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Ilvermorny, a Hogwarts americana

Onde estão os meus Potterheads?

J. K. Rowling tem andado ocupada com o universo do Harry Potter no Pottermore*, um site (cheio de publicações sobre a saga, notícias e uma loja) onde podem ler conteúdo novo e original (by J. K. herself) e, inclusivamente, descobrir em que Casa de Hogwarts seriam postos pelo Sorting Hat (Slytherin, Gryffindor, Ravenclaw ou Hufflepuff – eu sou uma afável Hufflepuff, por muito que tenha feito o teste várias vezes) ou descobrir que varinha mágica vos escolheria na loja do Olivander.

A publicação de novas histórias está, inevitavelmente, ligada à antecipação de dois eventos diferentes.

Por um lado, no dia 31 estreia a peça (no West End, em Londres, UK) e é, ao mesmo tempo, lançado o livro-da-peça Harry Potter and the Cursed Child Parts I & II – a divisão em partes vem do facto de a peça estar repartida em duas sessões para serem vistas à tarde e à noite ou em dois dias seguidos. A peça é baseada numa nova história de Rowling, adaptada ao teatro por Jack Thorne e John Tiffany e passa-se 19 anos depois dos acontecimentos do último livro. Harry é agora um Auror a trabalhar para o Ministério de Magia e pai de três filhos, incluindo o pequeno Albus Severus (cujo nome vem das adoradas personagens Dumbledore e Snape), que terá um papel importante na história. Sobre a qual não sei nada. Embora já tenham existido sessões da peça antes da estreia, J. K. Rowling pediu para (mesmo depois da estreia da peça) os fãs guardarem segredo. O lançamento oficial em Portugal é na Livraria Lello, no Porto, na noite de dia 30, sendo que à meia noite começam a vender o livro.

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O segundo evento – e o mais diretamente relacionado com este texto – é a estreia próxima (em novembro deste ano) do spinoff Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los, cujo argumento é da própria Rowling e é realizado por David Yates, o realizador que levou a franchise de Harry Potter à sua conclusão. A história é baseada no livro-de-escola com o mesmo nome que Harry usa em Hogwarts. O filme segue o autor deste livro, o jovem Newt Scamander, um Hufflepuff expulso de Hogwarts (mas apreciado por Dumbledore) que parte para Nova Iorque (70 anos antes dos eventos que conhecemos da saga original; aliás, o filme passa-se nos anos 20), onde conhece a comunidade secreta de feiticeiros americana.

Desta forma, em antecipação destes dois eventos, J. K. Rowling tem publicado novo conteúdo: não só uma descrição mais detalhada dos Dursleys, explicando as origens e motivações por detrás do seu desdém e maus tratos do Harry, como os sentimentos a borbulhar no coração de Petunia quando esta se despede de Harry, no livro final; mas também um historial da família Potter e as suas raízes neste mundo de feitiçaria.

Mais importante, e em preparação para o filme que se passa num novo continente, Rowling tem explorado não só as origens da magia na América do Norte como toda a história – que se expande por vários séculos – mágica desse continente. Até muito recentemente, havia uma parte desta história que tinha ficado por explorar, intencionalmente: a Escola de Magia e Feitiçaria de Ilvermorny, o equivalente americano de Hogwarts. A história desta instituição está ligada à Irlanda, tem uma conexão com a descendência de Slytherin e explica a criação das casas de Ilvermorny, cujos símbolos são animais e não feiticeiros famosos. Neste caso a Horned Serpent (tentem não se rir quando pensarem em “serpente cornuda”), a pantera Wampus, o Thunderbird e o Pukwudgie – e, sim, dá para agora ver em que casa americana calhamos. Eu sou um Pukwudgie, que representa o coração do feiticeiro e favorece curandeiros. Mas já lá vamos.

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Ilvermorny (digam umas quantas vezes e já se habituam a este nome estranho) foi fundada por uma feiticeira irlandesa chamada Isolt Sayre, que escapou da Irlanda para os Estados Unidos, e pelo seu marido No-Maj James Steward, vindo de Inglaterra. Sejamos já aqui honestos: “No-Maj” é uma expressão que vem de “no magic” e não tem metade do deleite que é a palavra “Muggle”, ambas existentes para designar pessoas sem magia. Ilvermorny localiza-se no Massachusetts, no pico do Mount Greylock e está magicamente escondido dos olhos No-Maj [side-eye emoji]. A escola foi, inicialmente, criada para os seus filhos adotivos, Chadwick e Webster Boot (melhores nomes), mas começou rapidamente a acomodar muitas mais crianças mágicas, tendo-se tornado, com os séculos, numa das maiores instituições de ensino de magia do mundo.



