276 Visualizações |  Gosto

A importância do Guarda-Roupa de “The Crown”

A série original da Netflix The Crown, sobre a vida da Rainha Isabel II de Inglaterra, foi recentemente galardoada com dois Globos de Ouro: Melhor Atriz (Claire Foy) e Melhor Série Dramática (um feito incrível na categoria de Televisão dado que Netflix é uma plataforma online que acaba de receber um prémio prestigiante que dilui as linhas entre o que é ou não é televisão).

Este talvez seja o momento ideal – já que andamos a falar sobre guarda-roupa cinematográfico – para falar do maravilhoso trabalho feito pela série em termos de detalhes de produção, especificamente em termos de moda e guarda roupa.
A primeira temporada de The Crown é perfeita no sentido de realizar uma retrospetiva sobre a moda e estilo de vida dos anos 50 no Reino Unido, ajudando-nos a fazer uma visita ao passado de forma a dar a conhecer alguns dos momentos mais marcantes do século XX. A série dá também a conhecer os responsáveis pela criação da imagem da, então, jovem Rainha no início do seu reinado: estes foram o estilista Norman Hartnell e o fotógrafo Cecil Beaton, dois nomes incontornáveis da moda e estilo. Se por um lado, a série dá a conhecer, de forma dramatizada, estas importantes figuras da vida real e o seu impacto na vida pública de Isabel II, é também importante salientar o trabalho excepcional da figurinista Michele Clapton (Game of Thrones, Sense and Sensibility) que dá vida à série, recriando as roupas e o ambiente da época, contanto efectivamente uma história através do que as personagens usam.

collage

No caso de Norman Hartnell, embora o criador só apareça na série no episódio que foca a preparação da viagem da Rainha pela Commonwealth, esse é um momento marcante na história. O estilista é encarregue de desenhar o guarda-roupa da Rainha, inspirado nas flores típicas de cada país da Commonwealth. Ele realiza trabalhos para a Princesa, e mais tarde Rainha, onde também se incluem o seu vestido de noiva e o vestido da coroação, presentes e proeminentes na série. O guarda-roupa criado por Norman Hartnell para a Rainha Isabel II, no início do seu reinado, tem como objetivo marcar a sua imagem enquanto uma de juventude e progresso, colocando a monarca enquanto ícone de estilo da sua época.

TheCrown_108_1083r

O fotógrafo Cecil Beaton também é focado na série no primeiro e no último episódio. O artista é reconhecido pelo seu trabalho enquanto retratista de diversas casas reais, bem como na área da moda e celebridades. No seu livro The Happy Years, o artista retratou o casamento de Isabel Windsor e Filipe Mountbatten e posteriormente momentos familiares do casal com os filhos. Cecil Beaton foi uma peça chave na recuperação da imagem da casa real britânica que estava ainda abalada pela abdicação de Eduardo VIII. Este reconhecido fotógrafo teve um papel importante na criação de uma (nova) imagem propagandística e moderna para a casa de Windsor e para a Rainha Isabel II, em particular. O seu trabalho acabou por ditar a visão que a casa real inglesa possui na atualidade. Todo esse trabalho está em The Royal Portraits um livro singular sobre a monarquia britânica.

A título de curiosidade, é engraçado mencionar que o Capitão Peter Towsend, o amor proibido da Princesa Margarida, também está indiretamente ligado à moda. Após a rutura com a Princesa, o capitão Peter Towsend casou com uma jovem belga. Fruto dessa união nasceu Isabelle Townsend, modelo das campanhas publicitárias de Ralph Lauren na década de oitenta.

TheCrown_105_3036r2

Este texto não estaria completo se não mencionasse o extraordinário trabalho da figurinista Michele Clapton (vencedora de dois Emmys para Melhores Figurinos numa Série), que já trabalha há 20 anos para o cinema e para a televisão. O seu trabalho no cinema inclui Antes de Adormecer, do realizador Rowan Joffe, A Rainha do Deserto, do realizador Werner Herzog, Ali and Nino, do realizador Asif Kapadia, e, mais recentemente, The Death and Life of John Donavan, do realizador Xavier Dolan.
Em televisão, trabalhou em projetos como Sense and Sensibility, que lhe mereceu uma nomeação para Melhores Figurinos numa Minissérie para Televisão nos prémios Costume Designers Guild de 2009, e A Amante do Diabo, realizado por Marc Munden, que lhe mereceu o prémio BAFTA para Melhores Figurinos, também em 2009. Michele foi figurinista das cinco temporadas de A Guerra dos Tronos, tendo voltado nos últimos episódios para criar as roupagens marcantes de “Battle of the Bastards” e “The Winds of Winter”. Como esquecer o vestido incrível de Cersei no final da sexta temporada?
O guarda-roupa criado por Michele para a primeira temporada de The Crown não é menos inesquecível e aconselho que leiam a análise deste na série feita por Tom and Lorenzo porque eles conseguem não só apontar a verossimilhança com a roupa utilizada na vida real, como são mestres em apontar os temas e as relações que o guarda-roupa consegue ir estabelecendo de cena para cena e de episódio para episódio, contando, ele próprio uma história de forma única. É através do guarda-roupa que vamos vendo não só a evolução da Rainha Isabel II, mas também cada característica de cada personagem e a maneira subtil como são apresentados ao mundo através das suas roupas e de como estas revelam os seus sentimentos, ambições e aspirações.

TheCrown_108_2238r



Texto: Ana Cabral Martins
Imagens: Direitos Reservados/ Netflix