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Hélio Morais: “Ouve os conselhos dos outros, mas não os sigas. Segue o teu coração”

Hélio Morais ajudou a fundar os Linda Martini e os PAUS. A partir de 2011, passou também a dedicar-se ao agenciamento e produção de bandas. Quis juntar o útil ao agradável: ter mais tempo para si e, ao mesmo tempo, poder ter contacto com outras bandas e experimentar novas abordagens, ganhando “agilidade” para resolver problemas. Não quer pensar que vai continuar a fazer “isto” durante toda a sua vida, até porque o assusta a ideia de acomodar-se e deixar de ser “relevante”. Sabendo o quão aguçada é a nossa curiosidade, diz que tem já “umas quantas ideias a fervilhar”, mas não avança mais pormenores. Tudo a seu tempo. Perguntámos-lhe que conselho daria ao jovem músico se, por acaso, escrevesse uma versão do “Cartas a um Jovem Poeta”, de Rainer M. Rilke, adaptada à música. A resposta parece sair-lhe de imediato (esta entrevista foi conduzida por e-mail, depois de o músico português ter participado nas talks realizadas pelo Departamento no Pitch Market, em setembro), vinda do seu canto mais íntimo: “Erra! Ouve os conselhos dos outros, mas não os sigas. Segue o teu coração.”


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És um dos fundadores dos Linda Martini e dos PAUS. Além da criação, dedicas-te também ao agenciamento e produção, no espaço HAUS. Fala-me do teu percurso.

O meu percurso tem sido em crescendo. Disco a disco as bandas vão conquistando cada vez mais o seu espaço. Não posso dizer que tenha tido muitos altos e baixos. Mas talvez o momento mais complicado tenha sido o intervalo de tempo entre 2010 e o início de 2012. Foi aí que mais cansado me senti e, ao mesmo tempo, encostado à parede. Por um lado, as duas bandas não eram suficientes para pagar as contas, por outro, a demanda era muito grande para conciliar com um full-time. No final de 2011, acabei por arriscar passar a ser o gestor do meu horário de trabalho e, até ver, tem corrido lindamente. Vou-me repartindo entre o agenciamento e as bandas. Ter estúdio e escritório no mesmo espaço acaba por ser um privilégio, por tornar o meu tempo mais elástico.

Estar a cargo do agenciamento e produção permite-te ter maior controlo sobre o teu trabalho enquanto criador?

Ser somente músico seria suficiente para pagar as contas. Mas, ainda que quase nunca o faça, gosto da ideia de poder fazer férias se o tempo livre o proporcionar. E por isso o agenciamento e produção acabam por me permitir fazê-lo. Acho que estes vários trabalhos se influenciam todos uns aos outros. Acabam por me fazer abordar os prolemas de várias perspetivas e, com isso, ganhar agilidade para os resolver.

Quando e em que circunstâncias decidiste tornar-te músico a tempo inteiro? Quais as maiores dificuldades – ou dúvidas e hesitações – com que te deparaste na altura?

Foi precisamente em 2011. Já tinha pedido para passar a part-time na Enchufada e no final do ano acabei por decidir ir à minha vida. Tinha conseguido juntar dinheiro suficiente para me aguentar uns cinco meses e pensei que, se durante esse período fossem aparecendo concertos com uma cadência constante, manter-me-ia até ser possível. E é nesse mesmo registo que aqui estou hoje. Mas tive muitas dúvidas nesse momento. Até tinha recebido uns quantos pedidos de entrevista nesse ano, na indústria, e pensei que se corresse mal talvez tivesse espaço para voltar para uma agência ou até trabalhar para uma editora.

Alguma vez pensaste em fazer outra coisa?

Vou-me inquietando constantemente. Não quero pensar que vou fazer só isto toda a vida. Isso assusta-me, porque tenho receio de me acomodar e, com isso, deixar de ser relevante. Gosto de tudo aquilo em que estou envolvido, mas tenho umas quantas ideias a fervilhar. É ver quais é que ganham força para andar. O tempo o dirá. Gira tudo mais ou menos à volta da música, mas nas mais variadas áreas. Neste momento, os meus rendimentos advêm quase todos da venda de espectáculos – seja como agente ou como músico. Isso deixa-me nervoso. Se houver uma crise no mercado, fico sem escapatória.

Fala-me sobre o espaço Haus. Como é que surgiu a ideia para esse projeto?

A ideia inicial era concentrar tudo o que cada um fazia no mesmo espaço. Partilhar rotinas diárias, conseguir criar novas ideias e construir a partir daí. Neste momento, o agenciamento, o estúdio e as salas de ensaios já estão estabelecidos. Estamos agora a direcionar esforços para a área da criação/mediação de relações entre marcas e música; a responder a pedidos específicos, mas também a apresentar ideias. Começou com o single de Natal da Antena 3 e está a ter continuidade com o Vodafone Band Scouting – Mexefest -, juntamente com uma série de outros projetos que serão anunciados a seu tempo.

Imagina que vais escrever uma nova versão do “Cartas a um Jovem Poeta”, do Rainer M. Rilke, mas direcionado para a música. Que conselhos darias ao jovem músico?

Erra! Ouve os conselhos dos outros, mas não os sigas. Segue o teu coração.


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Entrevista: Magnética Magazine
Fotografia: Alexandre Murtinheira

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