699 Visualizações |  Gosto

Caça-Fantasmas: Um passado bem presente

Quando o argumentista Max Landis se preparava para iniciar reuniões com Ivan Reitman houve uma mudança de planos. Paul Feig (Freaks and Geeks, A Melhor Despedida de Solteira, Armadas e Perigosas e Spy) escreveu uma carta fervorosa que listava as razões pelas quais ele gostaria de um filme dentro desta franchise. É assim que Feig (com provas dadas com ensembles e comédias e comédias com mulheres) vem a bordo, trazendo consigo a argumentista Katie Dippold (Parks & Recreation), com quem já tinha escrito o bem-sucedido Armadas e Perigosas (2013), para escreverem um guião focado num grupo de caça-fantasmas totalmente feminino. O realizador trouxe também Melissa McCarthy (com quem trabalhou em A Melhor Despedida de Solteira, Armadas e Perigosas e Spy) e Kristen Wiig (com quem trabalhou em A Melhor Despedida de Solteira). A estas duas atrizes e comediennes, juntam-se Kate McKinnon e a fã de Game of Thrones Leslie Jones, ambas do programa Saturday Night Live.

Começam aqui os problemas. Já existia o de ser impossível – por uma questão de respeito e coração partido de todos os envolvidos na propriedade – fazer uma sequela (minimamente) direta aos filmes dos anos 80 devido à morte em fevereiro de 2014 de Harold Ramis (o Egon Spengler). Havia também agora a questão de alguns, mas muito vocais, fãs dos originais criticarem a ideia de serem mulheres a caçar fantasmas, atirando internet fora acusações sobre “childhood ruined!”. Este (continuado) horror misógino – e também racista, dirigido a Leslie Jones [http://www.theverge.com/2016/7/19/12221452/ghostbusters-leslie-jones-twitter-abuse-racist] – afetou o filme e as pessoas envolvidas no filme, sendo uma demonstração do sexismo que continua a existir. Se quiserem ler mais sobre isto, sugiro este texto do Devin Faraci, do Birth.Movies.Death. Estes dois problemas, para melhor ou pior, e eu sou da opinião que “para pior”, afetaram demasiado a identidade deste filme.

Para tentar responder às críticas e tentar legitimar o mais possível este reboot, não só o filme segue uma linha narrativa bastante semelhante à do original, como está constantemente (isto não é uma hipérbole) a citá-lo, seja através de pequenas menções, frases ou piadas recorrentes (sabiam que os Caça-Fantasmas originais adoravam comida chinesa? Mesmo que não saibam, vão perceber rapidamente), ou seja através de cameos (pequenas aparições) de atores do filme original* – Bill Murray, Dan Aykroyd, Sigourney Weaver, Annie Potts, Ernie Hudson – que param absolutamente o filme enquanto este está em movimento numa tentativa de acalmar os fãs: “temos a bênção dos originais”.

Há, contudo, coisas boas o suficiente para salvar o filme. Especialmente a Kate McKinnon.

CF1

Apesar deste filme sofrer da mesma vénia nostálgica relativamente ao que já foi evidente no caso de filmes como Star Wars: O Despertar da Força, Mundo Jurássico e Exterminador: Genisys (todos de 2015) –, o reboot d’Os Caça-Fantasmas é bem-sucedido, tal como n’ O Despertar da Força, naquilo que interessa: gostamos das personagens e da sua química e queremos ver o que vai acontecer a seguir. Infelizmente, o filme perde personalidade pelo caminho por só ter olhos para o seu passado. No cômputo geral, o filme tem boas piadas (é bastante citável), é um pouco assustador (no bom sentido) e está cheio (ou, pelo menos, percebe-se que está cheio) de uma camaradagem de encher o coração. As quatro atrizes principais têm claramente imensa e bem oleada química. Finalmente e felizmente, houve um update ao design dos fantasmas que está muito mais bonito e realista, bem como mais assustador e menos tonto do que as versões anteriores.

É também importante realçar o quanto não-sexista é este filme especialmente quando comparado com o original, ficando provado que colocar mulheres em papéis fundamentais muda completamente esta franchise. Em vez da atitude-para-com-mulheres desconcertante de Venkam, há real amizade e confiança.

Infelizmente, há um problema de pouca personalidade. Estas atrizes, mesmo que exímias a fazer improvisação, precisavam de um guião mais sólido, de relações mais bem construídas e de um terceiro ato que fizesse sentido. Na altura do clímax, sente-se (mesmo que erroneamente) que as regras pelas quais os fantasmas se gerem foram alteradas e as coisas fazem pouco ou nenhum sentido. Há ali um desenho de um showdown potencialmente engraçado, mas simplificado por razões desconhecidas, e uma boa parte enviada para os créditos finais.

Apesar de Paul Feig ter tido em Spy um bom test run sobre como se faz uma comédia de ação, este Caça-Fantasmas é visualmente pouco interessante e, até, um pouco desarticulado: certas coisas parecem ser ditas (ou feitas) apenas porque está no guião, não tendo oportunidade de existir organicamente. É a primeira vez que Feig tem nas suas mãos um orçamento e um filme desta magnitude, bem como é a primeira vez que pega em elementos do horror e faz um filme mais familiar em 10 anos, e não se dá nada mal. Contudo, gostava de ter visto – numa equipa com tantas mulheres em tantos postos – uma mulher a realizar este filme, com um bom sentido de timing cómico e um bom olho para a ação.

Mesmo a parte essencialmente cómica – uma parte especialmente subjetiva, sem dúvida – deste filme deixa a desejar. Sente-se que já se ouviu estas piadas ou que este estilo está desgastado. Poucas vezes há real irreverência ou a sensação de se ouvir algo totalmente inesperado. É possível, até, que a melhor piada tenha sido improvisada pelo encantadoramente divertido Chris Hemsworth (também conhecido como Thor, nos filmes da Marvel Studios), que se diverte imenso no papel de secretário burro e cuja piada do “Mike Hat” é maravilhosa e uma ótima versão/piscar de olhos ao “Who’s On First” de Abbot e Costello.

Independentemente dos seus problemas, este filme vale completamente a pena ver e mostrar ao máximo de gente possível. Não há nada mais comovente e audacioso e “claro-que-isto-resulta” e galvanizante do que ver (estas) mulheres a caçar fantasmas.

* Até o Slimer aparece, cortando totalmente a estética de fantasmas, só para piscar o olho.

Texto: Ana Cabral Martins
Fotografia: Direitos Reservados

Etiquetas

#cinema #filme