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Elliott Smith: 20 anos de Either/Or

Se existisse um dicionário visual incorporado em cada álbum, Either/Or seria uma edição limitada da primavera imagética por onde a dor e a beleza desaguam. O conceito pode eventualmente ser confuso, mas o disco também o é. Não porque a mensagem seja pouco clara, mas porque a sensibilidade escrita de Elliott Smith ultrapassa em muito a capacidade sensorial do mais comum dos ouvidos.

Isso explica, talvez, o porquê de Either/Or ter o estatuto de disco de afirmação mesmo quando a devoção já se adivinhava. Há nele um equilíbrio pouco comum, ainda que o carimbo de terceiro trabalho já pesasse, o que o empurra para uma sonoridade mais esclarecida, mais apelativa às massas.

Tudo isto assenta numa fórmula vencedora, a de que a história de Smith se confunde demasiadas vezes com o tom do álbum: um sussurro de vicissitudes, desencontros e sonhos, poesia e depressão, estruturado pelo som de uma guitarra que aos ouvidos soa como um concerto não intimista, mas íntimo. À sua medida.

Conter um desastre de dimensão considerável numa sala onde cada episódio é medido pelos minutos em que a pele arrepia é um labour of love ao alcance de poucos, e Elliott Smith consegue-o, – quase – sem esforço.

O disco chegou como um veículo estranho à navegação na indústria, principalmente depois dos dois anteriores, Roman Candle, em 94 e o homónimo, em 95, o condensarem artisticamente, e deu lugar aos heavyweights naturais das tabelas dos 1990s. Mas o mergulho no conforto do recato não acontece sem que Gus Van Sant o recupere, para dar corpo à banda sonora do galardoado Good Will Hunting.

Either/Or fecha 1997 como o terceiro melhor disco do ano, superado apenas pela magistralidade de Ok Computer e pela estranheza de Homogenic (Bjork). Elliott Smith fecha 1997 como uma peça incontornável de beleza composicional e como uma injecção profundamente necessária numa geração que, aos poucos, sepultava finalmente o grunge.

Texto: Tiago Neto
Fotografia: Direitos Reservados

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