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Burial: o culto do mestre ou 10 anos depois de Untrue

Chegavam à porta perto da 1h da manhã, apátridas de uma nação que levou na house music de Bob Sinclar ou Martin Solveig a bandeira máxima. O caminho era de uma repetição extenuante mas, da entrada para a frente, havia um pedaço de pequenos tudos a alimentar os gritos e a estremecer o corpo a cada bpm faminto de ouvido. Havia – como quase sempre – fila. Mas ali, os minutos ocupavam-se de cigarro na mão e de sorrisos perfurados pelo fumo, diluindo a espera na maior suavidade.

O espaço era pequeno, estranho, como um altar privado onde dezenas de corpos comungavam simultaneamente. Xinobi, Moullinex, Bandido$ ou Manaia faziam frequentemente as honras num free for all de talento primaveril que haveria de os ver florescer como artistas de referência.

Lá dentro, o electro esmagava colunas. “Phantom Pt. II” e “Positif”  aqueciam um ambiente de volátil expectativa, mas era com “Cornelius”  ou “Dancing In The Dark” que o Mini Mercado chegava mais próximo da erupção.

A sobrecarga sensorial desses dias deu, rapidamente, lugar à emergência sonora de pequenas outras fibras. Por entre a inquebrável devoção ao recém chegado electro, o drum n’ bass ganhava corpo, encerrando sets de pura violência. E por entre o drum n’ bass, uma outra, de suavidade rítmica contrastante, o UK Garage.

A história de Burial começa aqui, como uma experiência assintomática que transformará irremediavelmente a cultura musical de 2006 até aos dias de hoje. O britânico, que até 2014 decidiu esconder a identidade, foi sinónimo de tudo o que é simples e cru na música. Pratos a rodar na escuridão absoluta da tecnologia era um lema contra-cultura, mas William Bevan levou-o à letra, deixando as linhas sonoras falar mais alto. Nada nele seria notícia, não fossem os dois primeiros trabalhos (Burial, 2006 e Untrue, 2007) contribuírem decisivamente para uma moldagem sucessiva de sons. Não foi o único, mas foi único.

As linhas de Bevan aterram em Lisboa por via do Mercado. As Quintas, Sextas e Sábados traziam às mesas de mistura quem tivesse a coragem e o bom gosto para enfrentar um público cada vez mais exigente. L.A. Project, Los Mentirozos ou Boots of Steel foram a vanguarda progressista que levou pela primeira vez a eco o UK/Future Garage. A música era nova, diferente, quebradiça das raízes electro mas composta o suficiente para confortar a descoberta. “Archangel” e “Homeless” rodaram indefinidamente, elevando o disco Untrue ao habitat natural que Burial lhe havia definido: A pista de dança.

Este ano, em Novembro, o álbum fará 10 anos. Daquelas 13 faixas emergiu uma nova geração de músicos cuja inspiração no trabalho de William Bevan foi decisiva. O dubstep haveria de daqui brotar, no seu estado mais puro. Projectos como Joy Orbison, Disclosure, Jacques Greene, Skrillex ou Julio Bashmore tomariam a conduta de Burial como exemplo, mas também James Vincent McMorrow ou James Blake. O disco, que levou a crítica ao chão, foi nomeado para um Mercury Prize em 2008 e hoje, Bevan continua a ser um dos produtores mais respeitados da indústria, ainda que, apesar da mudança no som, nada no seu ADN reservado tenha sofrido metamorfose.

Texto: Tiago Neto
Fotografia: Direitos Reservados

 

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