fizemos uma viagem de “imersão” à Grécia, onde conhecemos imensas pessoas, desde os atletas, treinadores, influenciadores culturais, artistas, skaters, jornalistas, padres, etc.

Foi um processo muito humano e emocional, onde prestamos muita atenção ao que estas pessoas nos transmitiram e sentimos o peso e responsabilidade de falar por uma nação inteira. No final o nosso plano foi abrir a campanha lançando o anúncio durante os intervalos da transmissão do dia de inauguração em que foi acesa a tocha olímpica.


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O nosso filme mostra os atletas que iam competir em 2016, mas nos estádios olímpicos de Atenas de 2004 que estão abandonados e em ruínas, com uma mensagem: “we will not be defined by circumstance, we will not be undone by what is broken, we are more than our surroundings, we are the makers of our fate.” Deixou muitas pessoas nervosas antes de ser lançado, mas imediatamente foi um dos maiores sucessos da Nike desse ano, tornando-se viral na nação Grega.

Poder ter sido criativo, realizador, fotógrafo e designer da campanha foi altamente graficamente por me ter sido confiada tal responsabilidade, mas aquilo que foi mais gratificante que apaga tudo o resto, foi a reação das pessoas. Estamos a falar de um povo que está deprimido e tem aversão a tudo o que são marcas ou empresas desta magnitude, toda a baixa de Atenas esta pintada com mensagens contra capitalismo, a própria loja da Nike está vandalizada. No final ter uma reação viral e tão positiva desse povo, é algo maior e que ultrapassa a própria Nike, W+K, ou publicidade. É o momento que tens aprovação positiva do teu “verdadeiro cliente” em que és o porta voz durante 1 minuto.

Esta campanha não resultou apenas numa mensagem de inspiração para a nação grega e para os seus atletas, mas teve um papel de awareness em que várias iniciativas surgiram depois para reabilitar e tirar proveito dos estádios.


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No que estás a trabalhar neste momento? Tens-te focado mais numa área específica? Existe algum projeto ou objetivo que tenhas em mente para o futuro?

Na W+K de momento estou a fazer uma nova campanha para a Nike e outra campanha para um cliente que não posso revelar. Fora do “job” estou a estudar bioquímica, genética e física quântica para sustentar um projeto pessoal chamado por agora de “INFINITY”. Não posso revelar muito, mas existem boas possibilidades de sair um “trailer sério” até ao final deste ano.


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Se pudesses trabalhar em qualquer lugar do mundo, com qualquer nome ou marca, onde e com quem seria?

Vários! NASA, Space X, Kojima productions ou Autodesk Labs.


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Entrevista: Ana Suzel
Fotografia: Direitos Reservados