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In Quiet Waters, da luz à obscuridade e vice-versa

Há discos, como este, que levam tempo a escrever. É que, a cada audição, num dado momento, deixou-se a análise de parte para obedecer à poderosa invocação da música e apenas ouvir… Bom, há que regressar às palavras e eis que surge a pergunta: — Quando está fora de questão avaliar a capacidade técnica dos músicos, então, o que nos permite afirmar que a qualidade de um disco rebenta a escala?!

IN QUIET WATERS amplia a linguagem musical a um universo de ritos idiossincráticos; A improvisação livre e uma narrativa que lhe é transversal canalizam experiências de vida e trazem revelações profundas ao espírito; A imagética é enquadrada pela utilização de múltiplos instrumentos e das vozes dos membros do trio, assobios, chocalhos, chamamentos que apelam a uma função primordial da música: espantar os demónios. — O tema In Quiet Waters the Devils Are Living será, neste sentido, uma das chaves desta obra completa em detalhe.


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Yells At Eels reúne o Clã Gonzalez pela primeira vez a sós, uma novidade em relação a álbuns anteriores com colaborações de Alvin Fielder, Louis Moholo-Moholo, Rodrigo Amado, Aakash Mittal, Devon Wells, entre muitos outros não menos importantes. O grupo formou-se em 1999 por iniciativa dos irmãos Aaron e Stefan, num momento em que o pai, o legendário Dennis Gonzalez, depois de um período de grande reconhecimento internacional se havia distanciado da cena musical para dar prioridade às artes plásticas, à escrita e ao ensino. Do primeiro disco, Home (2000), ao presente mantém-se esta intenção e esta linha ritualizada — uma forte influência do denso universo criativo de um artista polifacetado como é Dennis Gonzalez.

O álbum desdobra-se em dois movimentos, num jogo de dualidades, os extremos polarizados de uma mesma energia ou, talvez, o reflexo destas “Quiet Waters”.
Lorca, o tema introdutório, é a ponta deste fio narrativo. Uma imagem ambigua e tranquilamente sombria é dramatizada em plano de fundo pelo contrabaixo de Aaron Gonzalez que lhe dá as linhas e os toques de tensão, deixando antever o que se esconde no fundo. O vibrafone de Stefan Gonzalez toca os pontos de brilho deste lago, os círculos de água, gotas levantadas pelo voo rasante do sopro na paisagem, onde o trompete de Dennis Gonzalez desenha microscópicos movimentos, pautando notas de fragilidade na dimensão do espaço sonoro. As notas alargam-se para anunciar um fim de tarde, talvez, o resvalar na obscuridade.


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Este jogo de luz e sombra acompanha os movimentos descendentes, de introspecção, e ascendentes, de pura expressão libertadora. A visita ao mundo dos mortos, com dois temas de tributo é disso um exemplo. O primeiro, Hymn for Julius Hemphill, um tema bem marcante, de 14 minutos regista dois solos brutais de Aaron e de Stefan e uma curiosa passagem marcada pelo tom alegre e triste que varia com Dennis ao acordeão. Este, finalmente volta ao trompete arrebatado, e gozão, numa risada para espantar os demónios, como acontece mais vivamente no final de Document for Walt Dickerson, o segundo. Em ambos estes temas, são registados momentos de auge, em que a intensa secção rítmica revela complexidade e uma pesquisa de variados recursos. Upper Arm e Lower Arm são um outro exemplo de dualidade e destas passagens entre a obscuridade e a luz, por vezes vertiginosas ou explosivas, outras, com uma pesarosa e ambígua lentidão, marcados pelos solos-espirais de Dennis que definem a profundidade deste universo. A total ascensão culmina em Restless Debauchery I e II. Uma celebração, em jeito de folia e de superação, chegado o fim desta batalha interna.

As linhas de leitura são tantas que o próprio disco se renova a si mesmo em cada audição.! Terei de colocar um ponto final por pura formalidade e para deixar os demónios encerrados.

Texto: Sofia Freire
Fotografia: Direitos Reservados

 

! Há discos, como este, que levam tempo a escrever. É que, a cada audição, num dado momento, deixou-se a análise de parte para obedecer à poderosa invocação da música e apenas ouvir… Bom, há que regressar às palavras e eis que surge a pergunta: — Quando está fora de questão avaliar a capacidade técnica dos músicos, então, o que nos permite afirmar que a qualidade de um disco rebenta a escala?!