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Colectivo Warehouse: arquitetura com as mãos na massa

Foi preciso visitarmos duas vezes o Colectivo Warehouse para conseguirmos trazer-vos esta história. Da primeira, depois de quase uma hora de maravilhosa entrevista, regressámos à redação de alma cheia. Quando passámos os ficheiros para o computador, porém, foi como se espetassem uma agulha no balão da nossa alma, que se esvaziou lenta e irritantemente: o áudio não tinha ficado gravado. Tínhamos um vídeo do Rúben Teodoro a falar sem que nenhum som saísse da sua boca.

Remarcámos visita, como um paciente que regressa ao consultório porque os sintomas não desapareceram, e os rapazes deste colectivo receberam-nos com igual simpatia, como se fosse a primeira vez, como se não estivessem a repetir tudo o que já tinham dito. Para que a tarefa não fosse demasiado penosa para o Rúben, desta vez o porta-voz foi o Ricardo Morais.

O Colectivo Warehouse nasceu em 2013 quando os fundadores ainda eram estudantes de arquitetura. Começaram por ser onze, entraram em concursos de arquitetura – ganharam alguns – mas cedo perceberam que não era isso que os motivava. “Queríamos mais concretização,” explica-nos Ricardo. Foi por isso que começaram a fazer voluntariado em alguns projetos de construção.

“Depois houve gente que acabou o curso e foi fazer estágio ou trabalhar para outros ateliers,” acrescenta. “Houve uma evolução natural e neste momento temos um núcleo duro de três pessoas” que são o próprio Ricardo, o Sebastião de Botton e o Rúben Teodoro. A equipa completa-se com o quarto elemento, que está na Dinamarca, a Malin Mohr.

“A diferença do Colectivo para um atelier convencional,” diz Ricardo, “é que no Colectivo todos trabalham para um bem comum. Somos uma espécie de arquitetos / carpinteiros / desenhadores / agentes sociais, uma mistura de tudo.” Na base do trabalho está a ideia de Arquitetura Participativa e o exemplo que melhor o ilustra é o da Cozinha Comunitária das Terras da Costa, feito em parceria com o Ateliermob (que também já visitámos), com o qual receberam o Prémio de Edifício do Ano 2016 do Archdaily, na categoria de arquitetura pública.

Este é um projeto cujo objetivo final é o seu desmantelamento, quando as pessoas que dele usufruem forem realojadas. Também aqui, nesta fase do processo, o Colectivo Warehouse quer ter um papel de intervenção. Ricardo explica-nos que não querem que as pessoas sejam espalhadas pelos bairros sociais “porque isso não surte efeito, quebra a rede comunitária de entreajuda que existe lá.”

O Colectivo Warehouse gosta de criar inputs na cidade, de ser um agitador social. “Muitos dos nossos projetos vêm de autopropostas,” diz Ricardo. “Nós percebemos que há uma necessidade, e uma oportunidade também, de intervenção e colocamo-nos ao dispor. É uma prática diferente da espera da encomenda.” Melhor mesmo é ouvir o Ricardo na primeira pessoa:


Texto: Gonçalo Mira
Vídeo e fotografia: Beatriz Pereira