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Em casa dos avós de Nuno Costa Santos

Publicado em fevereiro deste ano na Quetzal, Céu Nublado com Boas Abertas é o primeiro romance de Nuno Costa Santos, mas não é o seu primeiro livro. Nascido em 1974, Nuno Costa Santos, açoriano, da ilha de São Miguel, mudou-se para Lisboa aos 18 anos, para estudar Direito, e foi viver para casa dos avós maternos, na Estefânia. Foi nesta casa que descobriu um livro escrito pelo avô, que viria a influenciar este seu primeiro romance, e foi também nesta casa que nos recebeu para uma conversa.

“Eu não sabia que o meu avô lia tanto,” diz-nos. “Já tinha começado em São Miguel a semear esta minha vocação literária, a mandar vir livros de cá para lá.” Por isso, a biblioteca privada do avô e as muitas livrarias que encontrou na capital foram um bálsamo para o jovem Nuno Costa Santos. Apesar disso, a mudança não foi pacífica.

“Eu vinha de um grupo de amigos que ouvia muita música, que lia, que via filmes e depois cheguei aqui e fiquei sozinho,” conta-nos, “numa espécie de repartição académica na qual nunca me encontrei. Foi um pouco como O Processo do Kafka. Eu nunca consegui também ter a coragem, na altura, de me libertar imediatamente do curso de Direito. Fui ficando, fui ficando… mas ao mesmo tempo fui lendo, fui lendo…”



Ao mesmo tempo que lia, começou a escrever diários, que trouxe para a nossa conversa e de onde nos leu alguns excertos:

12 de agosto de 1993

Jantar de gravata. Dançar. Longe. Acabar a noite com a morte a descer a língua.

10 de setembro

Nada se passou. Continuo a confundir-me com os dias.

11 de setembro

O caráter épico e poético que exalava, pelo menos em certos momentos de real sentir, e exteriorização do verdadeiro eu, abandonou-me pela minha preocupação. Sou da acomodação. Da serena desesperança que não escolhe o segundo para invocar o sonho perdido ou a morte.

15 de setembro

Iniciar a manhã a escrever. Não lamento a falta de criação, pelo menos hoje. Regozijo de férias, ouvir música, conversar, gravar cassetes para as oferecer a alguém que passa.

“Era assim que eu era aos 19 anos,” diz-nos com um sorriso. “Não está mau. Tem aqui umas coisas meio pretensiosas. E depois também havia muita culpa [nos diários], que é uma coisa que ainda hoje me atravessa.” O dramatismo da coisa é desmanchado com o ar divertido e bem disposto com que fala.

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Ao mesmo tempo que se apaixonava pela literatura, apaixonava-se também pelos jornais. O cenário que nos conta é hilariante: “A partir do primeiro ano, o meu avô paterno ofereceu-me um carro, e o carro era conhecido por ser uma espécie de Hemeroteca caótica de jornais. Mas não se imagina mesmo, quase no limite do delirante e do demente. Quem queria entrar para a parte de trás, tinha de atravessar uma espécie de mar revolto de jornais de todo o tipo, do Guardian até ao Tal&Qual. Era uma coisa bastante delirante.”

Desta paixão pela leitura e da escrita dos diários, passou naturalmente para a escrita literária. A primeira tentativa foi um livro de contos, chamado Discos Quebrados e Outras Histórias. “Este livro, gloriosamente, foi recusado por várias editoras. Não guardo mágoa, embora um dia vá ajustar contas,” diz-nos a rir. E é possível que seja bem verdade, porque logo a seguir mostra-nos as cartas de rejeição de algumas editoras, que guarda religiosamente. Lê-nos a da Dom Quixote: “A obra que V. Ex. teve a amabilidade de nos propor para publicação foi já apreciada, não podendo, contudo, a editora, dar-lhe uma resposta positiva, por dificuldades de enquadramento na nossa programação. Junto devolvemos, pois, a cópia do original respetivo.”

