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A Bela e o Monstro é um prazer frustrante

Para muitas pessoas – yours truly incluída – o clássico de animação da Disney A Bela e o Monstro (1991) é isso mesmo,um clássico. É, sem dúvida, um dos melhores filmes da Renaissance da Disney – dez anos, de 1989 a 1999, que viram o departamento de animação da Disney a voltar sob a tutoria do presidente Jeffrey Katzenberg – e uma das melhores e mais conhecidas bandas sonoras do entretenimento do século XX. As letras foram compostas pelo dramaturgo e letrista Howard Ashman e a banda sonora pelo compositor Alan Menken, uma dupla que trabalhou também na A Pequena Sereia e em Aladdin, entre outros. Ashman era um letrista talentoso que teve uma influência muito forte na qualidade dos filmes em que trabalhou para a Disney e foi decisivo para o seu estatuto enquanto clássicos*.
O filme – que conta com as vozes de Robby Benson, Paige O’hara, Richard White, Jerry Orbach, David Ogden Stiers e a minha favorita Angela Lansbury – foi um sucesso de box-office, tendo lucrado $425 milhões em todo o mundo. Venceu ainda o Golden Globe para Melhor Filme Musical ou de Comédia e foi o primeiro filme de animação a ser nomeado para o Óscar de Melhor Filme, numa altura em que só havia 5 possíveis nomeações (ao invés das 10 ou 9, de hoje em dia).

Este enorme preâmbulo serve para salientar – não que este filme precise que eu o defenda – que este clássico da Disney não é um mero filme-para-crianças que não deva ser levado muito a sério, mas um genuíno feito cinematográfico que casou narrativa, personagens, música e efeitos de animação de uma maneira tão sublime que ainda hoje comove quem vê o filme.

Voltar a pegar nesta “propriedade” faz parte de um esforço concertado por parte do estúdio da Disney em re-fazer os seus clássicos de animação mas com atores e cenários reais e tentar fazer um pequeno “update” moderno às histórias. Podemos ver isso com Maleficent, com O Livro da Selva, com a Cinderela, e agora com A Bela e o Monstro. Este esforço é, sobretudo, uma maneira de capitalizar em propriedades intelectuais que sabem que terão sucesso, nem que seja porque as pessoas querem ver uma versão moderna e “real” dos seus filmes de infância.

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Comecemos por Bill Condon, o realizador. OS seus bona fides estão no facto de ter realizado musicais como Dreamgirls e Chicago, tendo sido também o realizador de Twilight Saga: Breaking Dawn Part 1 e 2, bem como de Mr. Holmes e Kinsey.O seu cunho, e onde o filme ganha, vê-se bem em números musicais como “Belle” (a música que acompanha Belle enquanto passeia pela aldeia) e “Be Our Guest”, sem dúvida o momento mais mágico e espectacular de todo o filme. Esse cunho, vê-se também no genérico final, um momento bastante teatral que Condon já utilizou em Twilight: Breaking Dawn que vê os nomes dos atores a serem mostrados enquanto as suas personagens aparecem no ecrã em câmara lenta – ainda não sei se é piroso ou divertido. Condon é um realizador competente, que tenta realmente trazer alguma magia, esplendor e, sobretudo, deslumbre e opulência ao filme (com guarda roupa, maquilhagem e danças elaboradas) mas que não consegue trazer nada realmente novo, ou sublime a este re-contar de uma história “as old as time”. A adição de uma “backstory” a Belle e a Beast acaba por ser totalmente desnecessária e serve apenas para aumentar a duração do filme. As musicas originais que juntam ao filme são igualmente desnecessárias e, perto das restantes de Ashman e Menken, saiem a perder, francamente.

Os atores principais são Emma Watson (a Hermione Granger de Harry Potter mas também a “Valley girl” de Bling Ring), como Belle, e Dan Stevens (de fama conseguida com Downton Abbey, série da qual pediu para ser killed off, e a série Legion, agora em exibição na Fox), como Beast. Logo aqui, há outro problema. Emma Watson (e Bill Condon) tenta – admiravelmente – tornar Belle numa rapariga sassy, inventiva, a lutar contra normas que a sufocam e independente (perfeitamente justo, especialmente tendo em conta as raízes problemáticas da relação entre Belle e Beast). Mas na tentativa de tornar Belle numa personagem muito mais em linha com as sensibilidades do novo século, fica um pouco de parte a noção de quão bondosa, sonhadora e cheia de compaixão é Belle. Estes traços são os que tornam a sua capacidade de amar Beast num ato verdadeiramente credível. Também não ajuda que Watson não seja uma atriz, embora encantadora, com uma variedade de registos ampla. É, sem dúvida, boa e até excelente quando está confortavelmente dentro do seu registo Hermione (e hilariante em Bling Ring, talvez por ser tão “cast against type”), mas aqui não se nota tanto que esteja realmente a encarnar um personagem diferente do seu habitual.
Já Dan Stevens é excelente. O modo como diz as seus deixas, a cara expressiva de Beast e a maneira como canta, cheio de emoção e ardor, a pobre música que tem de cantar, leva-me a questionar o facto de acabar por ser menos bem aproveitado. A transformação pela qual todos esperamos no final? Não é a transformação que Dan Stevens e nós merecemos. Vê-se pouco a sua cara, quando podemos finalmente, é a minha queixa. Aliás, a transformação – e o momento dramático que a precede – foi um genuíno desapontamento, dando um twist (mais uma vez!) desnecessário, acrescentando uma “ruga” à história e ao momento climático que este não precisa. Até a música usada, não é a certa. Terei de ver novamente, mas suspeito que era música original ou uma reinterpretação que não casa bem.

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No final, a sensação que fica é a de um filme opulento em que a direção de arte é uma das maiores razões para que este seja visto – mas confesso que o vestido amarelo, o icónico do baile-a-dois, desaponta. Mas saí a desejar ver o clássico de 1991 para recapturar a magia.

Pensamentos Extra:
- Sobre o momento “exclusivamente gay” do filme, só posso dizer que a sua importância ou, sequer, percepção, é totalmente exagerada. LeFou é sugestivo mas nunca mais do que isso.
- Luke Evans como Gaston é um casting inspiradíssimo e o seu momento musical, juntamente com o LeFou de Josh Gad, é um momento hilariante e dos mais bem conseguidos no filme. Bravo! Kevin Kline como pai de Belle é também um casting inspirado, como são os objetos que vivem no castelo: de Ewan McGregor (Lumière) a Ian McKellen (Cogsworth), passando por Stanley Tucci (Maestro Cadenza) e Emma Thompson (Mrs. Potts), é tudo crème de la crème. O design destes objetos é que, mais uma vez, deixa um pouco a desejar.

* Ashman morreu de complicações de SIDA antes da estreia de A Bela e o Monstro e o filme é dedicado a ele: “To our friend Howard, who gave a mermaid her voice and a beast his soul we will be forever grateful.”


Texto: Ana Cabral Martins
Imagens: Direitos Reservados