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Fala Atelier, um mundo de projetos

Fala atelier, está sediado no Porto e são Filipe, Ana Luísa e Ahmed os sócios que estão por trás deste projeto que tem vindo a crescer ao longo dos anos. Já passaram por vários países, entre eles o Japão e trouxeram destas experiências novas visões e competências, que têm vindo a aplicar no seu trabalho por cá.Como surgiu o fala atelier?

O atelier nunca vai ter digamos na página da Wikipédia uma data de início. Pode-se dizer talvez que começou há 8 anos, porque eu e a Tita fizemos um concurso juntos, mas foi algo completamente descomprometido do género “Vamos lá ver no que é que isto vai dar”. Fizemos um projeto juntos, depois fizemos outro e depois outro e nunca mais parámos de fazer. Entretanto comecei a fazer concursos com a Ana Luísa e eu e a Tita deixámos de trabalhar juntos.

Algum tempo depois eu e a Ana Luísa começámos a trabalhar juntos muitas vezes, não só nos nossos concursos mas também noutros ateliers. Fomos juntos para o Japão e a dada altura tínhamos tantos trabalhos a acontecer que achámos que fazia sentido estabilizar isto e dar-lhe um nome, um site, uma morada. E desde há um ano e tal atrás, estamos estabilizados, temos o site, uma carteira de clientes, temos um atelier propriamente dito e entretanto temos um terceiro sócio que é o Ahmed, que é suíço e estudou em Zurique.

O que é que o fala atelier pretende acrescentar à arquitetura?

É uma pergunta ambiciosa. Nós não queremos acrescentar nada à arquitetura enquanto disciplina ou não sabemos se vamos. Nós se calhar vamos fazê-lo, como qualquer arquiteto faz. O que nós queremos acrescentar se calhar é mais uma experiência a nós próprios enquanto arquitetos. Nós fazemos isto por prazer, não é preciso falar de crises nem nada disso, mas isto não dá tanto dinheiro assim, o glamour já não é o de outros tempos. Acho que se nota quando alguém o faz por prazer, quando alguém o faz por dinheiro, quando alguém faz por necessidade e não é o que nós queremos acrescentar mas sim o que não queremos perder. É esse hedonismo, esse prazer latente em fazer isto todos os dias e todos os dias estar contente a fazer a mesma coisa.

A linguagem visual das vossas ilustrações são bastante originais, têm alguma referência de inspiração?

Temos muitas. Não só em imagens, mas também em projetos e em plantas. Referências há muitas – arquitetos suíços, os belgas também que estão atualmente muito na moda, também a nossa experiência no Japão deixou muitas marcas e há da nossa parte uma vontade enorme de experimentar. O modo que temos desenhado as nossas plantas de há 5 anos para cá tem vindo gradualmente a evoluir e ainda não parou. E as imagens que nós produzimos recorrem a um pouco de tudo, tanto fazemos colagens, como fazemos renders, como fazemos fotografia de maquete. As imagens são uma consequência direta dos projetos e são um work in progress, não há uma receita.

O facto de ilustrarem os vossos projetos de forma autêntica surgiu de uma necessidade de se diferenciarem ou é na verdade algo natural?

Não é uma necessidade nossa de sermos diferentes, porque já há muita gente que fez isso antes de nós. Tem a ver com uma questão de expressividade, por exemplo, houve um projeto da biblioteca Municipal de Setúbal em que nós usámos especificamente pinturas do séc. XVIII e do séc. XIX para representar os espaços públicos. Dentro da biblioteca em si usamos pessoas ditas normais e porquê? Porque o objetivo era requalificar um jardim numa praça central em Setúbal que foi um jardim romântico desse período, que teve essa atmosfera das pinturas que nós usamos e que se perdeu ao longo do tempo. Nós fizemos estas colagens neste género de atmosfera que conhecemos dos quadros e estamos a passar essa mensagem, ou seja, estamos a enfatizar o projeto através de uma componente gráfica.
Pontualmente, também há um facilitismo mecânico, porque fazer um bom render dá muito trabalho e quando nós conseguimos encontrar um vocabulário mais simplificado que passa a mesma mensagem e que não exige de nós mais 3 ou 4 dias de trabalho, a pergunta é “porquê perder esses 3 ou 4 dias?”. Principalmente sabendo que o objetivo final não são as imagens. As imagens são um meio para um fim, o objetivo final é o projeto em si.

