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Há arte contemporânea no Parque da Pena

Foi no dia 25 de junho, no Parque do Palácio da Pena, em Sintra, que inaugurou a exposição coletiva site-specific “Point of View”. Antes disso, muito antes disso, os artistas estiveram no local a montar as suas peças, com algumas a exigirem meses de trabalho. A exposição marca o bicentenário do rei D. Fernando II, o rei-artista, que transformou a paisagem de Sintra, antes composta por vegetação baixa, na luxuriante instalação natural que conhecemos hoje. O Parque do Palácio Nacional da Pena é o expoente máximo desta vocação do monarca, onde se encontram plantas e árvores vindas dos quatro cantos do mundo, da Austrália e Nova Zelândia à América do Norte e ao Brasil.

A premissa da exposição “Point of View” foi precisamente a de expandir o diálogo iniciado por D. Fernando II entre arte, arquitetura e natureza, a uma linguagem contemporânea, para a qual foram convidados dez artistas, portugueses e internacionais. As peças ficarão no Parque da Pena durante um ano, até 25 de junho de 2017, e algumas delas acabarão destruídas pela ação do tempo e do clima, porque é também este diálogo que interessa explorar, entre a construção humana e a natureza. Antes de falarmos sobre os artistas e os seus trabalhos, vejam a nossa visita guiada em vídeo. Mais importante ainda: visitem esta exposição. Têm quase um ano para o fazer, mas façam-no. Não se vão arrepender. O vídeo vai abrir-vos o apetite:



Começámos pela obra de João Paulo Serafim, um dos mais importantes fotógrafos no panorama português da arte contemporânea. A sua peça, “Camera (obscura) para múltiplos pontos de vista”, é uma camera obscura feita em acácia, a planta infestante da zona, e mostra no seu interior várias vistas captadas por lentes a partir da construção. Esta obra, além de evocar os primórdios da fotografia, está também ligada a dispositivos usados como auxiliares para a pintura de paisagem.

De seguida, vimos a obra de Paulo Arraiano, artista português nascido em 1977. “White as the reference from the escape of green” é o título da sua obra, que representa um corte de vários metros na terra, preenchido com cal. Aqui, o branco representa a ação humana, a arquitetura e a imposição urbana ao natural. Como a ferida no corpo, analogia também presente na peça, este corte “cicatriza” com a passagem do tempo, quando a cal quebrar e a ferida se fechar.

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A terceira obra que visitámos foi a de Stuart Ian Frost, artista inglês sediado na Noruega. A sua peça, “Esporo”, pode parecer uma mera escultura de madeira e cortiça, mas todo o processo da sua criação é parte da obra. Levando a cabo uma profunda investigação do local, Stuart Frost construiu a sua peça manualmente, com a ajuda de uma equipa, no próprio local, transportando materiais em cavalos de trabalho, e utilizando apenas matéria-prima da região. O cilindro oco evoca o tronco de uma árvore caída, mas também os padrões árabes, presentes no próprio Palácio da Pena.

Nils-Udo, alemão nascido em 1937, foi a quarta paragem do nosso passeio. Este artista, considerado um dos pais da land art, cria obras com um cariz extremamente efémero, que desaparecem rapidamente na natureza, pelo que muitas vezes o registo fotográfico das suas criações torna-se quase a própria obra. Para esta exposição coletiva, Nils-Udo idealizou a criação mais minimalista. “Clareira”, o título que deu à obra, é auto-descritivo: o artista abriu uma pequena clareira no Parque e colocou-lhe relva. Há fortes possibilidades de muita gente passar pela obra sem reparar que é uma intervenção artística, mas quando se repara nela, a relva é, muito claramente, um elemento estranho, num Parque que tem todo ele um ar selvagem e de vegetação quase “descontrolada”. Aquela pequena clareira de relva é a natureza feita arte.

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A primeira metade da exposição ficou concluída com a obra “Sem título” do mexicano Bosco Sodi (1970). Conhecido pelas suas telas de grandes dimensões, Bosco Sodi criou uma instalação feita de cubos de madeira, criando quatro paredes quase encerradas, mas que deixam entrever o interior, onde há mais cubos empilhados. Com relva a crescer por entre os cubos que formam as paredes, e com as texturas e anéis da madeira perfeitamente visíveis, a obra convida à imaginação e ao completar do seu significado por parte do observador.

Inicíamos a segunda metade da exposição com a obra da polaca NeSpoon, uma artista que vem da street art e que, na sua biografia, diz ter nascido em 2009. NeSpoon criou uma gigante teia de aranha com apontamentos que parecem naperons, cruzando assim o natural – as teias que as aranhas fazem – com o humano – a renda, o crochet e outras técnicas. Bastante vulnerável à ação do tempo, a teia já estava bastante mais reduzida quando a visitámos, face ao seu aspecto original.

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O sétimo momento da nossa visita levou-nos à “Cura” de Antonio Bokel. Esta obra com o seu quê de místico, do artista brasileiro nascido em 1978, consiste em três troncos de cedro, geometricamente afastados, formando um triângulo perfeito, coberto de relva, que aponta para o Palácio da Pena. Cada um dos troncos tem uma escultura em bronze, de uma mão cujo braço se vai assemelhando aos galhos de uma árvore. Ao centro, há um pequeno tronco que serve de banco e no qual está incrustado um cristal. O título da obra remete para o poder da natureza e da arte na cura, e o seu todo remete para rituais pagãos.

A “Mandala” de Alberto Carneiro foi a nossa próxima paragem. Desde logo, saltam à vista as pirâmides feitas com troncos de árvores que fazem parte da instalação do artista português, nascido em 1937. Mas depois percebemos que há mais: as árvores que ladeiam as pirâmides parecem normais, até repararmos que no topo têm raízes em vez de ramos. Foram sete árvores que Alberto Carneiro colocou de pernas para o ar, com as raízes à mostra, numa obra que, no seu todo, forma esta mandala que representa os mistérios e esplendores da natureza.

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Alexandre Farto, mais conhecido pelo seu tag dos tempos do graffiti, Vhils, criou uma obra intitulada “Palimpsesto”, a penúltima da nossa visita. O artista português, nascido em 1987, escolheu a zona onde estão as árvores mortas do Parque da Pena (a cada tempestade há imensas árvores que caem no Parque) e criou um caminho por entre este “cemitério” de árvores. Ao longo do percurso, encontramos alguns rostos e palavras e frases esculpidos nos troncos, ao estilo do que Vhils faz com nas paredes das cidades.

Para terminar o nosso percurso só faltava a obra de Gabriela Albergaria (1965). “O ciclo orgânico do solo” consiste num passadiço de madeira, que isola uma área do parque destruída por duas tempestades. O contraste brutal entre a organização do passadiço e o caos das árvores caídas cria uma visão poderosa que releva a beleza, decadência e a constante alteração da natureza, como descreve a própria artista. Deixando as árvores caídas ali e fazendo delas parte da sua obra, Gabriela Albergaria mostra o que acontece antes dessas árvores irem parar ao tal “cemitério” onde Vhils interveio. Ao longo do ano, naturalmente, vai haver partes do passadiço que se deteriorarão, e vida a emergir dos escombros das árvores caídas.

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Texto: Gonçalo Mira
Fotografia e Vídeo: Alexandre Murtinheira