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Gilmore Girls: Winter

Este artigo faz parte de uma série sobre Gilmore Girls: A Year in the Life. Depois de “Winter”, há também “Spring“, “Summer” e “Fall” (all you have to do is call). Há spoilers.

Depois da antecipação à volta do retorno desta série do início dos anos 2000 – curiosamente, durante a administração Bush – que podem ler aqui e aqui, podemos, finalmente, começar a falar sobre cada novo episódio de Gilmore Girls.

A série conta com o retorno de Lauren Graham (Lorelai Gilmore), Alexis Bledel (Rory Gilmore), Scott Patterson (Luke) e Kelly Bishop (Emily Gilmore), bem como Sean Gunn (Kirk) e Keiko Agena (Lane), todos da série original. Menção honrosa para o entretanto falecido Edward Herrmann (Richard Gilmore). A série foi produzida por Dorothy Parker Drank Here Productions – a produtora de Amy Sherman-Palladino cujo nome é um tributo à escritora norte-americana mas também um tributo ao livro Dorothy Parker Drank Here de Ellen Meister – em associação com a Warner Bros. Television. Amy Sherman-Palladino é criadora e produtora executiva, sendo que Daniel Palladino também é produtor executivo, e são ambos responsáveis pelo argumento e realização de todos os episódios da última série. Amy realiza e escreve o primeiro e último episódios e Daniel os do meio. Infelizmente, Daniel é o mais fraco dos dois, tendo claras dificuldade em editar-se a si próprio no que toca a timings e a piadas ou cenas que ou não faz muito sentido estarem presentes ou que (edição, mais uma vez) são demasiado longas. Os episódios realizados por Amy são muito mais focados, mesmo que ela se permita algumas (bastantes) divagações, estas aparecem de forma mais orgânica.

Ao todo são 4 e estão divididos por estações, constituindo o titular “ano na vida”. E a primeira estação é o Inverno. Fãs de longa duração da série sabem o quão especial é o Inverno para a mitologia – se é que uma série destas pode ter uma mitologia; tem, pelo menos, cânone – de Gilmore Girls e de Lorelai (podemos falar sobre como este nome é perfeito para esta personagem? Bonito, musical, totalmente fora do vulgar e idiossincrático e um bocado imperioso).

Neste episódio, o “cold open” é sintomático. A série abre com as frases mais icónicas – “Oy with the poodles already” e “Copper Boom” são ouvidas perante um ecrã a negro – e rapidamente encontramos Lorelai, seguida e Rory. Somos recebidos com uma diatribe imensa sobre como a Rory está acabada de sair de um avião e vem com um ar demasiado perfeito. A diatribe, bem como o restante episódio, é uma maneira das atrizes voltarem a sentir-se confortáveis com estas personagens e há muito o sentimento de estarmos a ver alguém a vestir a sua camisola velha (in a good way) e a sentir-se confortável mais uma vez com uma velho amigo (aka, a camisola velha – esta metáfora está a perder-se, vou parar). No final do monólogo extremamente rápido e cheio de referências que fez a série e a escrita de Amy Sherman-Palladino famosas, Lorelai (num momento incrível de Lauren Graham) diz, com a voz a quebrar: “I missed you, kid”. De repente, todo este revival faz sentido.

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Em termos de narrativa, enredo, whathaveyou, há algumas coisas estranhas e algumas que fazem todo o sentido.
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Lorelai e Luke estão juntos mas a experienciar algumas dúvidas em relação à maneira como têm vivido os últimos anos e se terão perdido oportunidades que os deixarão insatisfeitos com as suas vidas.
Emily, e as Gilmore em geral, estão a tentar recuperar de um golpe terrível: a morte de Richard. Este acontecimento afeta toda a narrativa e as personagens de maneiras profundas e fundamentais, sendo um dos fios condutores da série e uma das suas vitórias: conseguir homenagear tanto personagem quanto ator da maneira mais bonita e tocante possível (esperem até falarmos do quarto episódio se eu conseguir escrever com lágrimas). É, contudo, inevitável pensar no que poderia ter sido se a série ainda tivesse a presença de Edward Herrmann e como teria sido uma jornada diferente (muito, muito diferente) com a presença do pai de Lorelai. Emily e a Lorelai continuam a sua relação conflituosa mas cheia de afeto, mesmo que mostrar esse afeto seja o gesto mais difícil que ambas conseguem fazer. O revival arranja, com o falecimento de Richard, novas questões para estas ultrapassarem, mas não deixo de pensar em como seria com ambos os pais vivos e se voltaríamos a tentar curar a distância de séries anteriores. Na verdade, a relação de Emily e Lorelai (e de Richard e Lorelai) sempre me pareceu não só uma das melhores e mais bem escritas partes da série, como uma das mais realistas, numa série que sempre pesou mais para o lado do “encantador” do que para o lado do “tremendamente realista”. E, no entanto, estas relação sempre ressoaram com uma verdade emocional palpável.
A história de Rory é que peca mais pela estranheza. Agora com 32 anos, Rory não parece ter mudado (ou feito) muito coisa na década subsequente à série ter terminado. E a relação casual e adúltera que mantém com Logan (mesmo que nenhum dos dois esteja casado) é triste de ver, especialmente tendo em conta que – apesar da sétima temporada existir segundo este revival (não foi escrita pelos Palladinos) – nunca há a menção de que Logan pediu Rory em casamento e ela o rejeitou.
A falta de rumo na sua carreira pode parecer muito contemporânea mas tudo o resto é quase doloroso de ver. É esta a Rory de sempre?

Pensamentos extra:
* Foi muito bom ver todos os personagens de volta. Especialmente o Kirk. E menos a Miss Patty mas apenas por estar irreconhecível e eu ter medo de googlar se ela esteve/está doente.
* Pobre Paul.

Texto: Ana Cabral Martins
Imagens: Direitos Reservados/ Netflix