Como funciona o vosso processo criativo?

Caos, muito caos. Nós trabalhamos numa mesa todos juntos, neste momento somos 6. É um processo mais ou menos horizontal, e normalmente estão a acontecer mais que um projeto de cada vez. Há o responsável, mas toda a gente tem mais ou menos a noção do que é que se passa na sala e toda a gente traz qualquer coisa para cima da mesa, ou seja, não há o meu projeto e o teu projeto e o projeto dele, aliás a própria ideia de “fala” vem das nossas iniciais – Filipe, Ana Luisa e Ahmed e é tão simples quanto isso. É uma ideia de coletivo e o facto de ser em minúsculas representa esta noção de ser algo relativamente informal. A maior parte dos nossos colaboradores são bastante jovens, estamos a falar entre os 23 e 25 anos e que trazem uma certa ingenuidade, uma certa irreverência e o “eu não sei como é que isto se faz”, porque no momento em que achamos que sabemos tudo, isto já não vai funcionar bem. E como estamos ainda nesta fase de procura de uma identidade própria, é muito positivo ter esta equipa que está constantemente a rodar porque vão trazendo sempre mais qualquer coisa para cima da mesa e que gera um processo um bocado de caos e imprevisibilidade. Nós sempre que fazemos um projeto temos o gosto de colocar no nosso site uma foto desse projeto, e quem olha para o site como coletânea parece algo caótico, mas que no fundo faz sentido como conjunto, porque cada imagem não tem relação com as imagens que a rodeiam e isso é o resultado disto. Há um bocadinho de cada um dos colaboradores e muita diversidade.

Sabemos que tiveste juntamente com a Ana Luísa, a trabalhar uma temporada no Japão. De que forma a arquitetura e a sociedade japonesa influenciou os vossos projetos?

Nós trabalhámos um ano no Japão, e antes disso trabalhámos na Suíça. E para entender o Japão, é preciso compreender a Suíça. A Suíça deu-nos uma espécie de um modelo aperfeiçoado daquilo que é o modelo português. Tivemos num bom escritório, que basicamente deu-nos o grau seguinte da nossa formação académica e nós percebemos o que era o sistema perfeito. O Japão provou-nos que o oposto disto também é verdade. O oposto de um sistema perfeito também pode ser um sistema perfeito. O Japão funciona, não propriamente o atelier ou os ateliers em que trabalhámos, mas a sociedade é diametralmente oposta daquilo que é a nossa sociedade ocidental e pôs-nos a refletir sobre esta ideia do certo e do errado como sendo algo antiquado. Não há bem um certo e um errado, há 4 ou 5 caminhos para chegar à mesma solução e o Japão foi importante para isso. Nós já vivemos fora muito tempo e em diferentes países mas sempre na Europa e o Japão deu-nos esta abertura de espírito. Não é um sítio qualquer, tem uma identidade, cultura e uma vida que não é fácil encontrar na Europa e obviamente que nos deixou marcas que passaram para projetos e para o modo como falamos. Não no vocabulário, mas como narramos aquilo que fazemos como atelier.

Mas conseguem aplicar alguns conceitos que trouxeram do Japão cá em Portugal?

Sim, ainda ontem estávamos a falar sobre isto, que os japoneses têm uma palavra que é ‘Shiru’ que quer dizer branco, quer dizer nada e que quer dizer silêncio e presumo que a palavra para abstrato, também ande muito próxima desta. E é fascinante como é que na mesma linguagem, uma só palavra quer dizer coisas tão diferentes. O Japonês é muito figurativo, é muito agarrado a imagens, a noções pré-concebidas de história, nós basicamente vivemos numa reciclagem de padrões que já existiam antes, num aperfeiçoamento de padrões já existentes. E a sociedade que vemos hoje no Japão, é um bocadinho a sociedade da Expo 70, que foi o período máximo da época metabolista e que é o Japão atual e eu acho que nós transportamos um bocadinho disso. O facto de termos vivido numa cápsula com 8 metros quadrados durante um ano também, mexe com qualquer pessoa. De repente, tudo o que nós percebemos para trás, provou-se ali que se calhar não era assim tão verdade.

