596 Visualizações |  Gosto

Gilmore Girls: Summer

Este artigo é uma continuação de uma série sobre Gilmore Girls: A Year in the Life. Depois de falarmos do primeiro episódio, “Winter” e de “Spring“, agora falamos de “Summer”. Há spoilers

“Summer”, “Summer”, “Summer”. Um episódio, no mínimo, estranho que acaba de uma maneira simultaneamente incrível e inesperada. Talvez também a melhor demonstração de que liberdade a mais não é bom, porque encher 4 episódios de 90 minutos não é fácil para os Palladinos. Quando Gilmore Girls estava no ar, no defunto canal de televisão The WB (que agora é a CW, casa de séries como The Flash, Arrow e Vampire Diaries), e durava uma hora – 40 minutos + intervalos – mesmo assim, às vezes, havia demasiado tempo dedicado a questões, bits ou pessoas cuja presença não valia de todo a pena esticar ad eternum. Este episódio sofre e não sofre do mesmo problema.

Há duas sequências intermináveis, uma que se perdoa e outra que não se perdoa. A imperdoável é uma montagem em que Rory e Lorelai distribuem jornais (durante o que parece ser um dia inteiro),com a ajuda de townies que são arrastados para um trabalho com o qual não se têm nada a ver. Que disparate é este? Há também uma sequência musical à la Bunheads que dura *10 minutos*. Contudo, depois de passarmos por várias emoções (incredulidade, divertimento, etc.), a boa vontade começa a esmorecer na música de Abba, embora eu perceba a subtil facada que Daniel Palladino pretende introduzir. O musical conta com atuações de Sutton Foster (Bunheads) e Christian Borle, anteriormente casados e atores da Broadway.

GILMORE GIRLS

Por um lado, é realmente de estranhar algumas coisas: porque é que temos de suportar as piadas sobre gordura alheia enquanto Lorelai e Rory estão à beira da piscina? E porquê usar duas crianças como pequenos escravos? Estamos a fazer algum comentário sobre como mãe e filha são pessoas que se sentem num patamar que convida a que abusem da boa vontade das pessoas que vivem em Stars Hollow?
Durante “Winter”, tivemos uma clássica discussão entre Emily e Lorelai (uma das várias coisas que me fez pensar que este revival ainda retinha alguma coisa do original e da maneira cirúrgica, implacável e piedose como Amy Sherman-Pallaino escreve estas personagens) em que Emily diz a Lorelai: “Go back to your beloved town with its carnies and misfits. Tell them how your intolerable mother yelled at you at your father’s funeral. They can all console you and tell you what a witch I am and how perfect you are!”. Há um constante sentimento de Lorelai enquanto “rainha” de Stars Hollow (e Rory a sua princesa?) que dá para ir verificando ao longo da série por um rol de festividades e actos por parte da cidade inteira dedicado às duas Gilmore. Desta vez, não cai tão bem, especialmente quando Rory responde a qualquer pessoa que lhe diga, com satisfação: “Hey, you’re back!,” que não, não está de volta e muito menos se quer envolver com o “30something gang” como se eles tivessem lepra e não estivessem exatamente na mesma situação que ela.

De nota? Rory admitir que a relação que mantém com Logan é totalmente disfuncional e má para os dois – novamente, porque é que ninguém fala da proposta de casamento na 7ª temporada, mas pronto – e acaba, finalmente, com ele, ficando nostálgica pela pessoa que era aos 20 anos.
Sem esquecer a maravilhosa aparição de Jess – que nunca foi o meu preferido – e que dá o humor e a introspecção necessária para que Rory comece a sair da sua rotina sem rendimentos. Jess já tinha sido a personagem cuja “real talk” tinha feito Rory reconsiderar o seu afastamento de Yale e este é um momento bonito na história dos dois.
Também de nota, Luke a Lorelai a falarem finalmente sobre os seus problemas. Talvez ninguém faça tão bem monólogos e discussões quanto Amy Sherman-Palladino (e Aaron Sorking) porque este é outro dos momentos brilhantes deste revival. Termina o episódio com a música “Never or Now”, cantada sublimamente por Sutton, que inspira Lorelai a viajar de forma a ganhar alguma claridade no que toca à sua vida – ela informa Luke que vai recriar a jornada de Wild (o livro, não o filme, porque é purista – livro esse que estava a ler na piscina no início deste episódio).
A reacção de Luke é perfeita e o final do episódio lança-nos para o melhor episódio deste conjunto: “Fall”.


Texto: Ana Cabral Martins
Imagens: Direitos Reservados/ Netflix