Depois desta primeira tentativa fracassada, publicou mesmo um livro de contos: Dez Regressos, em 2003, numa altura em que já estava envolvido em várias atividades criativas, como a revista Inventio na Faculdade de Direito. “Gostaria talvez um dia de o ver transposto para o teatro, que é outra área que me interessa,” diz-nos deste livro que considera “um livro inicial que [acha] que tem algum interesse”.

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Entretanto começou a escrever na revista Ler e a meter-se noutros projetos. “Comecei a fazer um programa de televisão chamado Zapping, com um grupo de amigos, que vinha na sequência do Portugalmente, que era um programa do qual eu gostava muito,” revela o autor. “Aí pude experimentar vários registos, fui buscar também um lado meu performático, que já tinha semeado nos Açores, mas depois abandonei. E entrei pelo mundo do guionismo.”

A seguir vieram os livros de poesia. Os dias não estão para isso (2005), “que era um livro quase de anti-poemas,” diz-nos. “Um livro que sabotava a ideia de poesia, muito influenciado talvez por autores dos quais gostava muito como o Alexandre O’Neill, o Fernando Assis Pacheco.” E acrescenta: “Mas também tinha uma voz que eu considero que era já uma voz própria.” Depois deste veio Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme, que, diz-nos Nuno Costa Santos, “correspondeu também a outra fase poética da minha existência, em que a poesia continua a ter esses elementos de sabotagem, mas deixa-se levar aqui e ali por um maior lirismo, digamos assim.”

À poesia seguiram-se outros livros, noutros registos. O Inferno do Condomínio (2006), num registo cómico, “era uma paródia ao caos que é viver num prédio onde as pessoas não se entendem, onde ninguém quer contribuir para as partes comuns, onde a vizinha de baixo começa logo a culpabilizar o vizinho que acabou de entrar por todos os problemas do seu apartamento.” Depois houve o Melancómico, um livro de aforismos, que era também um blogue.

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Mais tarde, publicou uma biografia de Fernando Assis Pacheco: Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco (2012). “Tentei fazê-lo de uma forma que se aproximasse da linguagem do Assis Pacheco, fiz uma crónica biográfica,” diz-nos Nuno Costa Santos. Em 2014 foi a vez da crónica, com o livro Vou Emigrar para o Meu País. E depois desta já recheada carreira, só faltava o romance, que veio no início deste ano. Mas como chegou até lá?

Foi nos seus primeiros tempos em Lisboa que encontrou um manuscrito da autoria do seu avô, quando procurava livros para ler. A avó disse-lhe que era um livro sobre a experiência do avô no Caramulo, onde esteve a tratar-se de tuberculose. “Ele nos anos 40 do século passado saiu da ilha de S. Miguel para vir para o Caramulo e conta essa sua experiência de luta, de combate, de vontade de se curar de uma doença que contraiu enquanto militar na ilha de S. Miguel,” revela Nuno Costa Santos.

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Vinte anos depois de o ter lido, Nuno Costa Santos decidiu dialogar com o livro do avô, e daí nasceu o seu primeiro romance. Por o avô se jogar tanto no livro, se imiscuir tanto na narrativa, Nuno achou que devia fazer o mesmo com o seu romance. “Primeiro tentei confirmar alguns factos, de alguns episódios,” confessa. “Alguns batiam certo. Depois achei que isso não era tão interessante e então fiz este regresso ao livro e criei um livro impuro, que junta um diálogo com esse livro do meu avô e uma viagem imaginária aos Açores.”

E é precisamente desta incerteza do que é real e do que é ficção que emerge parte do fascínio do romance: “A forma como eu apresento o meu avô e como eu me apresento tem o objetivo de ser literário, não só na linguagem mas também neste jogo entre realidade e ficção,” admite o autor. “Há episódios no livro do meu avô que, sendo apresentados como factos, serão possivelmente ficção. E isso acontece também comigo.”

Agora que o livro já está publicado, Nuno Costa Santos achou que era altura de o devolver ao seu lugar de origem. E a Magnética registou este momento exclusivo:


Texto: Gonçalo Mira
Fotografia e Vídeo: Beatriz Pereira
Edição vídeo: Alexandre Murtinheira