E conseguiram adaptar-se à cápsula?

Conseguimos. Os primeiros 15 dias foram uma loucura, se não arrumares as compras imediatamente após entrares em casa já não dá! E depois começaste a habituar, começas a perceber que a cápsula que por mais pequena que seja, é extremamente ergonómica. Tu consegues fazer toda a tua rotina lá sem sentir de facto que estás em 8 metros quadrados,  e ao mesmo tempo torna uma pessoa automaticamente mais organizada e sistemática, és obcecada como tudo funciona, mas ainda assim permite um certo caos. Existem umas fotos que tirámos à cápsula no seu estado normal que revelam este equilíbrio em que tudo está no sítio mas que ao mesmo tempo está um caos instalado.

Voltaram para o Porto e acabaram por formar o fala atelier. Porquê esta decisão?

Pai, mãe, amigos, casa, comida, meteorologia. Não foi por dinheiro, isso é certo. Não foi, não é, e da maneira como vemos as coisas não será, portanto não é essa a motivação principal. É onde nos sentimos bem e confortáveis. Eu acho que o conceito de casa diz tudo. A primeira vez que eu saí para Erasmus, foi na expectativa de “Lá fora é que é!”, mas depois de Erasmus fui para a Suíça, da Suíça fui para o Japão. Agora estamos a dar aulas em Bratislava – mais uma experiência; e chega a uma altura em que preferimos ter isto mas em quantidades mais pequenas. E acho que a principal motivação foi essa, quero fazer o que gosto de fazer mas em casa.

Qual foi o projeto que mais vos motivou até agora e porquê?

Esta é difícil. É assim, não há um que motivou mais. Quando ganhámos a primeira menção honrosa, que ainda não éramos fala atelier, num concurso de ideias, uma coisa irrelevante, nós achámos que tínhamos chegado ao topo do mundo. Depois quando ganhámos a segunda, já foi mais “ok”. Depois passámos algum tempo sem ganhar nada, e isso põe-te outra vez os pés no chão. Por exemplo quando vimos a nossa exposição na trienal, a primeira coisa digamos, construída que tivemos, foi uma sensação única andares lá no meio e sentires “Isto é meu, fui eu que desenhei”. Depois tivemos o bar. É assim, vai funcionando por etapas. Acho que enquanto arquitetos, somos um bocado isso, infelizes no dia-a-dia para ser felizes quando alcançamos um destes momentos.

Se pudessem ditar o vosso futuro, onde gostariam de estar daqui a 10 anos?

No mesmo sítio, com um bocadinho mais de cash flow. Ou seja, queremos fazer o que estamos a fazer agora, não perder esta motivação mas ter uma conjuntura diferente, gostávamos de fazer mais que reabilitação. Não é o nosso foco de mercado, e sentimos que estamos a ser canalizados por esse caminho porque neste momento há mercado nesse sentido e nós temos de nos adaptar a isso. Mas eu sinceramente, e acho que a Ana Luísa e o Ahmed concordariam com isto, gostaríamos de estar no mesmo modelo, a ter o mesmo prazer, ir para o escritório às 9.30h e sair as 20h da noite e nem ter a noção que lá tivemos o dia todo. Continuar a ter esta mesa aberta que nos permite fazer o que nos apetece e se calhar poder ter  horas em que ninguém trabalha e podermos estar só a discutir um livro ou um filme ou outra coisa qualquer e gradualmente ver os nossos projetos a aparecer. Gostava de fazer um museu, uma escola, mas se não o fizer, não é por isso que vou ser infeliz. Quero que isto continue a saber bem.

http://www.falaatelier.com/

Entrevista: Isabela Gonçalves
Fotografia: Beatriz Pereira