Em traços largos, até porque recomendo a leitura do texto porque está cheio de detalhes fixes, a Isolt (descendente de Slytherin, um dos feiticeiros que criou Hogwarts e tinha ideias peculiares sobre relações Muggle-feiticeiros) acaba por ficar ao cuidado de uma tia quando os pais morrem, apenas para descobrir mais tarde que a tia – na sua loucura de dedicação ao sangue puro da família e aversão a Muggles – tinha matado os seus pais de modo a criar Isolt à sua imagem. Isolt foge para a América e, sozinha e isolada do mundo mágico que conhece, encontra conforto nas criaturas mágicas da região, travando uma amizade inusitada com um Pukwudgie rezingão, que Isolt chamou de William como o seu pai. Esta amizade durou até que William se recusou (como é costume da sua espécie) a ajudar uns pequenos humanos cujos pais foram mortos por uma outra criatura mágica. Isolt, contudo, tratou deles, com a ajuda de James, que tinha travado amizade com a família na viagem até à América. Apaixonaram-se e tomaram conta dos rapazes como se fossem seus, Isolt começa a fazer varinhas mágicas e construíram Ilvermorny para lhes ensinar magia (e muitos outros miúdos foram aparecendo) e cada um escolheu uma criatura mágica para se aproximarem do sistema de casas de Hogwarts – com quem todos sonhavam mas nunca tinham conhecido (menos o No-Maj, certo).

Inevitavelmente, a tia de Isolt, fantasticamente chamada de Gormlaith (se isto não é nome de vilã, não sei o que será) acaba por encontrá-los e tenta destruir a família. E embora Chadwick e Webster tentem resistir valentemente, nem a magia de Isolt consegue dominar a magia negra de Gormlaith. A família acaba por ser salva por William, que se manteve leal a Isolt e acabou por começar a gostar de todos os outros, iniciando uma pequena trégua entre Pukwudgies e humanos, já que William e uma equipa da sua espécie passou a patrulhar Ilvermorny como seguranças. Chadwick tornou-se autor de livros para a escola, Webster tornou-se um Auror em Inglaterra e James e Isolt tiveram ainda duas meninas, Martha e Rionach.

Também em semelhança a Hogwarts, todos os estudantes de Ilvermorny usam robes azuis e vermelhos escuros (não há robes com as cores específicas de cada Casa), atados com um Nó Gordian dourado, em memória da mãe de Isolt. Os estudantes também competem segundo equipas-relativas-às-Casas e as varinhas são distribuídas depois da cerimónia de escolha de Casas. Em Ilvermorny, há estátuas de cada animal que brilham a indicar que querem o estudante para a sua casa (algo no qual Rowling tinha pensado, inicialmente, no caso de Hogwarts e de Harry Potter) e, se duas estátuas escolherem um aluno, este pode, por sua vez, decidir por si próprio.

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Como já mencionei brevemente, os animais escolhidos representam partes diferentes de um feiticeiro. Chadwick escolhe o Thunderbird, uma criatura mágica que cria tempestades ao voar, que representa a alma de um feiticeiro favorecendo aventureiros. Isolt escolheu a Horned Serpent, pela sua ligação Slytherin a estes animais, que representa a mente de um feiticeiro e favorece académicos. Webster escolheu o Wampus, uma espécie de pantera quase impossível de matar, que representa o corpo do feiticeiro e favorece guerreiros. Finalmente, James, desconhecendo animais mágicos por ser No-Maj, escolhe o leal Pukwudgie William, por adorar as histórias que Isolt lhe contava.

Espero conhecer Ilvermorny no Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los. Tenho saudades deste mundo mágico.


*É preciso criar conta para ver todo o conteúdo, mas podem fazê-lo à vontade que eles não chateiam com e-mails.

Texto: Ana Cabral Martins
Fotografia: Direitos Reservados